Os Humanos – Matt Haig

Este livro foi escrito durante uma profunda depressão do autor, uma depressão que o levava a olhar para as restantes pessoas como alienígenas estranhos e aversivos, e é esta mesma perspectiva, sob uma camada cómica e leve, que o autor traduz em Os Humanos – mas neste caso é um extra-terrestre que está entre nós, desconhecendo normas de conducta ou palavras!

E porquê que está um extraterrestre no corpo de um humano? Bem, é que a Andrew Martin, um matemático de personalidade execrável, terá consigo demonstrar a hipótese de Riemann e se os extraterrestres não intervirem, a humanidade irá evoluir rapidamente para além da maturidade que possuem para lidar com a tecnologia. Ou com os outros alienígenas, dada a sua propensão para a violência! A solução é fácil –  enviar um extratrrestre materializado no corpo de Andrew Martin (que entretanto foi eliminado) e seguir as pistas para todos os que possam saber de tal descoberta.

Os humanos são uma espécie arrogante, que se define pela violência e pela avidez. Pegaram no seu planeta natal, o único a que actualmente têm acesso, e colocaram-no no caminho da destruição. Criaram  um mundo de divisões e categorias e revelam-se incapazes de ver as semelhanças entre eles mesmos. Desenvolveram tecnologia a uma velocidade a que a psique humana não consegue acompahar, mas, ainda assim, não deixam de conseguir o progresso pelo progresso apenas, e pelo dinheiro e fama por que tanto anseiam.

Presos na sua própria mortalidade, os humanos são incompreensíveis para os extraterrestres, que são imortais e lógicos, sem laços afectivos como os humanos e agindo como um todo, com consciência partilhada. Ao se ver num corpo humano, a primeira perspectiva do alienígena com poderes que consideramos sobrenaturais, é de asco. Asco pelas feições, pela estranha forma humana. Estranheza para com as formas de comportamento, aversão à tecnologia que usam, demasiado estática e incapaz de prever as necessidades do utilizador.

Na Terra, o termo «notícias» significa, de um modo geral, «notícias que afectam directamente os humanos». Não houve nem uma acerca de antílopes, dos cavalos-marinhos, da tartaruga de orelha vermelha ou dos restantes nove milhões de espécies existentes no planeta. (…) Na verdade, a guerra e o dinheiro são tão populares que o noticiário podia ter o nome de O Programa da Guerra e do Dinheiro.

Os primeiros contactos com a cultura dos humanos suportam a hipótese de que tudo o que lhes interessa é o dinheiro e a fama, levando o alienígena algum tempo até perceber as motivações por detrás da esposa de Andrew Martin que, achando que o alienígena é o marido com um esgotamento, cuida dele. O que lucra ela com este comportamento? Deixado em casa sozinho, explora a música e lê alguns livros de poesia, percebendo que, com a mortalidade, se cria uma confusão mental nos humanos que os leva a desperdiçar a vida e a uma perspectiva bastante mais fechada.

Tenho de admitir que os humanos desperdiçam grande parte do seu tempo, ou praticamente todo, com cenários hipotéticos: podia ser rico, podia ser famoso, podia ter sido atropelado por aquele autocarro, podia ter nascido com menos sinais e mamas maiores, podia ter passado uma parte maior da minha juventude a aprender línguas estrangeiras. É seguramente a forma de vida que mais usa o tempo condicional.

O alienígena apercebe-se, lentamente, do que é ser humano e deixa-se corromper e envolver, tentando convencer os restantes da sua espécie a agir de outra forma para com os seres humanos. Sem grande sucesso – é difícil mostrar o que é individualidade e que, se alguns seres humanos são execráveis, outros têm objectivos bastante distantes de acumular fama e dinheiro.

Foi então que percebi que a única coisa pior do que ter um cão que nos odeia é ter um cão que nos ama. Sinceramente, não devia haver uma espécie mais carente em todo o Universo.

Partindo de uma perspectiva alienada, de asco para com a biologia humana e aversão para com a sua tecnologia, o alienígena cria uma perspectiva interessante e, até, cómica pela forma como se expressa. Entre o desenvolvimento da história, movimentada, e estas observações cómicas, Os Humanos de Matt Haig é um livro que proporciona uma rápida e divertida leitura, constituindo uma das histórias mais envolventes que li recentemente.

Os Humanos foi publicado pela TOPSELLER.

Resumo – 1º trimestre de 2018

Com mais de 20 000 visualizações desde Janeiro e mais de 60 leituras, 2018 tem-se revelado um ano interessante, com novos projectos e direcções. Para quem tem acompanhado, já se deve ter apercebido que foi lançado um programa de rádio na Voz Online, que é uma extensão do Rascunhos (o programa de rádio aparece, também, na Mixcloud, como outros programas da rádio), e que se iniciou uma nova rubrica de jogos de tabuleiro (ainda que não tenha tido a regularidade pretendida).

Passando à ficção especulativa, este primeiro trimestre viu o retorno dos Devoradores de livros na Tigre de Papel e o lançamento de Crazy Equóides de João Barreiros, bem como o agendamento de alguns dos mais importantes eventos de ficção especulativa em Portugal:

 

 

 

 

 

 

 

A nível de publicações, o ano começou bem para a ficção especulativa portuguesa – não porque haja publicação em quantidade, mas mas porque o pouco que existiu é de qualidade. Estou a falar da publicação de Crazy Equóides de João Barreiros. Trata-se de uma história que foi criada para a Antologia Erótica de ficção fantástica, mas que, na falha de pubilcação da antologia, foi direccionada para publicação isolada e acabou publicada pela Imaginauta – e ainda bem.

Considerando o tema da antologia à qual se destinava não é de estranhar que tenha uma grande componente associada à sexualidade, mas nem por isso se trata de uma história que pretenda fornecer uma experiência erótica. João Barreiros caminha o limite da premissa sem resvalar para caminhos demasiado obscuros, fornecendo uma história com máximo prejuízo e pequenas reviravoltas que vão entusiasmando o leitor.

Dormir com Lisboa é outra das obras de ficção especulativa portuguesa que se destaca nas minhas leituras. Trata-se do vencedor do prémio Antón Risco de 2016, um dos livros falados durante o Fórum Fantástico de 2017 que só agora li. Como o nome indica a obra explora Lisboa e a perspectiva que cada um tem da cidade, expondo a diversidade de locais, resultado da construção e da recombinação ao longo dos séculos.

