Assim foi – Worldcon Dublin 2019 – uma perspectiva pessoal

Foto oficial do Centro de Convenções de Dublin (edifício à direita)

Este ano a Worldcon foi em Dublin, num edifício que desafia a imaginação, quer em termos de formato, quer em termos de tamanho! Já o evento em si tem um tamanho inesperado – existem tantas palestras e actividades em simultâneo que cada visitante terá uma experiência única. Esta é a minha.

Infelizmente apenas pude estar no evento dois dias, Domingo e Segunda. A sensação, à chegada, é de um mundo à parte. A Worldcon ocupou pelo menos 6 pisos do centro de convenções, e cada piso tinha várias salas. Cada sala tinha uma lotação de 60 a 400 pessoas. E mesmo assim, existiam pessoas a ficar de fora consecutivamente.

 

Estive com pouca bateria durante o evento pelo que várias das fotos usadas nesta entrada foram disponibilizadas por Dan Ofer.

Exposições / comércio

O primeiro local a visitar é, claro, o piso térreo onde se encontram as bancas de comerciantes, as exposições e várias mesas de vários fandom. À entrada deparávamo-nos com este fabuloso DeLorean. Do lado esquerdo encontravam-se exposições, inclusivé uma do autor das capas da série fantástica The Elephant and Macaw Banner de Christopher Kastensmidt, Guilherme Da Cas.

Entre simuladores de pontes de comando de naves espaciais, encontramos bancas de todas as grandes editoras anglosaxónicas de ficção científica e fantasia! Mas não só! Também encontramos editoras mais pequenas mas marcantes no meio, bem como vários artesãos que vendem os seus próprios trabalhos.

Para além das exposições presentes neste edifício, existia outro (ao qual não tive oportunidade de ir) com um grande espaço dedicado a Lego.

Ainda que tivesse um tamanho considerável, esta zona foi a que, simultaneamente, me desiludiu e superou as expectativas. Comparando com a Eurocon Barcelona, e dada a quantidade de pessoas na Worldcon, esperava que a zona de comércio fosse maior e com mais oportunidades de compra.

A capacidade de organização

Eis uma componente que merece ser destacada. Sei que existiram várias queixas (quer relativas a festas com lotação máxima, quer relativas ao streaming dos prémios) mas, mesmo assim, foi uma questão essencial para que tudo corresse dentro do previsto.

Por razões de segurança, a assistência não podia ser maior do que a lotação da sala. De forma a garantir tal limitação, existia sempre, para cada sala, alguém responsável por garantir que as pessoas com falta de mobilidade entravam primeiro (existiam sempre lugares reservados) e que só entravam pessoas até serem preenchidos todos os lugares.

Tendo participado em duas palestras, assisti ao outro lado da organização. Para além de existir troca de pareceres algumas semanas antes do evento, na chegada era distribuído um envelope a cada participante. Este envelope continha um horário personalizado que indicava onde e quando teria de estar, bem como as regras de etiqueta a garantir durante as palestras. Era esperado que, meia hora antes da palestra, os participantes se reunissem numa zona reservada para trocar impressões e criar empatia.

Assim que entrávamos na sala já existiam etiquetas com os nossos nomes e um técnico de som. Para cada sala existia uma fila organizada que só prosseguia para a sala quando os “sinaleiros” assim o indicassem. No final, alguém alertava para os últimos cinco minutos. Assim se garantia que a palestra terminava a horas e que todas as pessoas saíam antes de poder deixar entrar para a seguinte.

Ninguém se aguenta sem comida

Existiam diversos pontos disponíveis por todo o edifício. O preço não era excessivo, mas também não era propriamente barato. Sim, eram muitas pessoas. Mas dada a quantidade de locais disponíveis, as filas para comer oscilavam entre 4 e 5 pessoas nos locais a que fomos.

Livros gratuitos

Alguns dos livros gratuitos disponíveis.

Não apanhei os dos primeiros dias, mas mesmo assim, eram vários. Podiam ser recolhidos numa zona própria (assim como pin’s e outros materiais publicitários de fandom, editoras e escritores) ou mesmo na zona de comércio.

