Apex Magazine 75 – Agosto 2015

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Com histórias premiadas com o Nebula em 2014 e 2015, a Apex Magazine é uma das revistas mais conhecidas a publicar ficção especulativa (ficção científica, fantasia e horror), trazendo não só histórias originais como reimpressões, entrevistas e críticas. O conteúdo encontra-se disponível gratuitamente no site oficial, ou, para quem prefere, pode comprar em formato ebook.

Este volume de Agosto começa com Brisé de Mehitobel Wilson,uma história claustrofóbica centrada numa bailarina que é vista pelo marido como uma preciosa peça de porcelana – lindíssima mas frágil, um tesouro para mostrar a amigos e inimigos. Por causa de uma lesão, a bailarina deixou de dançar – insegura, fecha-se cada vez mais e até na sala construída pelo marido para treinar se sente como uma boneca numa caixa de música. Ainda que interessante por apresentar uma perspectiva unilateral e evidentemente injusta, não me pareceu uma história própria para uma revista de género.

Segue-se Coming Undone de Alexis A. Hunter, uma história centrada numa jovem que, tendo nascido sem parte do braço e sem parte da perna, aproveita a vida militar para ganhar membros prostéticos controlados por chip cerebral. Afeiçoa-se de tal forma a eles que acaba por abdicar dos restantes membros para os substituir. De cariz bastante sentimental é uma história bastante humana que, depois de nos transportar para um futuro melhorado, nos traz de volta num soco.

It is Healing, It is Never Whole de Sunny Moraine é uma história mais fraca apesar do extraordinário início e da boa premissa. A história decorre numa espécie de linha de montagem sobrenatural onde são recebidas as almas das pessoa que se suicidaram. Estas almas são separadas das restantes e armazenadas. O elemento que trabalha nesta linha de montagem desconhece como apareceu ou o sentido do que faz, mas um dia encontra uma alma diferente que guarda para si ao invés de a armazenar. A história é pouco mais do que este início – necessitava, a meu ver de uma continuação ou de um contexto final que lhe desse um sentido mais definido.

Também Not my circus, not my monkeys: The Elephant’s Tale de Damnien Angelica Walters ficou também aquém das expectativas iniciais. Como o título indica a história decorre num circo onde todos, menos o apresentador são escravos. Pouco a pouco o circo vai-se degradando – a flexibilidade dos contorcionistas diminui, o brilho dos espectáculos abata-se, uma das gémeas foge. Mas quando o apresentador morre, os aprisionados têm dificuldade em seguir com as suas vidas.

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New feet within my gardens go de E. Catherine Tobler é um conto fantástico e estranho de um ser fungoso capaz de movimento e de aspecto humanóide. Publicado inicialmente na colectânea Fungi apresenta um ser  que se alimenta e corrompe animais – até encontrar um ser humano. Fantasioso que nem um conto de fadas, mas simultaneamente tenebroso é uma história excepcional.

Para além destas histórias a revista possui vários poemas de ficção científica ou fantástico (que não são claramente o meu estilo de leitura) onde se destaca Training:Endurance de Mary Soon Lee por conseguir apresentar uma história coesa neste formato – uma história de cavaleiros onde um nobre tenta, contra todas as probabilidades salvar as terras e os aldeões pelos quais é responsável.

Depois de excertos de vários livros (que para mim são uma perda de espaço) aparece um artigo de opinião – The Fuzzy Bunny Squad is Standing By de Gary A. Braunbeck sobre as falhas das histórias e quantas consegue o leitor aguentar. Um texto interessante sobre o leitor enquanto detector de falhas de lógica e sobre os limites do razoável.

Segue-se a secção de crítica, Clavis Aurea: A Review of Short Fiction por Charlotte Ashley onde aproveita para rever as histórias que foram nomeadas para o prémio Hugo na categoria de Noveleta. Resumindo a opinião, enquanto que The triple sun: A Golden Age Tale de Rajnar Vajra parece ter um pressuposto engraçado mas o desenvolvimento não terá sido dos mais originais; Championshio B’Tok de Edward M. Lerner terá problemas de contexto, ou seja, a história decorre num Universo que já terá explorado anteriormente, faltando, nesta, a informação necessária para a apreciar totalmente.

Por outro lado, The Journeyman: In the stone house de Michael F. Flynn tem uma premissa interessante, mas falta-lhe enredo. Dois homens de tribos da idade da pedra são capturados por homens de uma civilização que já possui ferro, e acabam como legionários. Existem resquícios de uma civilização muito mais avançada (sem certezas), mas não existirá desenvolvimento suficiente destes factores. Ashes to ashes, Dust to Dust, Earth to Alluvim de Gray Rinehart teria sido um bom conto que se estendeu demasiado para incluir desnecessárias deambulações filosóficas.

Sobra The Day the world turned upside down de Thomas Olde Heuvelt, um conto que li antes de saber que tinha vencido o prémio e que adorei – o mundo virou-se literalmente do avesso e um jovem que terá terminado recentemente o relacionamento inicia uma aventura para devolver um peixe à ex-namorada. A ideia pode parecer idiota mas a forma como é explorada torna o conto interessante e diferente, descrevendo a desgraça alheia de forma alienada.

Tendo sido este o primeiro volume que li desta revista, fiquei com a impressão que publica histórias fora do vulgar mas que raramente devem chegar a ser excelentes. As ideias reflectidas nas histórias são pouco usuais e o desenvolvimento é pouco ortodoxo. O que é pouco usual é gostar bastante da parte da não ficção, neste caso, da crítica que foi feita às noveletas nomeadas para o prémio Hugo, uma crítica que consegue, sucintamente, explicar a premissa, os pontos negativos e positivos.

3 pensamentos sobre “Apex Magazine 75 – Agosto 2015

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