Low Vol.1 – Remender, Tocchini

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Uma só palavra ficou na minha mente depois de ler este livro – brutal. Mundo em colapso, circunstâncias deprimentes, personagens decadentes – estes são os elementos usuais da ficção científica apocalíptica que aqui são usados para nos apresentar a história, mas acrescentando uma pitada de outras coisas, como optimismo – há sempre alguém estupidamente optimista.

A superfície do planeta Terra está inabitável. Não por causa de desastres nucleares, ecológicos ou doenças sem fim, mas porque o Sol se encontra em expansão e a radiação ultrapassa a suportável pelos seres humanos. Não descobrindo, em tempo útil nenhum planeta que possam habitar, criam cidades no fundo dos mares. Estas cidades permanecem isoladas e, a pouco e pouco, tornam-se lendas umas para as outras. A espécie humana degenera lentamente – o ar das cúpulas começa a tornar-se tóxico depois de ciclos sem fim de regeneração e o conhecimento tecnológico baixou o suficiente para que não consigam compreender alguns dos mecanismos que utilizam.

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É neste ambiente que conhecemos uma família peculiar e com um importante papel no quotidiano de uma das cidades: a mãe, super optimista, o pai mais prático e os três filhos que deverão herdar os papéis desempenhados pelos progenitores. Os mais novos têm dez anos, a idade perfeita para aprenderem a lidar com alguns mecanismos complexos. Tendo em vista o início da aprendizagem, saem da cidade numa espécie de submarino.

Em pouco tempo são capturados pelo vilão: o governador déspota de uma das outras cidades que tem como intuito capturar alguma tecnologia. Jackpot. A bordo não só se encontram alguns engenhos importantes, como o DNA necessário para utilizá-lo: o dos filhos de Jack. Depois de raptar as filhas e deixar o homem em mal estado, a família volta para a cidade e reduz-se a dois elementos: mãe e filho. A mãe, sempre optimista, crente que irá voltar a ver as filhas, e o filho que, depois daquele episódio, e crescendo naquele mundo deprimente, irá desenvolver tendências de auto-destruição.

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As imagens são pouco definidas – o traço leve produz imagens de contornos difusos mas que, mesmo assim, é capaz de produzir extraordinárias paisagens. A pouca definição ajuda a criar o ambiente, um misto de nostalgia perante a beleza que se encontra no fundo, a depressão do fim, e a eterna esperança que caracteriza a espécie humana, capaz de acreditar no impossível: um mundo que está a perder definição.

Na introdução o autor refere ter-se apercebido que, nas suas criações, as personagens são quase sempre pessimistas. Pois bem, terá chegado a hora de criar uma personagem optimista. E não existe sempre alguém, por mais impossível que seja a situação, que é optimista? Ao ponto de parecer estúpido? É o papel da mãe – crente que as sondas enviadas trarão notícias de um mundo habitável, crente que as cidades sobreviveram o tempo necessário, crente de que voltará a reunir a sua família.

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É esta força positiva que, conseguindo roçar a irritação, faz mover a família e a história. Tecendo planos de futuro quase impossíveis e tendo sempre uma palavra ou ideia positiva, resta-lhe tentar dar força ao filho ainda que as esperanças de uma vida melhor o estejam a abandonar rapidamente. O rapaz envolve-se numa disputa estranha e decadente que o levam à prisão e lá espera acabar com a vida antes que outros o atormentem.

Depois de o ler a sensação que ficou foi a ter acabado de ver uma série completa pelo que estranhei algumas das críticas no Goodreads quando fui inserir a leitura, com classificações que oscilam entre o mínimo e o máximo. As queixas resumem-se a três: o extremo optimismo da mãe, o traço pouco definido e demasiadas coisas a acontecer em pouco tempo. Bem, depois da explicação inicial para o optimismo (e talvez pela expectativa criada para a mesma) não foi algo que me tivesse incomodado. Até porque não é um optimismo totalmente desprovido de raízes. Por outro lado, não achei que existissem demasiados acontecimentos. A narrativa é bastante linear e existem poucos saltos entre as escassas personagens. A acção é rápida e são poucos os momentos parados e pouco significativos.

Existe optimismo, mas, restrito a uma personagem, não é suficiente para esconder a corrupção e degradação da espécie humana. Se tivessem meses para viver, em que os utilizariam? Este sentimento de desespero comedido resulta em ironia e perdição – consumo de drogas, sexo sem fim. Nada que não se tenha visto já, e que por isso é explorado de forma comedida. Por isto tudo, e pelos sucessivos episódios de acção, este volume tornou-se numa das melhores coisas que li ultimamente.

3 pensamentos sobre “Low Vol.1 – Remender, Tocchini

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