Para além disto

Entre o cansaço, as palestras em que participei e alguns contratempos, não foi possível assistir aos espectáculos. Existiam actividades com desenhadores de jogos de tabuleiro, concertos, peças de teatro, bailes de máscaras, leituras e workshops. Ainda assim, descansámos os pés na sala de jogos de tabuleiro (no meu entendimento pequena para este evento mas com uma boa selecção de jogos).

Conclusão

Ir à Worldcon é ir na mesma escada rolante que o George R. R. Martin, cruzarmo-nos com Scott Lynch no corredor e trocar umas frases com Charles Stross ou Steve Jackson. É vermos dezenas de escritores de que gostamos, ao vivo e a cores, num só local. É percebermos que Joe Abercrombie tem um sentido de humor peculiar e que a fabulosa Jo Walton tem um discurso altamente inteligente. É falarmos com os editores de algumas das mais conhecidas editoras dos géneros da ficção especulativa, descobrirmos livros assinados nas bancas e ainda trazermos uns quantos gratuitos de autores que conhecemos. Nos intervalos de tudo isto descobrem-se outros fãs, exploram-se recantos e descansam-se as costas do peso dos livros.

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The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction

Se bem repararam, o Rascunhos tem estado mais silencioso nestas últimas semanas. Tal redução de publicações deve-se ao surgir de um novo projecto que estou a coordenar conjuntamente com o Carlos Silva – o The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction.

Ainda que apenas tenha sido lançado no passado Sábado, dia 11, é um projecto que fervilha desde que a sua necessidade se tornou evidente na Eurocon de Barcelona, há alguns anitos. É que, após apresentarmos vários livros, autores e iniciativas portuguesas, não tinhamos nenhum portal que pudesse dar continuidade ao interesse que se gerava pelo que é feito em Portugal.

É neste seguimento que surge, então, o portal – um esforço conjunto de mais de 20 pessoas que inclui associações e vários bloggers para divulgar tudo o que ocorre a nível nacional em várias vertentes – literatura, jogos de tabuleiro, banda desenhada, videojogos, rgp, cinema, música, teatro. E em língua inglesa para podermos dar maior visibilidade internacional!

O arranque de dia 11 trouxe artigos sobre videojogos, jogos de tabuleiro, livros (claro) e banda desenhada – mas já estão programados artigos sobre cinema, teatro, eventos e muito mais. Estamos abertos a contribuições, sugestões, ideias e muito mais – basta contactarem-nos pelo formulário que se encontra na página.

A ficção especulativa em Portugal – 2018

Se tinha sentido alguma evolução na ficção especulativa ao longo dos mais recentes anos, já este ano de 2018 achei que foi mais um ano de consolidação do que de crescimento. Algumas iniciativas terminaram (ou diminuiram em frequência) enquanto outras se iniciaram. Eis um apanhado dos eventos e dos lançamentos de ficção especulativa em 2018.

Eventos

2018 foi o ano em que terminaram os eventos regulares dos Devoradores de Livros. Os encontros decorriam mensalmente numa livraria e iniciaram-se na Leituria. Mais recentemente, passaram para a Tigre de Papel. De ocorrência mensal, estes encontros traziam um convidado com o qual decorria uma conversa na livraria até um pequeno jantar de convívio. Esperemos que outra iniciativa semelhante se siga.

Em termos de lançamentos de autores nacionais 2018 começou, tal como 2017, com um livro de João Barreiros, desta vez um livro a solo, Crazy Equóides. Este livro, publicado pela Imaginauta, começou como uma história para uma antologia erótica de ficção científica e fantástico. Não se realizando a antologia, a história acabou por ser publicada em livro isolado pela Imaginauta. O lançamento decorreu num cenário bem burlesco! (para os interessados, eis vídeos do evento).

Abril foi marcado pelo Festival Contacto, um novo evento de ficção científica e fantástico que se traduziu numa tarde bem passada para participantes de todas as idades. O evento possuiu componentes literárias, mas também uma escape room, jogos de tabuleiro e lutas de sabres de luz que deliciaram os mais novos. Não faltaram as salas de magia nem as bancas de livros e não faltou o apoio logístico (como bar e esplanada). Foi uma tarde recheada que poderá se repetir em 2018.