 

 

 

 

 

 

 

Este ano tem sido marcado pelo sucesso de Jeff Vandermeer. Um dos seus mais recentes livros foi adaptado para cinema, Aniquilação, e, ainda que não tenha sido distribuído para as salas de cinema de todo o mundo, mas através da Netflix, trata-se de um filme que não tem deixado a audiência indiferente. Confusa, por vezes, sim. De realçar que alguns dos cenários do primeiro livro foram inspirados numa visita a Portugal, mais concretamente à Quinta da Regaleira (como a torre invertida que não se vê no filme).

Após esta trilogia Jeff Vandermeer já lançou outras obras, entre elas Borne e The Strange Bird, ambos passados no mesmo Universo, uma realidade futura em que a biotecnologia criou seres que contaminam todos os nichos ecológicos. O resultado são monstros inteligentes capazes de interagir com seres humanos, e de mudar a sua aparência quando querem, alimentando-se por fagocitose, ou raposas inteligentes capazes de comunicar sem palavras, ou monstros em forma de urso.

Borne é o primeiro livro nesta realidade, mas achei-o demasiado longo nalgumas partes, centrando-se no seu relacionamento com a humana que o acolhe o cria, formando-o como uma pessoa, mas não como um humano, e saciando a sua capacidade para aprender. Desta forma, gostei mais de Strange Bird, mais conciso, e centrado  num novo ser, belíssimo, resultante do cruzamento de genes de diferentes animais, que é utilizado por vários seres humanos para fins diferentes.

 

 

 

 

 

 

 

Passando à banda desenhada, secção onde a leitura foi mais extensa, Ciudad de Giménez e Barreiro, destacou-se por apresentar uma imensa cidade paralela, onde o tempo e o espaço não são contíguos e as pessoas que lá caem deambulam, sob influência do ambiente que os rodeia, construindo maravilhosas mas nefastas cidades, ou fugindo de grupos armados. No decorrer encontram comboios que os levam a vislumbrar o passado e o futuro, pessoas que atraem milhões de ratazanas (simultaneamente uma benção e uma maldição) ou imensos jardins predadores que se dissipam. Trata-se de uma obra com inúmeras referências literárias, um intrincado de caminhos e de questionamentos.

Ministry of Space, de Warren Ellis, foi outra das grandes leituras deste trimestre. Trata-se de uma obra que recorda o sentimento inglês em relação ao imperialismo que coloca os ingleses no topo da corrida ao espaço. A origem do dinheiro que proporciona este avanço é obscura e o objectivo também. É uma banda desenhada carregada de simbolismos e de alusões ao espírito nacionalista que levou alguns países para a guerra, mostrando o orgulho do soldado perfeito e do confronto bélico.

 

 

 

 

 

 

 

Com o terceiro volume publicado em Portugal, Harrow County continua a ser uma das grandes séries de horror em lançamento. Este volume introduz algumas variações em relação aos anteriores, com uma história de final aberto, menos centrado na personagem principal e introduzindo novas personagens com poderes sobrenaturais – personagens com interesses próprios que se prevê opostos.

El fantasma de Gaudí apresenta um assassino em série na cidade de Barcelona. Não é uma história impressionante do ponto de vista narrativo mas surpreende no visual que aproveita as cores da cidade e o trabalho de Gaudí para episódios em belíssimos cenários em que se discorre sobre os mais grandiosos edifícios da cidade.

O segundo trimestre também promete boas novidades, com o festival Contacto já no próximo fim de semana!

Torpedo Vol.2 – Abulí e Bernet

Este segundo volume abre com a história em que Luca Torelli e Rascal se conheceram, uma história em que Rascal se safou por um triz de ir desta para melhor, ao demonstrar a sua capacidade de disparar uma arma. As duas histórias que se seguem apresentam Torpedo em missões falhadas por circunstâncias que lhe são alheias – duas missões frustrantes que o levarão a direccionar a raiva em vários sentidos.

Sem pudor em usar as mulheres com as quais se cruza, ou em disparar a torto e a direito sobre quem cruza o seu caminho indevidamente, Torpedo nem sempre tem a vida fácil. Em Um Salário de Medo, história passada em 1929, a economia estagnada leva Torpedo a procurar outras ocupações, neste caso como condutor de uma carrinha que levava bebidas alcóolicas. O seu companheiro deixa-se enrolar por uma rapariga e cabe a Torpedo levar com as consequências de um transporte com falhas demasiado graves.

A última história do volume apresenta um duro episódio da infância de Luca Torelli, que explica como perdeu o irmão, resultado da violência doméstica a que os pai submetia rotineiramente. Trata-se de uma história que explica o contexto em que Torpedo cresceu, um meio pobre e carregado de violência, onde terá de se virar.

Este segundo volume apresenta história de um só desenhador, captando o tom mafioso, por vezes contraditório de Torpedo, numa sucessão de episódios que exploram a degradação moral da personagem.

A série Torpedo foi publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Livrarias: Tigre de Papel

Eis nova livraria em Lisboa (bem, já tem alguns meses largos, mas só recentemente, no evento Devoradores de Livros é que lá pude ir) – tal como outras livrarias no centro de Lisboa, a Tigre de Papel investe na organização de eventos que lhe permitam ganhar uma clientela própria. Não é, assim, de estranhar que se encontrem outos produtos, como uma boa selecção de jogos de tabuleiro.

A nível de livros encontramos quer livros novos, quer livros usados e foi aqui que comprei, recentemente, a colecção quase completa de Corto Maltese, para além de vários Argonautas a preço reduzido na entrada!

Deixo-vos a  página de facebook que contém localização e eventos!

Outras livrarias peculiares:

Leituria;

Fyodor (já não existe);

Bivar (mudou de localização). 

Resumo de leituras – Dezembro de 2017 (3)

254 – The surrogate’s owner’s manual Uma banda desenhada futurista com um ambiente sombrio que recorda clássicos de ficção científica como Blade Runner, apresenta um futuro onde podemos usar corpos artificiais que podem mascarar todas as características raciais ou de género. Neste enquadramento questiona a humanidade não pela apresentação de entidades artificiais mas pela apresentação de entidades humanas que se tornam artificiais.

