Hag-seed – Margaret Atwood

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Em Hag-Seed Margaret Atwood afasta-se dos mundos distópicos e das preocupações ecológicas para nos trazer a história de um pai desgostoso com a morte da filha, ainda criança. Viúvo, dedica-se à direcção artística de peças teatro, papel que termina por conta de um suposto amigo que, estando na administração, o afasta impiedosamente.

Não desejando enfrentar colegas ou imprensa, afasta-se para uma zona mais rural, reclusão que o leva a criar uma segunda identidade, através da qual responde a um anúncio para ser professor de teatro numa prisão. Utilizando peças de Shakespeare que desconstrói para melhor semelhança com aquilo que os seus novos actores conhecem, as suas aulas tornam-se de sucesso no sistema prisional.

Alguns anos mais tarde, é agendada a visita de dois ministros, dois déspotas que pensam nas aulas de teatro como um luxo que tem de acabar no sistema. Aproveitando que um dos ministros é o amigo que o atraiçoou, Félix tece um plano para se vingar e manter as aulas, encenando Tempest, a peça com a qual sempre pensou honrar a memória da filha, que ainda é uma presença constante.

Para além da reinvenção e renascimento do próprio Felix, Hag-Seed torna-se interessante pelas análises que realiza às peças, colocando questões comportamentais e desfazendo as noções típicas de monstros para nos apresentar o simbolismo de algumas figuras presentes nas peças. Uma das discussões mais interessantes refere-se aos tipos de prisões que existem, aquelas que nos são impostas, as que são provocadas pelo acaso e aquelas que nos impomos a nós próprios, seja por desgosto, seja por preconceito.

A par com esta exploração simbólica de alguns componentes das peças, assistimos ao sentimento de perda de um pai, que projecta o crescimento da filha como se esta permanecesse a seu lado – mas será apenas uma projecção? Esta dúvida vai crescendo ao longo da história e vai se envolver com o intuito da peça The Tempest.

Estes detalhes em que o real se cruza com a imaginação conferem uma maior intensidade a uma história que é, à primeira vista simples por se centrar numa única personagem, mas Felix é um homem tempestuoso que se refugia para fermentar as suas frustrações de forma obsessiva e, até doentia, e acaba por se reinventar. A história em si é quase linear e banal, mas é esta personagem, complexa, que confere alguma densidade, sendo simultaneamente, o elemento mais interessante e mais aborrecido – interessante pelas oscilações e forma de pensar, aborrecido pela linearidade dos seus propósitos.

Cruzando ficção e realidade que se projectam e influenciam mutuamente, Hag-Seed é uma leitura aconselhável, sem atingir o patamar da excelência.

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2 pensamentos sobre “Hag-seed – Margaret Atwood

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