Na vertente de horror, o Sustos às sextas que se costumava alongar por 5 ou 6 sessões de periodicidade mensal, decorreu em 2018 apenas uma vez (sendo que não pude comparecer). Outro evento que voltou a ocorrer, mas julgo que com menor adesão, foi o Sci-fi LX – decerto por causa das obras que decorriam no pavilhão e que bloquearam a usual distribuição de participantes, convidados e bancas.

A Comic Con decorreu pela primeira vez em Lisboa e tive oportunidade de ir pela primeira vez. É um evento que dedica vários espaços a várias vertentes da cultura pop, ainda que nalgumas tenha condições insuficientes. Para nós foi um dia bem passado, mas cansativo, onde tive oportunidade de conhecer alguns autores de banda desenhada e ficção especulativa.

Já o Fórum Fantástico, este ano, alongou-se temporalmente e estendeu os seus tentáculos aos eventos EuroSteamCon e ao dia 5 de Outubro, com República Irreal e Fantástica (onde se falaram de realidades alternativas). O evento principal decorreu nos três dias habituais na Biblioteca Orlando Ribeiro e trouxe, como já é usual, o que de melhor de faz na ficção especulativa portuguesa. Este ano trouxe não um, mas dois convidados internacionais: Gillian Redfearn e Chris Wooding.

O Festival Bang! é outro dos eventos que marcou o ano, sendo já a segunda edição. O evento atrai muitos leitores e explora diversos interesses tendo um espaço para jogos de tabuleiro, magia (Harry Potter) e lutas de sabres de luz. Teve como convidada internacional Robin Hobb e foi dos eventos de ficção especulativa com mais público.

Logo no fim de semana a seguir ao Festival Bang! decorrer o Literal, um evento literário em Alenquer que, este ano, se dedicou à ficção especulativa. Entre os convidados estiveram João Barreiros, Luís Filipe Silva, Inês Botelho, Madalena Nogueira Santos. No mesmo fim de semana decorreu o ComCeptCON 2018, um evento ligado à Comunidade Céptica Portuguesa que tem como objectivo informar, de forma isenta, com base em conhecimentos científicos actuais.

De teor mais académico, Mensageiros das Estrelas decorreu, como é usual na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e trouxe como convidado, Mike Carey! Por sua vez, Margaret Atwood esteve em Portugal por ocasião do Fórum do Futuro. O ano terminou com o lançamento de Quem chama pelo senhor Aventura?, o livro escolhido para o prémio Editorial Divergência.

Lançamentos

Não vou fazer uma lista exaustiva de lançamentos – apenas realçar os que considero mais importantes. Começo com os lançamentos nacionais:

E continuo com os internacionais:

E os vossos? Que lançamentos de autores nacionais destacariam?

Resumos de outros anos

Recomendações de Halloween

Livros

Lisboa Oculta

O mais recente lançamento da Imaginauta confere uma aura sobrenatural a vários dos espaços de Lisboa, cruzando história com elementos ficcionais para criar um guia turístico que levará os viajantes a olhar por cima do ombro a cada passada.

O resto é paisagem

O ambiente rural é dado a deambulações fantasmagóricas e à exploração de elementos sobrenaturais. Nesta antologia fantástica vários autores aproveitam o cenário simultaneamente conhecido, mas misterioso, para apresentar histórias apropriadas a estes dias assombrados.

Os monstros que nos habitam

A antologia não é nova (foi lançada o ano passado) mas é um bom exemplo de um conjunto de contos assustadores em que vários autores exploram monstros que não são, necessariamente, sobrenaturais.

Banda desenhada

Wytches – Snyder, Jock, Hollingsworth e Robins

Não podia deixar de recomendar Wytches que continua a ser uma das minhas preferidas bandas desenhadas de horror.  Wytches também aproveita o cenário rural, assustador não só pela floresta deserta e sombria, mas pela população muito fechada de uma pequena vila. É neste ambiente, já de si inóspito, que existem bruxas milenares, seres mais antigos que a humanidade que se servem dos humanos para alimentarem a sua malvadez.

