O Ano do Dilúvio – Margaret Atwood

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Se obras distópicas como 1984 de George Orwell ou Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley arrepiam pela forma alienada como descrevem sociedades controladas ao extremo, O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood cativa por nos apresentar, não uma sociedade, mas pessoas que sofreram as consequências de um mundo em ruptura ecológica, controlado por grandes corporações de puros objectivos económicos.

Misto entre história distópica e apocalíptica, começa por nos apresentar duas personagens, duas sobreviventes à peste que dizimou a quase totalidade da espécie humana. Ambas se encontra isoladas e começam, no início da loucura, a relembrar episódios relevantes da sua vida.

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O que recordam é uma realidade controlada pelas corporações, em que o vínculo dos indivíduos determina a sua qualidade de vida – se empregados essenciais podem manter as famílias em vilas idílicas de luxos inigualáveis, os que possuem trabalhos precários fora da companhia podem desaparecer facilmente sem deixar rasto.

Mas os empregados dispensáveis não têm melhor sorte, sendo alvo de experiências não autorizadas, através das quais as corporações propagam doenças para as quais não possuem a cura, apenas caros mas pouco eficazes medicamentos. Foi o que aconteceu à mãe de Toby, uma das sobreviventes que recorda o fim da vida universitária com a degradação económica da família para combater a doença. Quando o pai se suicida, com uma arma ilegal, no dia do funeral da mãe, Toby não encontra opção senão mudar de identidade e arranjar emprego numa hamburgueria.

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O patrão é uma espécie de mafioso, um brutamontes protegido pelas corporações, que escolhe, entre as empregadas, a próxima amante. Até se cansar – as efémeras namoradas vão aparecendo mortas na lixeira, sem que se investigue o seu desaparecimento. Desta vez, calhou a vez de Toby, a primeira que se safa deste destino ao fugir com um grupo religioso e ecológico – os Jardineiros.

Este grupo é um dos poucos que tenta escapar ao ciclo de consumo e violência perpetuado pelas companhias. Apelidados de lunáticos, conseguem viver pacificamente. Pelo menos enquanto não interferirem com os planos das companhias. Cultivando e produzindo os próprios alimentos e medicamentos, recolhem material do lixo para reutilizarem e antecipam nos seus cânticos e orações, um desastre ecológico em grande escala, para o qual se preparam.Mas até onde estarão dispostos a ir para que as profecias se concretizem?

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O comportamento dos Jardineiros pode parecer surreal no início, mas conforme se vai detalhando o cenário futuro que já conhecemos, vai-se tornando cada vez mais lúcido, até para o leitor. É neste meio que vamos conhecer Ren, a segunda personagem principal. Filha de um cientista proeminente, foi levada pela mãe para os Jardineiros quando esta se decide a viver com o amante, um homem mais jovem e viril.

Tendo vivido toda a adolescência entre o grupo religioso, conhece o outro lado da barricada quando volta a viver com o pai. Sol de pouca dura, pois o cientista é raptado, levando a que a companhia retire a protecção à família. Ren acaba por arranjar emprego como dançarina num bordel fino, vestida com penas e lantejoulas verdes.

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Das várias obras de Margaret Atwood A História de uma Serva e a trilogia MaddAddam são as que costumam aparecer nas listas de ficção distópica. Apesar de ser o segundo volume da trilogia, é uma história independente que apresenta uma sociedade que caminha rapidamente para um apocalipse ecológico, sem que as populações estejam, ou queiram estar, conscientes dos acontecimentos.

É quase impossível não fazer algum paralelismo com a realidade que nos rodeia, ou com um futuro inevitável se o rumo se mantiver. O aquecimento global provoca o desaparecimento de várias espécies animais e as secas sucessivas desmobilizam populações. Sem poder económico os refugiados encontram-se nas mãos de gananciosos que, controlando os meios de comunicação, os gerem sem escrúpulos.

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Controlando as notícias, a economia e consequentemente as populações, as companhias eliminam rapidamente qualquer resistência. Como forma de manter o funcionamento desta sociedade criam novas fontes de proteína animal que mantêm secretas, e libertam doenças graves para as estudarem e manterem o controlo económico.

Apesar de ser envolvente e possuir detalhes interessantes, peca pelo excessivo detalhe e por apresentar descrições repetitivas e exaustivas de alguns acontecimentos. Ainda, a história perde alguma credibilidade pela sobrevivência oportuna de algumas personagens, e pela forma como Toby e Ren acabam por desempenhar diversos papéis sociais.

Publicado pela Bertrand, O Ano do Dilúvio é um dos vários livros de Margaret Atwood que se encontra disponível em português por preço mais do que acessível.

5 pensamentos sobre “O Ano do Dilúvio – Margaret Atwood

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