255- Mónica: Força – Desta vez a personagem visada com uma história fora do enquadramento usual é Mônica, uma menina forte que enfrenta os seus problemas, mas que, desta vez, se depara com problemas demasiado adultos para os conseguir resolver;

256 – East of West Vol.4 – Hickman, Dragotta e Martin – As várias fracções continuam em luta. Neste volume não há desenlaces, mas há fichas informativas das várias fracções (que já deveriam ter sido apresentadas) e há colocação estratégica de alguns elementos;

257 – Os diários de Adão e Eva – Mark Twain – Neste pequeno livro Adão e Eva expressam as suas impressões. Adão, mais conciso e calado, estranha a capacidade de falar de Eva e ainda mais o bicho estranho com que ela aparece, um bicho dependente e sem pêlos;

258 – A instalação do medo – Rui Zink – O livro venceu o prémio Utopiales ultrapassando outros livros de ficção especulativa como Luna de Ian McDonald, Railsea de China Miéville ou My real children de Jo Walton. Trata-se de uma distopia quase episódica (em que, a partir do episódio se constrói a realidade);

259 – A Guerra é para os velhos – John Scalzi – Os seres humanos já colonizaram outros planetas, mas as colónias possuem não está ao dispor da Terra. Os novos colonos provêm sobretudo de países pobres ou são velhos que são integrados no serviço militar. Porque querem idosos a servir no exército? Ninguém sabe mas especula-se que as pessoas podem ser rejuvenescidas…

Resumo de leituras – Dezembro de 2017 (2)

249 – Reborn – Book One – Mark Millar, Greg Capullo, Jonathan Glapion e Fco Plascencia – Depois da morte existe uma nova vida, mas nada que se equipare ao previsto por nenhuma religião, facto capaz de destruir psicologicamente algumas pessoas. Nesta outra vida quem foi bom prossegue em cenários idílicos em comunhão com a Natureza, numa civilização pouco desenvolvida tecnologicamente. Quem foi mau assume uma aparência mais maléfica e vive em zonas de aspecto infernoso;

250 – Sintra – Tiago Cruz e Inês Garcia – Uma banda desenhada que aproveita uma lenda local para tecer uma história de horror onde diferentes planos de existência se cruzam;

251 – Planetary – Book One – Warren Ellis e John Cassady – O primeiro volume começa com a nova contratação para o grupo, Elijah Snow, um homem com poderes relacionados com o frio. O grupo anda pelo mundo a coleccionar segredos sobre vários eventos, principalmente aqueles relacionados com poderes ou interligação de dimensões;

252 – Relatório Minoritário e outros contos – Philip K. Dick – Um estrondoso conjunto de contos onde se explora a fiabilidade da realidade que nos rodeia, e a inteligência artificial que, pela sua programação, está destinada a ciclos intermináveis que aumentam de consequências a cada iteração;

253 – Os Vingadores – Vol.7 e Vol.8 – Continua a batalha entre super-heróis que têm posições opostas quanto à capacidade de previsão de uma catástrofe. Um futuro criminoso que seja preso antes de concretizar um crime é inocente ou culpado? Engraçado que na leitura anterior encontrei premissa semelhante (Relatório Minoritário).

Assim foi: Fórum Fantástico 2017

As diferenças

O Fórum Fantástico cresceu, este ano, de forma bastante positiva! Por um lado notou-se a forte aposta em workshops, o que possibilitou integrar camadas mais jovens e manter um programa mais dinâmico. A par com a usual (e fantástica) impressão a 3D organizada pelo Artur Coelho, houve espaço para desenvolver a imaginação dos mais pequenos, construir Zepellins e armaduras, ou para aprender um pouco mais de ilustração com Ricardo Venâncio.

Por outro, é de realçar a maior ocupação do espaço da Biblioteca Orlando Ribeiro que deu nova vida ao espaço – era impossível não reparar na tenda que ocupava parte do pátio com uma pequena feira do livro, onde se viam exemplares de livros de ficção científica e fantasia, sem faltarem os da autoria de Mike Carey, o escritor convidado deste ano. Nesta pequena feira do livro exterior encontravam-se a Leituria e a Dr. Kartoon.

Mas não foi só com a feira do livro que houve uma maior ocupação do espaço. O bom tempo permitiu a existência de bancas de produtos diversos, com especial destaque para o Steampunk (ou não estivesse a decorrer a EuroSteamCon integrada no Fórum Fantástico), bem como de mesas e cadeiras no exterior que permitiram usufruir do bom tempo. O terraço, bem como outras salas da biblioteca foram ocupadas, permitindo a apresentação de jogos de tabuleiro (com participação da Morapiaf) e a exibição de pranchas de Ricardo Venâncio.

E as diferenças não acabaram por aqui – a existência de um bar aberto durante todo o evento facilitou a permanência no Fórum Fantástico pois em anos anteriores era usual ter-se de deixar o recinto para comer alguma coisa. O menu, fantástico, possuía várias alusões ao evento e a comida fornecida era de boa qualidade (pela Cacaoati).

Mike e Linda Carey

Mike Carey produziu mais de 200 comics, vários livros e guiões para cinema. Com a adaptação para cinema de The Girl with all the gifts tem-se tornado cada vez mais requisitado. Por sua vez, Linda Carey escreveu também alguns livros (alguns sob pseudónimo). O destaque para a imensa obra, principalmente a de Mike Carey, serve para contrastar com o espírito que ambos demonstraram, sem prepotências ou projecções de importância, atenciosos e simpáticos durante todo o evento.

Na sexta-feira Mike Carey, conjuntamente com Filipe Melo e José Hartvig de Freitas, falou da larga experiência na produção de comics, da forma como trabalha com diversos desenhadores e da sua própria evolução e adaptação. Destacou-se a produção da série Unwritten, ideia que surgiu em cooperação com Peter Gross, com o qual já se habituou a desenhar. Foi uma palestra interessante e bem disposta.

No Sábado decorreu a conversa com ambos, Mike e Linda Carey, moderada por Rogério Ribeiro, mais voltada para os restantes livros (fora do formato da banda desenhada) onde se falou intensivamente do The Girl with all the gifts, que foi escrito em simultâneo com a adaptação, para cinema, da mesma história. Ambos os autores demonstraram uma queda para pequenos elementos subversivos nas suas histórias.

