Os Humanos – Matt Haig

Este livro foi escrito durante uma profunda depressão do autor, uma depressão que o levava a olhar para as restantes pessoas como alienígenas estranhos e aversivos, e é esta mesma perspectiva, sob uma camada cómica e leve, que o autor traduz em Os Humanos – mas neste caso é um extra-terrestre que está entre nós, desconhecendo normas de conducta ou palavras!

E porquê que está um extraterrestre no corpo de um humano? Bem, é que a Andrew Martin, um matemático de personalidade execrável, terá consigo demonstrar a hipótese de Riemann e se os extraterrestres não intervirem, a humanidade irá evoluir rapidamente para além da maturidade que possuem para lidar com a tecnologia. Ou com os outros alienígenas, dada a sua propensão para a violência! A solução é fácil –  enviar um extratrrestre materializado no corpo de Andrew Martin (que entretanto foi eliminado) e seguir as pistas para todos os que possam saber de tal descoberta.

Os humanos são uma espécie arrogante, que se define pela violência e pela avidez. Pegaram no seu planeta natal, o único a que actualmente têm acesso, e colocaram-no no caminho da destruição. Criaram  um mundo de divisões e categorias e revelam-se incapazes de ver as semelhanças entre eles mesmos. Desenvolveram tecnologia a uma velocidade a que a psique humana não consegue acompahar, mas, ainda assim, não deixam de conseguir o progresso pelo progresso apenas, e pelo dinheiro e fama por que tanto anseiam.

Presos na sua própria mortalidade, os humanos são incompreensíveis para os extraterrestres, que são imortais e lógicos, sem laços afectivos como os humanos e agindo como um todo, com consciência partilhada. Ao se ver num corpo humano, a primeira perspectiva do alienígena com poderes que consideramos sobrenaturais, é de asco. Asco pelas feições, pela estranha forma humana. Estranheza para com as formas de comportamento, aversão à tecnologia que usam, demasiado estática e incapaz de prever as necessidades do utilizador.

Na Terra, o termo «notícias» significa, de um modo geral, «notícias que afectam directamente os humanos». Não houve nem uma acerca de antílopes, dos cavalos-marinhos, da tartaruga de orelha vermelha ou dos restantes nove milhões de espécies existentes no planeta. (…) Na verdade, a guerra e o dinheiro são tão populares que o noticiário podia ter o nome de O Programa da Guerra e do Dinheiro.

Os primeiros contactos com a cultura dos humanos suportam a hipótese de que tudo o que lhes interessa é o dinheiro e a fama, levando o alienígena algum tempo até perceber as motivações por detrás da esposa de Andrew Martin que, achando que o alienígena é o marido com um esgotamento, cuida dele. O que lucra ela com este comportamento? Deixado em casa sozinho, explora a música e lê alguns livros de poesia, percebendo que, com a mortalidade, se cria uma confusão mental nos humanos que os leva a desperdiçar a vida e a uma perspectiva bastante mais fechada.

Tenho de admitir que os humanos desperdiçam grande parte do seu tempo, ou praticamente todo, com cenários hipotéticos: podia ser rico, podia ser famoso, podia ter sido atropelado por aquele autocarro, podia ter nascido com menos sinais e mamas maiores, podia ter passado uma parte maior da minha juventude a aprender línguas estrangeiras. É seguramente a forma de vida que mais usa o tempo condicional.

O alienígena apercebe-se, lentamente, do que é ser humano e deixa-se corromper e envolver, tentando convencer os restantes da sua espécie a agir de outra forma para com os seres humanos. Sem grande sucesso – é difícil mostrar o que é individualidade e que, se alguns seres humanos são execráveis, outros têm objectivos bastante distantes de acumular fama e dinheiro.

Foi então que percebi que a única coisa pior do que ter um cão que nos odeia é ter um cão que nos ama. Sinceramente, não devia haver uma espécie mais carente em todo o Universo.

Partindo de uma perspectiva alienada, de asco para com a biologia humana e aversão para com a sua tecnologia, o alienígena cria uma perspectiva interessante e, até, cómica pela forma como se expressa. Entre o desenvolvimento da história, movimentada, e estas observações cómicas, Os Humanos de Matt Haig é um livro que proporciona uma rápida e divertida leitura, constituindo uma das histórias mais envolventes que li recentemente.

Os Humanos foi publicado pela TOPSELLER.

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