Harrow County – Cullen Bunn e Tyler Crook

A série começou com um primeiro volume brutal que pode ser lido isoladamente. Neste uma menina descobre ser a encarnação de uma bruxa, entre elementos sobrenaturais e criaturas criadas da lama. Esta série tem-se alongado por mais volumes interessantes mostrando que os monstros nem sempre são aqueles que o aparentam e usam o meio rural para explorar os elementos mais primitivos associados ao medo e ao sobrenatural.

Sintra – Tiago Cruz e Inês Garcia

Quem já andou por Sintra à noite sabe que as florestas são tenebrosas e carregadas de sombras! Não é pois difícil de imaginar que possa ser um cenário de uma história de horror, principalmente de teor fantasmagórico! Estes dois autores juntaram esforços para apresentar um conto competete, com alguns clichés (que funcionam) que consegue criar tensão e escalar o horror!

Jogos de tabuleiro

Mysterium

Só ainda o joguei uma vez, mas é um jogo que aproveita um pouco a lógica do Dixit para explorar um tema sobretural. Explicando, rapidamente, um fantasma pretende indicar aos investigadores (os jogadores) os detalhes pelo qual virou fantasma, mostrando o local onde foi assassinado, com que arma e quem a empunhou. Para tal não pode dispor de palavras, apenas das imagens que tem em mão!

Jogos de telemóvel

Last day on earth: survival

Ao contrário de muitos jogos com componente de construção para pequeno ecrã, achei este fácil de manipular e de gerir. O jogo passa-se durante um apocalipse zombie, durante o qual temos de criar o nosso próprio refúgio e construir as nossas próprias ferramentas, dispondo apenas do que a natureza e os restos de uma civilização têm para nos oferecer.

Lutando contra zombies e outros sobreviventes humanos (que podemos saquear), explorando áreas onde podemos recolher matérias primas e alguns items, é um jogo que nos envolve rapidamente.

Resumo de Leituras – Julho de 2018 (2)

112 – Duas Luas – André Diniz  e Pablo Mayer – Uma história trágica de como os acontecimentos fazem vergar um homem, cedendo às circunstâncias do local onde vive para sobreviver e possibilitar a sobrevivência dos que gosta – como outros livros de André Diniz, possui uma excelente componente narrativa;

113 – Dylan Dog – Os Inquilinos Arcanos – O último livro da colecção Bonelli traz um conjunto diverso de aventuras de Dylan Dog, com prefácio de Filipe Melo, a pessoa que me pôs a pesquisar mais sobre a personagem. De realçar um sonho futurista que recorda um clássico da banda desenhada;

114 – No bosque do espelho – Alberto Manguel – Um conjunto de textos de Manguel onde fala sobre livros, mas também de aspectos políticos e sociais. Concordando ou não com todas as suas posições é uma leitura bastante interessante;

115 – Aqui mesmo – Forsest & Tardi –  uma leitura estranhamente movimentada, carregada de episódios extravagantes, onde o cómico anda de mão dada com o trágico e o inusitado – os elementos caricatos da personagem resultam de traumas que só mais tarde conhecemos, conferindo alguma loucura à história.

Os Humanos – Matt Haig

Este livro foi escrito durante uma profunda depressão do autor, uma depressão que o levava a olhar para as restantes pessoas como alienígenas estranhos e aversivos, e é esta mesma perspectiva, sob uma camada cómica e leve, que o autor traduz em Os Humanos – mas neste caso é um extra-terrestre que está entre nós, desconhecendo normas de conducta ou palavras!

E porquê que está um extraterrestre no corpo de um humano? Bem, é que a Andrew Martin, um matemático de personalidade execrável, terá consigo demonstrar a hipótese de Riemann e se os extraterrestres não intervirem, a humanidade irá evoluir rapidamente para além da maturidade que possuem para lidar com a tecnologia. Ou com os outros alienígenas, dada a sua propensão para a violência! A solução é fácil –  enviar um extratrrestre materializado no corpo de Andrew Martin (que entretanto foi eliminado) e seguir as pistas para todos os que possam saber de tal descoberta.

Os humanos são uma espécie arrogante, que se define pela violência e pela avidez. Pegaram no seu planeta natal, o único a que actualmente têm acesso, e colocaram-no no caminho da destruição. Criaram  um mundo de divisões e categorias e revelam-se incapazes de ver as semelhanças entre eles mesmos. Desenvolveram tecnologia a uma velocidade a que a psique humana não consegue acompahar, mas, ainda assim, não deixam de conseguir o progresso pelo progresso apenas, e pelo dinheiro e fama por que tanto anseiam.