As restantes palestras de sexta

E com esta nomenclatura não pretendia referir menor prestígio das restantes palestras, mas sim destacar as que envolveram o autor convidado.

15:30 – Sessão Oficial de Abertura do Fórum Fantástico 2017

O Fórum iniciou-se na sexta (para mim, que não pude ir aos worksops) com uma sessão de apresentação de João Morales e Rogério Ribeiro onde expuseram algumas das diferenças deste ano e destacaram algumas sessões e workshops.

16:00 – Sessão “A Ficção Científica: Espelho de ansiedades políticas e pessoais”, com Jorge Martins Rosa, Maria do Rosário Monteiro, Daniel Cardoso e Aline Ferreira

Nesta sessão referiram-se várias obras e respectivas projecções das ansiedades sociais, não só em relação à evolução tecnológica e respectiva perda dos papéis tradicionais (com especial referência à mulher grávida e aos úteros artificiais), como a novos modelos sociais.

16:45 – Sessão “O lugar do Fantástico na Arte Contemporânea”, com Carlos Vidal, Henrique Costa e Opiarte – Núcleo de Ilustração e BD da FBAUL

A sessão apresentou a Opiarte enquanto espaço que permite, a alguns artistas, explorarem a vertente fantástica e de ficção científica nos seus trabalhos, espaço que visou responder a uma necessidade sentida pelos alunos da faculdade. Durante a sessão mostraram-se trabalhos produzidos neste núcleo, alguns dos quais se destacam pela qualidade.

17:45 – Sessão “Narrativa em Videojogos”, com Nelson Zagalo, Ricardo Correia e João Campos

(Cheguei no final)

As restantes palestras de sábado

14:30 – Sessão “Identidades autorais”, com Ana Luz, Joel Gomes e Pedro Cipriano

Os autores aproveitaram o espaço para falar sobre o seu percurso enquanto escritores, desde influências a desenvolvimento de método (destacando-se a referência de Ana Luz ao conto O Teste de João Barreiros), mostrando os livros em que já participaram, bem como os projectos futuros em que se encontram envolvidos.

16:00 – Lançamento “Almanaque Steampunk” (Editorial Divergência)

Cada EuroSteamCon costuma ser acompanhada pela publicação de um Almanaque Steampunk. O deste ano foi produzido em tempo recordo com a colaboração da Editorial Divergência. Ainda não tive oportunidade de ler, mas a publicação é curiosa, bastante atractiva visualmente, com conteúdos diversos e que promete bastante diversão para o leitor.

17:45 – Sessão “Prémio Adamastor”, com João Barreiros e Luís Filipe Silva

O prémio Adamastor este ano foi atribuído a João Barreiros e Luís Filipe Silva, dois dos poucos autores de ficção científica portuguesa que se têm destacado na divulgação do género dentro e fora do país. De realçar as várias antologias que João Barreiros organizou recentemente, bem como as colecções que organizou enquanto editor. Por seu lado, Luís Filipe Silva tem participado em diversas Con’s onde fala da ficção especulativa portuguesa, divulgando o que se fez em Portugal há várias décadas e o que se continua fazendo.

18:00 – Sessão “Dormir com Lisboa”, com Fausta Cardoso Pereira

Premiado e publicado na Galiza pela Urco Editora, Dormir com Lisboa é um romance de ficção especulativa que decorre na capital portuguesa, partindo da premissa de desaparecimento injustificável de várias pessoas. A passagem lida por João Morales denota um humor peculiar, com caricaturas de personagens e situações insólitas.

18:30 – Lançamento “Apocryphus #2”, com Miguel Jorge

Este projecto de banda desenhada português apresentou, no primeiro volume, uma qualidade gráfica excepcional, com elevado cuidado no tipo de papel utilizado e uma selecção cuidada de autores. À semelhança do primeiro volume, também o segundo foi publicado no Fórum, com a presença de tantos autores que por pouco transbordavam do palco.

Restantes palestras de Domingo

Infelizmente, Domingo apenas pude assistir à palestra do João Morales, Novas Metamorfoses Musicais, para além de participar em As Escolhas do ano com João Barreiros e Artur Coelho (sobre a qual dedicarei uma entrada específica para publicar as escolhas de cada um, como é usual).

A sessão de João Morales demonstrou o usual bom humor, com óptimas escolhas musicais onde se cruzam estilos e épocas, novas conjugações de musicas conhecidas em que destaco as seguintes:

(Venus in Furs: Versão portuguesa em Uma Outra História)

No final, há a destacar que o Fórum Fantástico é um evento TOTALMENTE gratuito, onde, todos os anos, várias pessoas se organizam para proporcionar, ao público, três dias de extrema diversão geek!

A Biblioteca à noite – Alberto Manguel

Livros sobre livros. E que tal livros sobre bibliotecas? Partindo da sua própria biblioteca que está albergada num local com uma fascinante história própria, Alberto Manguel discorre sobre várias bibliotecas, seja do ponto de vista de conteúdo, organização ou democratização.

Claro que não é possível falar de bibliotecas sem falar das desaparecidas e míticas, como a de Alexandria. Mas como esta, existem outras, reunidas em determinados locais para simplesmente serem extintas, de repente, por algum conservador de ideias que vê, nos livros, uma afronta e um perigo.

Utilizadas para manipulação política (o autor descreve casos em que a disponibilização ou maior destaque foi dado a determinadas publicações), como estrutura diferenciadora de classes (numa altura em que o acesso a livros poderia aprofundar diferenças culturais) ou como monumento de prestígio (que homens ricos deixavam não porque valorizassem a cultura, mas porque desejavam ter o seu nome realçado) as bibliotecas, com os respectivos livros, têm marcado culturas e gerações.

Organizadas de determinadas formas (alguns métodos convertem-se em autênticas dores de cabeça), mantendo, por vezes, a nomenclatura dos donos originais, as bibliotecas privadas reflectem os seus donos, pela diversidade e composição das obras, e representam fisicamente associações de ideias:

Os nossos livros decorrem de outros livros, que os mudam ou enriquecem, que lhes atribuem uma cronologia diferente da dos dicionários literários.

