Distopias

dis·to·pi·a(inglês dystopia)

substantivo feminino

Ideia ou descrição de um país ou de uma sociedade imaginários em que tudo está organizado de uma forma opressiva, assustadora ou totalitária, por oposição à utopia.

Eis uma definição com alguns pontos discordantes em relação à minha definição de distopia. Eu diria que não é tudo. Basta que a sociedade seja opressiva para um grupo específico de cidadãos, e que seja deste grupo que se descreva a sociedade onde se encontram.

we

Mais especificamente, vejamos We (Nós) de Zamyatin ou 1984 de George Orwell. Nestes dois exemplos clássicos de sociedades controladores é-nos descrita uma realidade que parece pacificamente aceite pela maioria. O que nos transmite o efeito de sufoco é a perspectiva das personagens que a relata, levada ao extremo pela forma como nos é apresentada.

TheOnesWhoWalkAwayFromOmelas

Em The Ones Who Walk Away from Omelas de Ursula le Guin diria, até, que a maioria dos cidadãos é feliz. Os que não são, abandonam a cidade. Uma forte distopia que, sem ser opressora nem extremista, mostra como uma sociedade pode ser aceitável pela maioria, mas revoltante para alguns. Um pouco como Fahrenheit 451 de Ray Bradbury – acredito que a queima de todos os livros fosse um acontecimento encarado com neutralidade por uma grande maioria. Para mim seria um inferno vivo.

fahrenheit

Mas se a perspectiva é um factor importante numa distopia, também é a forma como são descritos os factores opressivos – abrupta e alienígena. Esta forma causa uma forte repulsa e aversão no leitor, sentimentos que, em confronto com os mesmos elementos na realidade, não são tão fortes. Se há umas décadas atrás se falasse na extensa vigilância a que estão sujeitos os cidadãos comuns, provavelmente a reacção seria semelhante à dos leitores de distopias controladores como 1984. Pelo menos, quero acreditar, seria a reacção dos que não viviam iludidos sob ditadura.

little

A realidade actual? Provavelmente a vigilância estende-se muito para além do que os nossos piores pensamentos. Mas foi instaurada progressivamente, sob pretextos de falsa segurança para cidadãos comuns, e é quase silenciosa, o que faz com que possa ser facilmente ignorada. Little Brother de Cory Doctorow, uma versão mais actual e mais juvenil de 1984, consegue voltar a pegar nos elementos já quotidianos, adaptá-los e voltar a dar-lhes uma perspectiva repulsiva, um sentimento semelhante ao do livro de George Orwell ou Zamyatin.

BraveNewWorld_FirstEdition

Mais do que o elemento opressivos, é sem dúvida a exploração ao extremo de perspectivas que torna as distopias em leituras tão marcantes. Voltando a pegar num exemplo conhecido, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley descreve um futuro com elementos quase perfeitos não fosse a fria e distante apresentação. Alguns também explorados em O Último Europeu de Miguel Real que se refere à sociedade que contem como utópica. Será?

ultimo europeu miguel real

A geração de bebés em laboratório poderá ser uma opção viável para a diminuição dos níveis de fertilidade. Mas qual o seu efeito a médio / longo prazo para a espécie humana quando efectuada à exaustão? Qual será o real efeito de produzir bebés em massa fora do contexto materno, sem todas as flutuações hormonais que, enfim, nos fazem mais humanos? E quanto à possibilidade de selecção genética? Não terão, os novos seres humanos, possibilidade de conter a melhor combinação genética possível?

handmaid

Ah! Mas a Natureza é matreira. O que é a melhor selecção genética? Decerto não serão bebés de pele clara e olhos azuis. É que, até poderão ser, para alguns, mais agradáveis à vista, mas serão, decerto, mais susceptíveis ao cancro na pele. Nada de preocupante numa sociedade em que o cancro seja erradicado. A visão de hordas de guerreiros arianos até poderá ser orgásmica para alguns mas, do ponto de vista evolutivo, é uma desgraça e meio caminho para a extinção.

brave new worlds

Este é apenas um elemento do romance de Aldous Huxley – a produção de bebés em massa, com um pool genético previamente seleccionado e repetido à exaustão. Este avanço tecnológico, no romance de Huxley, é, também, sinónimo de individualismo extremo e diminuição do valor do indivíduo para os restantes elementos da sociedade. Se existem outras dezenas iguais, qual o valor de um único? Quanto aos sentimentos manipulados por medicamentos, porque não ser eternamente feliz, sem verdadeira preocupações? Enfim, porque não controlar a actividade e imaginação das crianças, consideradas excessivas por adultos que já não se recordam do que é a infância? Afinal, não será o que todos querem, um mundo mais ordeiro e controlável?

No meio de toda esta igualdade, onde haverá lugar para a evolução?

lottery

Não parece, mas este tópico tinha um objectivo diferente: apresentar uma série de artigos interessantes sobre distopias; um dos géneros mais interessantes na ficção, que permite realizar interessantes exercícios e expor elementos reais conferindo-lhes características mais alienantes e chocantes. Eis então:

Why Brave New Worlds is no Longer the Terrifying Dystopia it Used to Be – Este é o artigo que me fez discorrer sobre o tema, um artigo onde se apresentam alguns avanços tecnológicos que originaram as famosas distopias e que, estando hoje disponíveis, são comummente aceiteis por todos;

Top 5 Dystopian Novels of all time – Sem falhar algumas das mais conhecidas distopias é uma lista demasiado pequena. Ficam de fora os livros de Margaret Atwood como The Handmaid’s Tale ou The Child Garden de Geoff Ryman, The Lottery de Shirley Jackson, ou, ainda os livros de Ursula le Guin (como The Dispossessed). Já para não falar de todos os outros que fui referindo nesta entrada;

Finding the lit in dystopian literature – Outra lista com mais bons exemplos, e bastantes que desconheço. Entre os escolhidos encontra-se Station Eleven que classificaria mais como apocalíptico do que distópico. Talvez um preciosismo, mas ainda que os cenários apocalíticos costumem ser caóticos, não costumam apresentar uma sociedade opressora.

Um pensamento sobre “Distopias

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