Presos na sua própria mortalidade, os humanos são incompreensíveis para os extraterrestres, que são imortais e lógicos, sem laços afectivos como os humanos e agindo como um todo, com consciência partilhada. Ao se ver num corpo humano, a primeira perspectiva do alienígena com poderes que consideramos sobrenaturais, é de asco. Asco pelas feições, pela estranha forma humana. Estranheza para com as formas de comportamento, aversão à tecnologia que usam, demasiado estática e incapaz de prever as necessidades do utilizador.

Na Terra, o termo «notícias» significa, de um modo geral, «notícias que afectam directamente os humanos». Não houve nem uma acerca de antílopes, dos cavalos-marinhos, da tartaruga de orelha vermelha ou dos restantes nove milhões de espécies existentes no planeta. (…) Na verdade, a guerra e o dinheiro são tão populares que o noticiário podia ter o nome de O Programa da Guerra e do Dinheiro.

Os primeiros contactos com a cultura dos humanos suportam a hipótese de que tudo o que lhes interessa é o dinheiro e a fama, levando o alienígena algum tempo até perceber as motivações por detrás da esposa de Andrew Martin que, achando que o alienígena é o marido com um esgotamento, cuida dele. O que lucra ela com este comportamento? Deixado em casa sozinho, explora a música e lê alguns livros de poesia, percebendo que, com a mortalidade, se cria uma confusão mental nos humanos que os leva a desperdiçar a vida e a uma perspectiva bastante mais fechada.

Tenho de admitir que os humanos desperdiçam grande parte do seu tempo, ou praticamente todo, com cenários hipotéticos: podia ser rico, podia ser famoso, podia ter sido atropelado por aquele autocarro, podia ter nascido com menos sinais e mamas maiores, podia ter passado uma parte maior da minha juventude a aprender línguas estrangeiras. É seguramente a forma de vida que mais usa o tempo condicional.

O alienígena apercebe-se, lentamente, do que é ser humano e deixa-se corromper e envolver, tentando convencer os restantes da sua espécie a agir de outra forma para com os seres humanos. Sem grande sucesso – é difícil mostrar o que é individualidade e que, se alguns seres humanos são execráveis, outros têm objectivos bastante distantes de acumular fama e dinheiro.

Foi então que percebi que a única coisa pior do que ter um cão que nos odeia é ter um cão que nos ama. Sinceramente, não devia haver uma espécie mais carente em todo o Universo.

Partindo de uma perspectiva alienada, de asco para com a biologia humana e aversão para com a sua tecnologia, o alienígena cria uma perspectiva interessante e, até, cómica pela forma como se expressa. Entre o desenvolvimento da história, movimentada, e estas observações cómicas, Os Humanos de Matt Haig é um livro que proporciona uma rápida e divertida leitura, constituindo uma das histórias mais envolventes que li recentemente.

Os Humanos foi publicado pela TOPSELLER.

Resumo – 1º trimestre de 2018

Com mais de 20 000 visualizações desde Janeiro e mais de 60 leituras, 2018 tem-se revelado um ano interessante, com novos projectos e direcções. Para quem tem acompanhado, já se deve ter apercebido que foi lançado um programa de rádio na Voz Online, que é uma extensão do Rascunhos (o programa de rádio aparece, também, na Mixcloud, como outros programas da rádio), e que se iniciou uma nova rubrica de jogos de tabuleiro (ainda que não tenha tido a regularidade pretendida).

Passando à ficção especulativa, este primeiro trimestre viu o retorno dos Devoradores de livros na Tigre de Papel e o lançamento de Crazy Equóides de João Barreiros, bem como o agendamento de alguns dos mais importantes eventos de ficção especulativa em Portugal:

 

 

 

 

 

 

 

A nível de publicações, o ano começou bem para a ficção especulativa portuguesa – não porque haja publicação em quantidade, mas mas porque o pouco que existiu é de qualidade. Estou a falar da publicação de Crazy Equóides de João Barreiros. Trata-se de uma história que foi criada para a Antologia Erótica de ficção fantástica, mas que, na falha de pubilcação da antologia, foi direccionada para publicação isolada e acabou publicada pela Imaginauta – e ainda bem.