A Biblioteca à noite, publicado em Portugal pela Tinta da China é uma leitura fascinante para quem gosta de livros e bibliotecas – carregado de curiosidades e sem se conter em fazer observações políticas e históricas sobre o acesso à cultura. Cruzando diferenças culturais e históricas com a actualidade ocidental, realça o mistério da biblioteca à noite, obscura, carregando todas as possibilidades e todos os livros, os lidos e os não lidos.

Aleister & Adolf – Douglas Rushkoff e Michael Avon Oeming

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Definitivamente tenho um problema com a temática explorada. Não o simbolismo ou a força que as ideias podem ter quando propagadas de forma eficiente. O meu problema é mesmo com os rituais de velhotes que envolvem sempre belas donzelas numa forma que parece mais a concretização das mais avançadas fantasias eróticas do que propriamente rituais com verdadeiro intuito mágico.

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Claro que, conhecendo a personagem a que a história se dedica, Alesteir, não seria de esperar outra coisa. E por aqui, a história consegue captar esta essência corrosiva, semi demente, no mínimo, estranha, desconfiada e sempre envolvida em teorias da conspiração que aqui encontramos.

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Apesar de justificar a narrativa por uma ideia algo absurda, senão idiota, de um símbolo que estará a ser digitalizado com dificuldade, a história consegue ter algum interesse ao explorar uma luta simbólica entre as duas personagens, Alesteir e Adolf, envolvendo objectos de importância ritual e capacidades mágicas que terão tido um papel mais importante do que julgamos no curso da História.

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Carregado de rituais e simbolismo, Alesteir & Adolf apresenta a luta por detrás da luta, a exploração de ideias e de forças mentais, através de componentes culturais subtis. Esta ideologia é explorada através de rituais que envolvem sexo e drogas de forma descontrolada, elementos que deturpam a realidade e provocam traumas profundos, principalmente naqueles que são usados sem compreenderem a totalidade do que ocorre.

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Alesteir & Adolf foi publicado pela Darkhorse.

Mil Anos de Esquecimento – Afonso Cruz

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Mil Anos de Esquecimento é o mais recente volume de Enciclopédia da Estória Universal, o sexto se contarmos com o primeiro lançado pela Quetzal.  Mantendo o formato já conhecido, de várias entradas alfabeticamente ordenadas, sendo que algumas são pequenas notas, frases curtas com enorme significado e outras são contos completos, este volume é um dos melhores do conjunto por conter uma extraordinária história que ocupa quase metade do volume.

E apesar de ter achado esta história extraordinária, não consigo classificar este volume, no seu todo, como muito bom. Por um lado, sofre do mesmo problema que outros anteriores, desbalanceado na distribuição de conteúdos curtos e longos. Por outro, possui alguns conteúdos que já li, integralmente, noutros livros do autor. Ainda, falta-lhe o intenso intercruzar de entradas que tornava o primeiro, lançado pela Quetzal, tão coeso e excelente.

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A história que dá nome ao livro apresenta um homem, um pintor, que terá estado nas melhores companhias e privado com nobres e pintores influentes. Viajando em terras mais orientais encontra dois montes e, em cada um deles, uma cidade. Quando se aproxima de uma delas é preso e maltratado, tal como os seus dois servos.

A recepção do pintor é, afinal, um engano, provocado pelas longas disputas entre as duas cidades, cada uma seguidora de uma corrente filosófica diferente, e tão fanáticos nas suas certezas que da discordância nasceu uma guerra mortal, que, das ocasionais escaramuças já passou a expedições para capturar e matar os habitantes da cidade vizinha.

Interessante pela forma como explora a idiotice das guerras, principalmente quando causadas por discordâncias ideológicas, a história principal deste volume poderia constituir, por si, um livro autónomo, o que beneficiaria a história, e o restante conjunto da enciclopédia.

Quando tenho muitos livros para ler, tenho escolha. Quanto menos tiver, mais a minha liberdade está confinada. Ela depende dos livros que não são lidos. Se temos apenas um caminho, não temos liberdade, teremos impreterivelmente de o seguir. Para ela existir, temos de ter possibilidades, muitas, porque só daí pode resultar uma escolha lúcida.

Para além da história, as restantes páginas são preenchidas com frases mais curtas ou pequenas histórias, com relação entre algumas das entradas, de onde se destaca a história do homem que julgou ter sido salvo do mar por um bando de loucos, quando estes lhe explicam o seu objectivo de atingir a Índia na direcção do que é claramente o fim do Mundo, ou a história de uma mulher que espera pela carta do seu amor, dia após dias, sem perceber porque tais cartas nunca chegam (apesar de nós, leitores, sabermos que tais cartas são escritas).

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De leitura muito aconselhável, este volume vem redimir a sensação de vazio transmitida no último volume, apresentando boas histórias numa combinação que, não sendo muito equilibrada, contém excelentes ideias.

Opinião sobre os restantes volumes da Enciclopédia da Estória Universal

A ficção especulativa em Portugal – 2016

Se o ano 2016 foi catastrófico em diversas áreas, na ficção especulativa, não sendo extraordinário, foi um ano muito razoável, ultrapassando o ritmo de 2015 e abrindo portas para um 2017 que promete.

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Tivemos poucas visitas estrangeiras, quando comparamos com 2015 (marcado pela presença de David Brin na Leituria e por Lauren Beukes e Fábio Fernandes em Outras Literaturas entre muitos outros) mas a presença de Brandon Sanderson em Portugal, vindo da Eurocon em Barcelona foi um sucesso que levou muitos à FNAC, bem como a de Carlos Ruíz Záfon na Academia das Ciências. Com menor assistência mas, para mim, de maior destaque foi a vinda de Zoran Zivkovic para o lançamento de O Livro. De nota, a presença de Ken MacLeod nos Mensageiros das Estrelas, evento mais académico dedicado à Ficção Especulativa.

