Bone – Jeff Smith

Eis uma das leituras mais fabulosas, épicas, espectaculares dos últimos tempos. Mas não é uma obra fácil de enquadrar e falar. O que me leva a elevar este volume ao top de leituras do ano, sendo que ainda nem a metade do ano vamos? Bem, várias coisas. Por um lado realça-se a excelente caracterização e desenvolvimento das personagens, bem como dos seus relacionamentos. Por outro, a história inicia-se com uma aparente simplicidade que, com a progressão se revela uma trama complexa de ligações insuspeitas! Mas, acima de tudo, o desenho! Expressivos, e fofos! Até os monstros!

Antes da leitura não tinha encontrado nenhuma descrição que fizesse justiça ao colosso que viria a encontrar. E qualquer descrição que faça parece-me demasiado simplista. É uma história que se alonga por mais de 1300 páginas mas que, mesmo assim, nos deixa a querer mais! Mais aventuras, mais histórias em torno destas personagens. E foi este sentimento final que já me levou a encomendar alguns spin-offs.

A história

A história começa por nos mostrar três primos perdidos no meio do deserto: Fone Bone, Phoney Bone e Smiley Bone. Os três foram expulsos da cidade de Boneville por conta de Phoney Bone e deambulam pelas dunas em busca de qualquer local com água. Desde cedo percebemos que as personalidades do trio são bastante diferentes. Phoney Bone é tipicamente um oportunista, alguém que anda sempre à procura do próximo esquema para enriquecer e terá sido exactamente este espírito que terá levado à sua expulsão da cidade. Smiley Bone é uma espécie de pateta – mentalidade simples e brincalão, mas sempre bem disposto. Já Fone Bone é, dos três, o mais equilibrado – capaz de decidir o que é correcto, corajoso e bem intencionado, mas também algo inocente na sua perspectiva do mundo.

Quando finalmente encontram um mapa, conseguem sair do deserto, mas acabam por se separar ao tentar fugir de uma nuvem de gafanhotos. A partir deste ponto a história centra-se, sobretudo, em Fone Bone que, tendo descoberto um vale, aqui passa o Inverno sem os primos. Estes meses de intensa neve são passados a conhecer outras personagens e, apesar de alguns episódios mais movimentados, esta parte da história serve para desenvolver a personalidade de Bone e nos mostrar a sua usual forma de agir. Este quotidiano é quebrado quando Bone conhece Thorn, uma jovem humana e se muda para a quinta. Aqui acabará por conhecer a avó de Thorn, uma personalidade peculiar, directa, bruta mas forte para a idade e que vencerá todos os anos a corrida das vacas.

Esta mudança de local é o ponto em que a história muda de um relato inocente sem grandes consequências para uma aventura épica. Com a próxima corrida das vacas Bone dirige-se com Thorn e a avó à vila, descobrindo a localização dos seus primos. A partir daqui, as criaturas rato que habitam o vale parecem acordar e, comandadas pelo Senhor dos Gafanhotos, procuram um dos Bone. O objectivo? Desconhecemos, mas decerto não será bom. O Senhor dos Gafanhotos é uma personagem sombria que recorda um mago maligno e que parece estar ao serviço de uma personalidade incorporal maléfica.

A narrativa

A história, épica, contém elementos cómicos e fantásticos. Por um lado, temos diálogos inusitados entre as criaturas rato – desde a sua obsessão por quiches, à sua incapacidade de caçar. As criaturas são perigosas, mas a sua postura é desengonçada e acabam sempre por falhar nas caçadas. Estes pequenos episódios de perseguição recordam alguns desenhos animados clássicos, como Tom & Jerry ou o Coiote e o Beep Beep. O resultado é óbvio – mesmo sendo Bone a personagem principal, conseguimos sentir alguma empatia por estas duas criaturas esfomeadas e de mente simples.

Por outro lado, a interacção entre os primos constitui, também, por vezes, um elemento cómico. Phoney Bone inventa esquemas mirabolantes recorrendo a discursos e a rumores para manobrar as massas, conseguindo captar a ajuda de Smiley Bone que, de mente simples, não vê grande maldade nas manobras do primo. Ou assim nos parece no início, sendo que existem um momento chave em que iremos perceber existir algo mais no relacionamento disfuncional dos primos que nos explica porque se mantém juntos.

A forma como Phoney Bone consegue manobrar as massas parece uma crítica social. Phoney usa, para além de rumores, os medos mais básicos de qualquer pessoa, para conseguir criar uma imagem na cabeça da população – uma imagem em que existe um perigo comum do qual têm de se defender, uma imagem em que é ele o possível salvador da situação, aquele que tem um plano e cabeça para o defender. Adicionalmente, as meias verdades e as perguntas direccionadas servem para enfrentar os argumentos a desfavor que encontra

“I’m doing this out of concern, that’s all. The world is a very danferous place, and we want to keep it at a distance” “You do care about the safety of your neighbors, don’t you?” “I can’t see why you woudn’t want to cooperate with something that guarantees th’ safety of your neighbors” (p. 524-525)

Estes sucessivos episódios de Phoney Bone são um exemplo perfeito das estratégias populistas que usam os instintos básicos para criar o medo de algo inexistente, alienando as pessoas do verdadeiro perigo. Estes esquemas levam a própria população a cooperar com estratégias que culminam com a perda de poupanças ou com o investimento de tempo e esforços de forma inútil.