Considerando o tema da antologia à qual se destinava não é de estranhar que tenha uma grande componente associada à sexualidade, mas nem por isso se trata de uma história que pretenda fornecer uma experiência erótica. João Barreiros caminha o limite da premissa sem resvalar para caminhos demasiado obscuros, fornecendo uma história com máximo prejuízo e pequenas reviravoltas que vão entusiasmando o leitor.

Dormir com Lisboa é outra das obras de ficção especulativa portuguesa que se destaca nas minhas leituras. Trata-se do vencedor do prémio Antón Risco de 2016, um dos livros falados durante o Fórum Fantástico de 2017 que só agora li. Como o nome indica a obra explora Lisboa e a perspectiva que cada um tem da cidade, expondo a diversidade de locais, resultado da construção e da recombinação ao longo dos séculos.

 

 

 

 

 

 

 

Este ano tem sido marcado pelo sucesso de Jeff Vandermeer. Um dos seus mais recentes livros foi adaptado para cinema, Aniquilação, e, ainda que não tenha sido distribuído para as salas de cinema de todo o mundo, mas através da Netflix, trata-se de um filme que não tem deixado a audiência indiferente. Confusa, por vezes, sim. De realçar que alguns dos cenários do primeiro livro foram inspirados numa visita a Portugal, mais concretamente à Quinta da Regaleira (como a torre invertida que não se vê no filme).

Após esta trilogia Jeff Vandermeer já lançou outras obras, entre elas Borne e The Strange Bird, ambos passados no mesmo Universo, uma realidade futura em que a biotecnologia criou seres que contaminam todos os nichos ecológicos. O resultado são monstros inteligentes capazes de interagir com seres humanos, e de mudar a sua aparência quando querem, alimentando-se por fagocitose, ou raposas inteligentes capazes de comunicar sem palavras, ou monstros em forma de urso.

Borne é o primeiro livro nesta realidade, mas achei-o demasiado longo nalgumas partes, centrando-se no seu relacionamento com a humana que o acolhe o cria, formando-o como uma pessoa, mas não como um humano, e saciando a sua capacidade para aprender. Desta forma, gostei mais de Strange Bird, mais conciso, e centrado  num novo ser, belíssimo, resultante do cruzamento de genes de diferentes animais, que é utilizado por vários seres humanos para fins diferentes.

 

 

 

 

 

 

 

Passando à banda desenhada, secção onde a leitura foi mais extensa, Ciudad de Giménez e Barreiro, destacou-se por apresentar uma imensa cidade paralela, onde o tempo e o espaço não são contíguos e as pessoas que lá caem deambulam, sob influência do ambiente que os rodeia, construindo maravilhosas mas nefastas cidades, ou fugindo de grupos armados. No decorrer encontram comboios que os levam a vislumbrar o passado e o futuro, pessoas que atraem milhões de ratazanas (simultaneamente uma benção e uma maldição) ou imensos jardins predadores que se dissipam. Trata-se de uma obra com inúmeras referências literárias, um intrincado de caminhos e de questionamentos.

Ministry of Space, de Warren Ellis, foi outra das grandes leituras deste trimestre. Trata-se de uma obra que recorda o sentimento inglês em relação ao imperialismo que coloca os ingleses no topo da corrida ao espaço. A origem do dinheiro que proporciona este avanço é obscura e o objectivo também. É uma banda desenhada carregada de simbolismos e de alusões ao espírito nacionalista que levou alguns países para a guerra, mostrando o orgulho do soldado perfeito e do confronto bélico.

 

 

 

 

 

 

 

Com o terceiro volume publicado em Portugal, Harrow County continua a ser uma das grandes séries de horror em lançamento. Este volume introduz algumas variações em relação aos anteriores, com uma história de final aberto, menos centrado na personagem principal e introduzindo novas personagens com poderes sobrenaturais – personagens com interesses próprios que se prevê opostos.

El fantasma de Gaudí apresenta um assassino em série na cidade de Barcelona. Não é uma história impressionante do ponto de vista narrativo mas surpreende no visual que aproveita as cores da cidade e o trabalho de Gaudí para episódios em belíssimos cenários em que se discorre sobre os mais grandiosos edifícios da cidade.