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Olhando para os eventos regulares, Os Sustos às sextas tiveram uma segunda época de sucesso e estão já a preparar a terceira onde alguns detalhes mais literários aguardam o anúncio oficial. Resta-nos aguardar impacientemente! Também este ano o Scifi-LX pareceu mais consolidado voltando ao Pavilhão Central do IST com robots, jogos, livros, palestras e várias outras coisas muito geeks. O Fórum Fantástico também retornou ao espaço habitual, em Telheiras, com os usuais três dias carregados de eventos fantásticos – e já há datas para a edição de 2017 ( 29 de Setembro a 01 de Outubro). De temática não especulativa, Recordar os Esquecidos escorrega de vez em quando na ficção científica e na fantasia, destacando-se pelas tardes bem passadas no Saldanha, revendo livros e autores.

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Mas 2016 também foi marcado pelo aparecimento dos Devoradores de Livros, uma tertúlia mensal que termina em jantar, que decorre na Leituria e onde se fala sobretudo de livros de ficção especulativa, mas não só. Ainda em solo nacional, João Barreiros apresentou Viagem ao retrofuturo, e deu-se especial destaque a António de Macedo, com o filme O Segredo das Pedras Vivas no MotelX, e o divertidíssimo documentário sobre a sua obra, Nos interstícios da Realidade. Ainda na Península Ibérica, mas fora de Portugal, é de destacar a forte presença portuguesa na Eurocon de Barcelona, associada ao evento Scifi-Lx e à Editorial Divergência, com Luís Filipe Silva a marcar presença em vários painéis.

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A nível de publicações de ficção especulativa nacional, também não foi um mau ano, com o lançamento de Terrarium na Comic Con (mas apenas disponível nas livrarias a partir de 27 de Janeiro), de Galxmente de Luís Filipe Silva (nova edição), A Provocadora Realidade dos Mundos Imaginários de António de Macedo, Os Marcianos somos nós de Nuno Galopim, e da primeira antologia Cyberpunk portuguesa, Proxy, pela Editorial Divergência. Em caminhos mais internacionais, foi publicado um conto de um autor português, Mário de Seabra Coelho, na Strange Horizons!

Sem estranhar, a publicação de livros estrangeiros continua escassa e camuflada em etiquetas genéricas e pouco alusivas à ficção especulativa. Eis os que achei mais relevantes:

Sobre o ano de 2015, podem consultar a entrada equivalente, A ficção especulativa em Portugal – 2015.

O meu ano em fotos…

Bem sei que o ano ainda não terminou, mas eis um apanhado de alguns momentos que marcaram este horrível ano de 2016. Olhando assim, nem parece.

1

Parede

2

Feira do Livro

3

4

David Lloyd

5

Lisboa

6

Lisboa

7

António de Macedo – apresentação do filme O Segredo das Pedras Vivas

8

O trabalho

9

Lisboa

10

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12

13

AmadoraBD

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Barcelona

15

Barcelona

16

Lisboa

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Revisão – Bandas desenhadas dos anos 70

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Com a comemoração dos 40 anos do fim da Visão, Revisão recupera uma série de curtas histórias de banda desenhada num conjunto que se torna uma excelente surpresa – é que as histórias são, genericamente, muito boas, ora pelo aspecto gráfico, ora pela pertinência das tiras que proporcionam bons momentos de leitura.

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Apresentando experiências do ponto de vista narrativo ou estético, encontramos histórias da vida quotidiana entre alienígenas que muito têm de familiar, curtas mas boas críticas distópicas ou a desconstrução de um conto de fadas que, para além de cómico, apresenta um final peculiar.

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Mas não só ! Não estranhem encontrar um Pai Natal que utiliza mão de obra barata e infantil para a produção massiva de brinquedos numa crítica nada suave à época natalícia, vilões musicais ou a história de uma família de canalhas que, por conta das heranças, se envolve em planos furados para receber mais uma fatia.

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Estória após estória Revisão fascina pela diversidade, pela inteligência expressa na narrativa de muitas das tiras, e ainda mais pelo visual apresentando na maioria do volume – sem dúvida, uma aquisição obrigatória para quem gosta de banda desenhada e quer perceber o que já se fez de muito bom em Portugal. Revisão foi publicado pela Associação Chili com Carne.

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Já agora, aproveito para destacar que Revisão não se encontra disponível apenas em solo nacional tendo sido uma bela surpresa vislumbrar a capa numa loja meio esquecida no Bairro Gótico de Barcelona, entre outras publicações.

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Assim foi: Portugal na Eurocon

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Imagem retirada da página oficial do CCCB

Se tivesse que me mudar para outra cidade europeia decerto mudaria para Barcelona – ruas lindíssimas rodeadas por montes e mar, população de etnia variada e, claro, um sem fim de livrarias enormes, algumas especializadas, outras genéricas, quase todas com obras em vários idiomas (até em português). Saber que a próxima Eurocon seria em Barcelona foi um elemento decisivo para planear uma viagem com dois anos de antecedência. Sim, dois anos. Leram bem.

Para quem não sabe o que é a Eurocon, é uma convenção de ficção científica a nível Europeu que se centra em livros. A convenção decorre todos os anos num local diferente decidido por votação. Para a Eurocon de Barcelona foram anunciados alguns dos autores mais relevantes na ficção científica europeia, como Aliette de Bodard, Johanna Sinisalo, Andrzej Sapkowski, Albert Sánchez Piñol ou Richard Morgan (que esteve em Portugal há uns anos, para o Fórum Fantástico).

Apesar de não ter participado nos anos anteriores, pareceu-me que, devido à proximidade (Barcelona é já ali ao lado), a Eurocon de 2016 se diferenciou por uma forte presença lusa, havendo, para além de uma consistente participação do Luís Filipe Silva em vários painéis, uma banca com divulgação da Ficção Científica em Portugal, obra de André Silva, Tomás Agostinho, Carlos Silva e Pedro Cipriano.

Painéis com participação portuguesa

Atrás han quedado los días de gloria del Imperio – Luís Filipe Silva

SFF in Portugal Nowadays – Luís Filipe Silva, Carlos Silva e eu

Dédalo – Tomás Agostinho

Is there a Southern European SF? – Luís Filipe Silva (e outros autores)

How to promote Euro SF – Luís Filipe Silva (e outros autores)

Atrás han quedado los diás del gloria del Imperio

Não pude assistir a esta mas, felizmente, há gravação.

