Desforra – a dívida e o lado sombrio da riqueza – Margaret Atwood

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Por algum motivo todos (ou quase, pelo menos os mais recentes) livros da Margaret Atwood estão com preço bastante reduzido há já algum tempo. Aproveitando uma promoção em cima deste preço reduzido comprei alguns livros da autora, não reparando que este, Desforra, não era um livro de ficção, mas uma grande (e interessante) dissertação sobre dinheiro, justiça e dívida.

(…) quando arranjei o meu primeiro emprego. O emprego pagava vinte e cinco cêntimos por hora – uma fortuna! – e consistia em empurrar um carrinho com um bebé pela neve. Desde que trouxesse o bebé de volta, vivo e não congelado, ganhava os meus vinte e cinco cêntimos.

Esta é uma das primeiras descrições que estabelece o tom da dissertação – ligeiramente cómico, expressando verdades como quem não quer nada, fazendo comparações e dissecando um pouco o que são os nossos valores quando está dinheiro envolvido. Depois de uma pequena introdução em tom pessoal em que brinca até, com a origem surreal dos juros do dinheiro a prazo, Margaret Atwood passa por falar sobre a origem do dinheiro e da justiça nas mais antigas sociedades humanas.

Este capítulo, nomeado de “Os antigos equilíbrios” é assim dedicado à exploração da justiça em várias civilizações – encarada ora como paga pela mesma moeda, ora com papel redentor, será tão antiga quanto os homens mas não se restringe à nossa espécie. Neste seguimento não falta a clássica referência à experiência com macacos em que, pela mesma acção, dois espécimes são recompensados diferentemente, causando uma verdadeira revolução dentro da jaula – prova de que a noção de (in)justiça é mais profunda do que a civilização humana.

Em “Dívida e Pecado” Margaret Atwood parte da oração  “perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” que, nalgumas traduções substitui ofensas por dívidas para dissertar sobre a forma como a religião olha e olhava para os jogos de dinheiro. Se houve uma época em que se dizia que era mais fácil encontrar uma agulha num palheiro do que um rico no reino dos céus, nada como aceitar dinheiro para absolver os pecados para que essa ideia possa ser contornada.

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E será a dívida da oração a dívida monetária, ou a dívida no formato do que nos é devido por nos terem prejudicado? A metáfora ter-se-à perdido para os mais imples (inclusivé para a autora enquanto criança). E o que dizer então da dívida criada por empréstimo? Até que ponto deve e pode ser perdoada? Partindo do papel dos judeus e da forma como, ao longo da história, se usou a sua riqueza como motivo obscuro para os exterminar numa jogada de cobiça que em tudo faz lembrar o “matar a galinha dos ovos d’ouro”.

Em “A Dívida como Enredo” aproveita-se para dissertar sobre a dívida como força motriz para alguns dos mais clássicos romances, motivo de desgraça social, motivo para casamentos salvadores, a dívida pesa sobre alguns estratos sociais impedindo que se concretizem sonhos e missões. Mas e o que fazer quando as dívidas não são saldadas? “O Lado Sombrio” da dívida continua com este aproveitamente dos clássicos para apresentar as formas mais diversas pelas quais se pode forçar o saldar da dívida.

No final, a autora termina com a re-invenção do conto do rico mais avarento de sempre, apresentando-o como uma personagem dos dias de hoje a quem mostram o custo para o planeta de toda a extensa exploração e consumismo, motor para dívidas, desculpa de uma economia vazia que se canibaliza a si própria.

… Estou a divagar; vou simplesmente acrescentar que S. Nicolau, além de ser o santo padroeiro das crianças, essas criaturas semelhantes a duendes com dedos pegajosos e escassa consciência dos direitos de propriedade das outras pessoas, é também o santo padroeiro dos ladrões. S. Nicolau aparece sempre nas imediações de um montão de coisas e, quando lhe perguntam onde as arranjou, conta uma história pouco plausível envolvendo trabalhadores não-humanos labutando num local a que eufemisticamente chama a sua “oficina”. Essa é boa. Digo eu.

São várias as indirectas (e as directas) contra o actual sistema de dívidas em que o consumidor parece ter o papel passivo, de quase vítima, aliciado por grandes entidades que tudo oferecem a custo surreal, alimentando o ciclo vicioso de consumismo. Carregado de observações cómicas e metáforas engraçadas, sem grande profundidade teórica, é uma leitura interessante, uma dissertação que intercala o conhecimento das antigas civilizações com a estrutura dos clássicos e olha para a dívida sob várias perspectivas.

De título original Payback, este livro foi publicado em Portugal pela Editora Bertrand.

Um pensamento sobre “Desforra – a dívida e o lado sombrio da riqueza – Margaret Atwood

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