O segundo trimestre também promete boas novidades, com o festival Contacto já no próximo fim de semana!

Torpedo Vol.2 – Abulí e Bernet

Este segundo volume abre com a história em que Luca Torelli e Rascal se conheceram, uma história em que Rascal se safou por um triz de ir desta para melhor, ao demonstrar a sua capacidade de disparar uma arma. As duas histórias que se seguem apresentam Torpedo em missões falhadas por circunstâncias que lhe são alheias – duas missões frustrantes que o levarão a direccionar a raiva em vários sentidos.

Sem pudor em usar as mulheres com as quais se cruza, ou em disparar a torto e a direito sobre quem cruza o seu caminho indevidamente, Torpedo nem sempre tem a vida fácil. Em Um Salário de Medo, história passada em 1929, a economia estagnada leva Torpedo a procurar outras ocupações, neste caso como condutor de uma carrinha que levava bebidas alcóolicas. O seu companheiro deixa-se enrolar por uma rapariga e cabe a Torpedo levar com as consequências de um transporte com falhas demasiado graves.

A última história do volume apresenta um duro episódio da infância de Luca Torelli, que explica como perdeu o irmão, resultado da violência doméstica a que os pai submetia rotineiramente. Trata-se de uma história que explica o contexto em que Torpedo cresceu, um meio pobre e carregado de violência, onde terá de se virar.

Este segundo volume apresenta história de um só desenhador, captando o tom mafioso, por vezes contraditório de Torpedo, numa sucessão de episódios que exploram a degradação moral da personagem.

A série Torpedo foi publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Livrarias: Tigre de Papel

Eis nova livraria em Lisboa (bem, já tem alguns meses largos, mas só recentemente, no evento Devoradores de Livros é que lá pude ir) – tal como outras livrarias no centro de Lisboa, a Tigre de Papel investe na organização de eventos que lhe permitam ganhar uma clientela própria. Não é, assim, de estranhar que se encontrem outos produtos, como uma boa selecção de jogos de tabuleiro.

A nível de livros encontramos quer livros novos, quer livros usados e foi aqui que comprei, recentemente, a colecção quase completa de Corto Maltese, para além de vários Argonautas a preço reduzido na entrada!

Deixo-vos a  página de facebook que contém localização e eventos!

Outras livrarias peculiares:

Leituria;

Fyodor (já não existe);

Bivar (mudou de localização). 

Resumo de leituras – Dezembro de 2017 (3)

254 – The surrogate’s owner’s manual Uma banda desenhada futurista com um ambiente sombrio que recorda clássicos de ficção científica como Blade Runner, apresenta um futuro onde podemos usar corpos artificiais que podem mascarar todas as características raciais ou de género. Neste enquadramento questiona a humanidade não pela apresentação de entidades artificiais mas pela apresentação de entidades humanas que se tornam artificiais.

255- Mónica: Força – Desta vez a personagem visada com uma história fora do enquadramento usual é Mônica, uma menina forte que enfrenta os seus problemas, mas que, desta vez, se depara com problemas demasiado adultos para os conseguir resolver;

256 – East of West Vol.4 – Hickman, Dragotta e Martin – As várias fracções continuam em luta. Neste volume não há desenlaces, mas há fichas informativas das várias fracções (que já deveriam ter sido apresentadas) e há colocação estratégica de alguns elementos;

257 – Os diários de Adão e Eva – Mark Twain – Neste pequeno livro Adão e Eva expressam as suas impressões. Adão, mais conciso e calado, estranha a capacidade de falar de Eva e ainda mais o bicho estranho com que ela aparece, um bicho dependente e sem pêlos;

258 – A instalação do medo – Rui Zink – O livro venceu o prémio Utopiales ultrapassando outros livros de ficção especulativa como Luna de Ian McDonald, Railsea de China Miéville ou My real children de Jo Walton. Trata-se de uma distopia quase episódica (em que, a partir do episódio se constrói a realidade);