A história de Bone evolui lentamente de uma narrativa simples e pausada (salvo os iniciais episódios de perseguição pelas criaturas rato) para uma história épica. Os relacionamentos tornam-se mais fortes, segredos são descobertos, identidades são reveladas. Mas tudo isto ocorre de forma progressiva e suficientemente pausada para não ser estranhado pelo leitor.

Os elementos fantásticos são quase inexistentes no início (salvo a diferença anatómica dos Bone e a existência de um dragão que não faz nada de extraordinário), mas com o decorrer das páginas vão sendo acrescentados outros elementos de forma contida. De realçar que quase todas as referências a magia são negativas – são os elementos mágicos que perturbam o quotidiano pacífico no vale e são os elementos mágicos maléficos que põem em curso guerras e confrontos.

Ainda que Fone Bone seja a personagem principal, não é ele o herói principal, mas Thorn. A jovem deixa parte da sua inocência e descobre os seus poderes – mas, novamente, não são poderes fantásticos e fabulosos. São poderes perigosos que despertam pesadelos e trazem inquietação, levando à revelação de vários segredos infelizes. O caminho que espera os nossos heróis será duro e, como uma história épica, existem fazes de demanda, em que se unem esforços. Existem traições e acções idiotas, mas também actos de coragem e episódios carregados de empatia. Sente-se uma progressão no caminho do destino que os leva a enfrentar um perigo real.

Existem amizades e competições, bem como segredos partilhados e paixões perdidas. Ainda que tenhamos personagens femininas e masculinas, o amor nunca é central na acção – não condiciona nem estupidifica, nem pertence a um grande final de conto de fadas. Bone envereda por outros caminhos, usando o fascínio que Fone nutre por Thorn como uma forma de estabelecer uma ligação entre as personagens, mas não a resume a isso. Da mesma forma que o enredo se torna mais complexo, bem como os objectivos das personagens, também as personalidades e os relacionamentos evoluem e ganham novas dimensões: as personagens não são perfeitas, têm as suas inseguranças e as suas falhas, os poderes não são maravilhosos e fantásticos, mas um peso, tanto psicológico como físico. São exactamente estes detalhes que permitem construir uma narrativa sólida e envolvente.

Outro dos elementos que se destaca em Bone como fantástico, é o espaço. Curiosamente, Boneville, a cidade original dos primo Bone nunca é vista pelo leitor, mas é narrada e, como tal imaginada. Todas as referências parecem remeter para uma cidade moderna, onde existe tecnologia, dinheiro e grandes lojas (algumas indicações de grandes cadeias semelhantes a Telepizza ou McDonalds). Estas descrições contrastam com o vale onde decorre a maior parte da acção. A maioria das personagens vive no meio da floresta ou na montanha, existindo algumas, de aspecto humano que existem numa vila de aspecto medieval. Todas as trocas comerciais se fazem pela troca de coisas ou serviços, não existem máquinas nem mecanismos.

Bone é a narrativa épica quase perfeita, em que a perfeição só é tingida pelo final, necessário, mas que não respondeu totalmente à possibilidade de felicidade eterna.

O Desenho

Ainda que exista uma versão a cores mais recente, o original é a preto e branco. Mas, sinceramente, não senti aqui a necessidade de cor. O autor usa o preto de diferentes formas consoante o episódio, conseguindo usá-lo para representar paisagens detalhadas, fazer jogos de luzes durante uma trovoada, ou destacar os pesadelos mágicos e criar um ambiente negro apropriado.

O movimento é bem captado nos desenhos e complementado com onomatopeias originais e apropriadas. Já as expressões faciais e corporais vão acompanhando o momento narrativo, conseguindo tornar-se caricaturas carregadas em momentos mais cómicos e leve, ou adquirir contornos mais sérios e graves, quando necessário. Sente-se o estado de espírito da narrativa pela visualização dos desenhos.

Outro elemento a realçar é a forma como o desenho tem um papel muito interessante na criação de suspense e de tensão, conseguindo o autor eliminar, quase na totalidade, qualquer escrita – não é necessária! E é nesta expressividade total do desenho que se revela outro dos elementos de genialidade de Bone.

Conclusão

Bone é a história épica perfeita. Decorre num mundo fantástico, mas os elementos mágicos são ponderados e espaçados, necessários apenas pela manifestação de uma força maligna. Bone consegue introduzir as personagens e o contexto sem o sentimento usual de urgência no início mas com interacções cómicas, expressões e posturas. O desenvolvimento épico não é forçado mas algo que aparece naturalmente como uma resposta às circunstâncias. Mas ainda assim há espaço para explorar outros episódios narrativos interessantes, criando-se novas ligações e interacções. É, sobretudo, uma história capaz de cativar e de envolver, de detalhes fabulosos (nem falta uma obsessão literária, neste caso de Bone pelo livro Moby Dick) que deixa uma intensa sensação de saudade.

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