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Retirado do Twitter oficial da Eurocon

SFF in Portugal Nowadays

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Pati Manning

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Pati Manning

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Pati Manning

Ainda que a sessão tenha decorrido no edifício Pati Manning (lindíssimo, mas menos central no circuito da Eurocon) tivemos direito a público e a gravação (não oficial). Por enquanto aqui ficam os slides apresentados, realçando-se que foi, também, referido António de Macedo tanto pelos filmes que produziu, como pelos livros que tem escrito. Muito ficou por falar e por destacar mas, infelizmente, não havia espaço para tudo.

Is there a Southern European SF?

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Com moderação de Luís Filipe Silva, esta mesa reuniu Anders Bellis, Arrate Hidalgo, Francesco Verso e Claude Lalumiére numa conversa que deu especial destaque à proximidade Mediterrânica e onde Claude Lalumiére, de origem canadiana, falou das mudanças que a sua própria escrita sofreu com a proximidade ao mar. Esta sessão foi gravada:

How to promote Euro SF

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Sessão mais movimentada, marcada por opiniões mais vincadas, em que se destacou o papel dos prémios nacionais para promover a obra de ficção científica em cada um dos países europeus.

Outras presenças portuguesas

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Sci-fi LX a marcar presença na Eurocon com uma banca em que divulgaram vários projectos portugueses

O Sci-Fi Lx, representado por André Silva, Carlos Silva e Tomás Agostinho marcou espaço com uma banca em que apresentou, não só os projectos que lhe estão directamente relacionados, como outros, portugueses, sendo que a disposição do material era dinâmica, modificada ao longo do dia para ir destacando os vários produtos e ideias. Muitas foram as pessoas que pararam, de diferentes nacionalidades e interesses para saber mais sobre o que se faz neste quadrado à beira mar plantado e a boa disposição dos intervenientes rapidamente se tornou contagiante!

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Eurocon 2016 – Souvenir Book – livro distribuído a todos os participantes da Eurocon

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Eurocon 2016 – Souvenir Book – livro distribuído a todos os participantes da Eurocon

O Souvenir Book é um livro de 160 páginas que contém artigos relacionados com a ficção científica europeia. Entre estes artigos encontramos quatro páginas da autoria de Luís Filipe Silva em que se fala da história da ficção científica portuguesa.

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À esquerda Zine produzida durante o evento (http://edm-online.de / http://Hansecon.blogspot.com) e à direita um dos postais distribuídos a todos os participantes com a publicidade à Fénix.

E quase que me esquecia, eis os nomeados portugueses para as várias categorias dos prémios ESFS (na página da Locus podem consultar os vencedores):

  • Best author – João Barreiros
  • Best magazine – Bang!
  • Best artist – Edgar Ascensão
  • Best fanzine – H-Alt
  • Best website – Bibliowiki

E o Encouragement Award português vai para… Rui Ramos!

Por último e, ainda que não esteja bem relacionado com a Eurocon, foi engraçado andar a passear por ruas escuras da zona gótica e descobrir livros portugueses numa montra minúscula !

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Eventos: Nos Interstícios da Realidade ou o Cinema de António de Macedo

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No âmbito do DocLisboa irá ser apresentado o documentário Nos Interstícios da Realidade ou o Cinema de António de Macedo:

Foi o cineasta mais prolífico da geração do Novo Cinema Português. Experimentaria o western spaghetti, a alegoria esotérica, o sobrenatural e a ficção-científica. Sem subsídios estatais, desistiria de filmar nos anos 1990. Quem se lembra de António de Macedo?

Para mais detalhes sobre o evento e aquisição de bilhetes, podem consultar a página oficial.

Assim foi: Fórum Fantástico 2016 – 23 de Setembro

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Este ano pude comparecer aos três dias do evento que começou, como já é hábito, numa sexta-feira. A primeira sessão auspicia boas novidades nos eventos de banda desenhada para os próximos tempos – “Apresentação do seminário BD, Estética e Pensamento Político”. Nesta apresentação Hélder Mendes expôs o plano de realizar várias sessões, algumas informais e outras mais formais de acordo com o seguinte plano:

Sessões informais

  1. Corpo I: Corpo e género
  2. Corpo II: Cibernética e transhumanismo
  3. Cidade e Multidão
  4. Política e Desencanto (título sujeito a revisão)
  5. Utopia I: Utopia e super-heróis

Sessões formais

  1. Utopia II: Utopia e Distopia
  2. Revolução
  3. Totalitarismo

Através do contacto com o Clube Português de Banda Desenhada, esperam levar, para estas sessões, autores portugueses publicados, quer em Portugal, quer noutros países. Esperam, também, poder conjugar as sessões com o lançamento de algumas obras relacionadas (como, por exemplo, Miracleman, publicado pela G Floy).

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Seguiu-se uma sessão com vários investigadores de Fantasia e Ficção Científica na FCSH com Maria do Rosário Monteiro, Jorge Rosa e Teresa Botelho onde falaram das suas perspectivas de trabalho, com especial ênfase na distopia / utopia, e na sua evolução ao longo dos séculos.

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Entre a especulação e a dura realidade, a sessão “Planetas: Ciência e Ficção” cruzou perspectivas bastante diferentes da exploração dos planetas do restante sistema solar. Nuno Galopim é o autor de “Os Marcianos somos nós” onde realça a forma como mudou a visão de Marte com a sua exploração – se antes era um planeta de possibilidades infindáveis, com as primeiras imagens da superfície passou a área árida, quase estéril. João Barreiros é o autor de A Verdadeira Invasão dos Marcianos onde refaz a Guerra dos Mundos em que os escritores Verne e Wells possuem um importante papel. Por sua vez, Jo Lima trabalha no centro de Centro de Astrobiologia e, apesar de entusiasta, manteve-se mais terra a terra nas possibilidades inerentes à exploração de outros planetas.

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João Morales apresentou, de seguida, Metamorfoses musicais, uma série de músicas que cruzam géneros e culturas de uma forma inesperada, originando ora excelentes momentos, ora outros de inesperada estranheza. Entre as músicas apresentadas encontramos resultados tão distintos quanto:

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Após a sessão musical passou-se à gravação de programas de Contos não vendem, com leitura de contos por João Morales e Rogério Ribeiro. O primeiro escolheu histórias em Casos de Direito Galáctico e outros textos esquecidos de Mário-Henrique Leiria e o segundo um conto de Sr. Bentley – O enraba passarinhos de Ágata Ramos Simões.

