
Com a notícia de que Adrian Tchaikovsky viria a Portugal para a Eurocon 2027, decidi-me a ler alguns dos livros que cá tinha dele. É um autor bastante prolífero com várias séries de ficção científica e de fantasia, pelo que me decidi a pegar primeiro num standalone, um volume isolado que conta uma história, sem necessidade de continuação. Ainda que já tivesse lido críticas bastante positivas não sabia muito bem o que esperar – talvez, também, por isso, este Service Model me tenha surpreendido tanto, tornando-se decerto uma das melhores leituras deste ano.
A história companha Charles, um robot que tem como missão ser o assistente doméstico do seu dono. Todos os dias segue uma rotina rígida, carregada de tarefas inúteis, coordenando-se com os restantes robots da casa para garantir que tudo o que o dono queira possa ser possível. Desta forma, a roupa é sempre preparada para uma potencial viagem e tudo está pronto para receber possíveis convidados. Igualmente tenta coordenar-se com a assistente doméstica da esposa do dono, que já não está em casa. Apesar da absurda e óbvia falta de optimização de procedimentos, a rotina parece dar um sentido de concretização a Charles – se é que tal coisa se pode dizer de um robot.
A narrativa ganha rapidamente contornos ainda mais surreais quando Charles, por engano, mata o seu dono – episódio suis generis, que leva a toda uma série de episódios aberrantes, em que uma série de robots segue os seus procedimentos específicos, mas que, quando coordenados ou integrados num sistema, resulta numa sucessão pouco lógica e, no mínimo, cómica. Sem dono e após umas quantas reviravoltas estapafúrdias, Charles irá seguir o procedimento de ser diagnosticado e procurar um novo humano para servir.
When one of the kitchen domestics had begun breaking plates, it had only been on the third breakage that the unit had been retired as unfit for purpose. Given the consirable investment in domestic service that Charles represented, surely he should be allowed to murdre three, or even five people before being deemed irreparably unfit for service.
Sem querer revelar muito mais da história, para não estragar a leitura a futuros leitores, refiro apenas que, a meio, Uncharles (novo nome do robot) irá procurar humanos para servir numa quinta que visa fazer uma reconstituição histórica de tempos passados, onde os robots não existiam, e os humanos eram obrigados a percorrer horas de trânsito para chegar a casa. Só que nesta reconstituição não se encontram actores, antes seres humanos aprisionados que desconhecem existir um mundo lá fora. Tudo isto é gerido por um ser humano com sede de poder sobre outros seres humanos. Um verdadeiro Big Brother em miniatura, com contornos irónicos pela forma como os tempos actuais são recordados neste futuro incerto que cria um sistema simultaneamente fascinante e enlouquecedor:
Uncharles, each of our conscript volunteers is subject to an exhaustive personality inventory. To be the boss of an office at the Project is to be responsible for creating a historically authentic atmosphere for all the other workers. It is absolutely vital that appropriate level of introdusive micromanagement, divisive paranoia, bullying, and the threat of arbitrary punishments are maintained, so that we can truly re-create the folkways of the past. Also a propensity for calling meetings at regular, and indeed irregular, intervals.

Pelo meio, encontramos, ainda, bibliotecas universais que se tornam uma espécie de Biblioteca de Babel (nem que seja numa execução mais A Short Stay in Hell) onde tudo deve ser guardado, mas a programação origina consequências no mínimo curiosas, e análises à sociedade humana:
Paradoxically, the introduction of robots highlights how humans treat humans.
Em vários níveis, Service Model é uma leitura formidável. Olhando como pessoa que trabalha em sistemas informáticos, é engraçado perceber como a programação de cada uma das partes, sem que exista uma perspectiva de sistema, gera tamanha confusão. Em mais detalhe, quem é que aprovou os testes integrados desta combinação de partes? Cada robot tem as suas rotinas e protocolos, sendo que em normais circunstâncias a execução de todos os passos daria uma rotina funcional, mas quando algo diferente acontece, se criam sequências mirabolantes.
A perspectiva analítica de (Un)Charles é também peculiar. Partindo de uma série de suposições lógicas chega a resultados estranhos, como na transcrição acima em que partir pratos equivale a vidas humanos. Os procedimentos cumprem-se mesmo que não exista o espectador humano para o qual são feitos. As consequências da programação são levadas ao extremo, seguindo-se os procedimentos programados, sem real capacidade de inteligência ou de dedução. Tudo é absoluto.
Num mundo onde os humanos desaparecem, ou escasseiam, e a sociedade colapsa, o que se poderá suceder? Os sistemas automatizados continuam a tentar proceder conforme a programação, sendo que a deterioração e falta de manutenção, geram um caos extravagante. Service Model mostra um apocalipse com a queda civilizacional dos humanos, pelos olhos de um robot que pretende, apenas, encontrar o próximo humano a quem servir.
Service Model revela-se uma sátira genial, quer à humanidade quer à automatização extrema, uma crítica bem humorada mas acertada, principalmente nestes tempos em que se pretende substituir tudo por uma inteligência artificial à qual falta a esperteza existencial. Apesar do bom humor, a história não deixa de apresentar alguma melancolia, numa perspectiva que pode ser até enlouquecedora pela falta de sentido prático.