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Eventos: Fórum Fantástico 2016

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Está-se a aproximar o evento fantástico mais esperado do ano em Portugal, o Fórum Fantástico de 2016. O programa já se encontra publicado e este ano vamos poder contar, como já é habitual, com palestras incidindo sobre diversas artes envolvidas na ficção especulativa. Ao longo do evento (gratuito) decorrerá uma pequena Feira do Livro Fantástico onde estarão presentes editores e autores independentes.

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Prevejo assistir aos três dias e destacaria este ano, para sexta, a perspectiva mais académica sobre ficção especulativa que será apresentada (Investigando fantasia e ficção científica) ou a componente musical associada aos géneros (Metamorfoses musicais).

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Já no Sábado, o dia começa com um workshop sobre impressão 3D, e depois de almoço assistirei decerto a Outra História, Outro Portugal (entre os autores encontra-se Miguel Real, o autor de O Último Europeu), e ao lançamento da antologia Proxy (uma antologia portuguesa cyberpunk que já tive a oportunidade de ler e que vale muito a pena).

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No Domingo temos o usual espaço de Sugestões de Literatura e cinema (com João Barreiros, Artur Coelho e eu) e prevejo assistir à apresentação de Galxmente de Luís Filipe Silva.

Assim foi: Scifi-lX 2016

Decorreu esta fim-de-semana o Scifi-LX, um evento totalmente dedicado à ficção científica, com direito a palestras, filmes, robots, exposições, impressão 3D, banda desenhada, lançamentos… entre outros! Este ano só pude ir no Sábado e cheguei mais tarde do que pensava – o calor não perdoa.

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O átrio revela-se carregado de boas surpresas – videojogos, vários bonecos em crochet, a imaginauta (com Comandante Serralves e os pequenos livros da colecção Barbante), a Bookshop Bivar (uma loja de livros ingleses que para este evento trouxe vários livros de ficção científica), entre outras coisas.

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Na parte de cima encontramos uma exposição de banda desenhada onde encontramos pranchas de vários autores, bem como posters não oficiais de filmes marcantes no género, e alguns autores de banda desenhada a dar autógrafos:

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Carlos Pedro entre autógrafos

Era também no andar de cima que decorriam as palestras, bem como os espaços mais tecnológicos, com construções de Lego com movimento, bancas Steampunk, espaço para videojogos, RPG’s – um sem fim de actividades:

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Durante o Sábado decorreu uma palestra sobre Ficção Científica: Um Universo Transnacional com participação de Luís Filipe Silva, Teresa Botelho (da Universidade Nova de Lisboa), Adelaide Meira Serras e João Félix (ambos da Faculdade de letras da Universidade de Lisboa, do grupo Mensageiros das Estrelas).

A conversa incidiu sobretudo sobre utopias / distopias, com especial destaque para obras de Ursula Le Guin (é inevitável a referência a The Dispossessed ou The Left Hand of Darkness sem esquecer, claro, The ones that walk away from Omelas) – ainda que, para mim, não haja conto distópico mais brutal que The Lottery. Entre vários géneros da ficção científica falou-se da ficção científica ecológica com especial ênfase, claro, a The Water Knife de Paolo Bacigalupi. Por ler, ficou-me o The Machine Stops de E. M. Foster, em que a humanidade está tão dependente da máquina que uma pequena quebra informática pode por em risco a espécie (já agora, o conto encontra-se disponível gratuitamente aqui).

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A esta palestra seguiu-se uma apresentação sobre zombies com o objectivo de expor, não só a evolução da figura sobrenatural no cinema, como as raízes para o seu mito, bastante mais antigas do que o cinema:

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O dia de Sábado terminou (para mim) com o painel de convidados das exposições de banda desenhada: Miguel Montenegro, Ricardo Venâncio, Carlos Pedro e André Morgado. Este painel teve especial relevância por se ter transformado numa conversa mais informal em que foram os próprios autores (com experiências diferentes) a colocarem-se questões sobre os percursos distintos de cada um (principalmente André Morgado).

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Depois de um dia em cheio, voltei com mais dois livrinhos de banda desenhada, Altemente de Mosi e Double Helix and other stories de Ewing e Montenegro, bem como (im)prováveis destinos de viagem (da Bookshop Bívar):

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Eventos: Sci-FI LX

Robots, viagens no espaço, impressões 3D ! Um evento para qualquer geek digno desse nome – É já este fim-de-semana que decorre o maior evento em Portugal dedicado exclusivamente à ficção científica, seja sob a forma cinematográfica, sejam palestras e workshops sobre os mais diversos (e futurísticos) temas.

Contando com um espaço comercial (onde encontramos a Bookshop Bivar, a Kingpin Books, e a Imaginauta, entre outros) e exposições (sobretudo de banda desenhada) vamos ter, também oportunidade de assistir a um duelo steampunk ou a impressões 3D.

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Para visualizarem todas as actividades inerentes ao Sci-fi LX podem consultar a página oficial, enquanto que aqui irei falar daquelas que me despertam mais interesse. Entre elas estão, claro, as exposições de banda desenhada, com especial destaque para Carlos Pedro, Miguel Montenegro, Ricardo Venâncio ou H-alt. De realçar que estes autores estarão num painel a decorrer pelas 19h00 de Sábado e que decorrerá uma sessão de autógrafos de A Vida Oculta de Fernando Pessoa com André Morgado.

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Entre a apresentação do Projecto Mensageiros das Estrelas (que tem trazido alguns autores de ficção científica a Portugal como Geoff Ryman) , encontramos palestras sobre Viagens no tempo (a necessidade de viver além do presente), a ficção científica em videojogos, FC em Universo Transnacional (com destaque para a presença de Luís Filipe Silva e Teresa Botelho) e zombies.

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Para actividades mais interactivas temos Impressões em 3D (TIC em 3D) durante os dois dias, crochet (nada como um Yoda de crochet), pintura, duelos, jogos de tabuleiro, cosplay ou torneios de robots.

Claro que não falei de muita coisa, apenas das que mais me interessavam. Há vários eventos temporalmente sobrepostos pelo que se não vos interessar algo em particular podem aproveitar a restante programação nos outros espaços do evento.