259 – A Guerra é para os velhos – John Scalzi – Os seres humanos já colonizaram outros planetas, mas as colónias possuem não está ao dispor da Terra. Os novos colonos provêm sobretudo de países pobres ou são velhos que são integrados no serviço militar. Porque querem idosos a servir no exército? Ninguém sabe mas especula-se que as pessoas podem ser rejuvenescidas…

Resumo de leituras – Dezembro de 2017 (2)

249 – Reborn – Book One – Mark Millar, Greg Capullo, Jonathan Glapion e Fco Plascencia – Depois da morte existe uma nova vida, mas nada que se equipare ao previsto por nenhuma religião, facto capaz de destruir psicologicamente algumas pessoas. Nesta outra vida quem foi bom prossegue em cenários idílicos em comunhão com a Natureza, numa civilização pouco desenvolvida tecnologicamente. Quem foi mau assume uma aparência mais maléfica e vive em zonas de aspecto infernoso;

250 – Sintra – Tiago Cruz e Inês Garcia – Uma banda desenhada que aproveita uma lenda local para tecer uma história de horror onde diferentes planos de existência se cruzam;

251 – Planetary – Book One – Warren Ellis e John Cassady – O primeiro volume começa com a nova contratação para o grupo, Elijah Snow, um homem com poderes relacionados com o frio. O grupo anda pelo mundo a coleccionar segredos sobre vários eventos, principalmente aqueles relacionados com poderes ou interligação de dimensões;

252 – Relatório Minoritário e outros contos – Philip K. Dick – Um estrondoso conjunto de contos onde se explora a fiabilidade da realidade que nos rodeia, e a inteligência artificial que, pela sua programação, está destinada a ciclos intermináveis que aumentam de consequências a cada iteração;

253 – Os Vingadores – Vol.7 e Vol.8 – Continua a batalha entre super-heróis que têm posições opostas quanto à capacidade de previsão de uma catástrofe. Um futuro criminoso que seja preso antes de concretizar um crime é inocente ou culpado? Engraçado que na leitura anterior encontrei premissa semelhante (Relatório Minoritário).

Assim foi: Fórum Fantástico 2017

As diferenças

O Fórum Fantástico cresceu, este ano, de forma bastante positiva! Por um lado notou-se a forte aposta em workshops, o que possibilitou integrar camadas mais jovens e manter um programa mais dinâmico. A par com a usual (e fantástica) impressão a 3D organizada pelo Artur Coelho, houve espaço para desenvolver a imaginação dos mais pequenos, construir Zepellins e armaduras, ou para aprender um pouco mais de ilustração com Ricardo Venâncio.

Por outro, é de realçar a maior ocupação do espaço da Biblioteca Orlando Ribeiro que deu nova vida ao espaço – era impossível não reparar na tenda que ocupava parte do pátio com uma pequena feira do livro, onde se viam exemplares de livros de ficção científica e fantasia, sem faltarem os da autoria de Mike Carey, o escritor convidado deste ano. Nesta pequena feira do livro exterior encontravam-se a Leituria e a Dr. Kartoon.

Mas não foi só com a feira do livro que houve uma maior ocupação do espaço. O bom tempo permitiu a existência de bancas de produtos diversos, com especial destaque para o Steampunk (ou não estivesse a decorrer a EuroSteamCon integrada no Fórum Fantástico), bem como de mesas e cadeiras no exterior que permitiram usufruir do bom tempo. O terraço, bem como outras salas da biblioteca foram ocupadas, permitindo a apresentação de jogos de tabuleiro (com participação da Morapiaf) e a exibição de pranchas de Ricardo Venâncio.

E as diferenças não acabaram por aqui – a existência de um bar aberto durante todo o evento facilitou a permanência no Fórum Fantástico pois em anos anteriores era usual ter-se de deixar o recinto para comer alguma coisa. O menu, fantástico, possuía várias alusões ao evento e a comida fornecida era de boa qualidade (pela Cacaoati).

Mike e Linda Carey

Mike Carey produziu mais de 200 comics, vários livros e guiões para cinema. Com a adaptação para cinema de The Girl with all the gifts tem-se tornado cada vez mais requisitado. Por sua vez, Linda Carey escreveu também alguns livros (alguns sob pseudónimo). O destaque para a imensa obra, principalmente a de Mike Carey, serve para contrastar com o espírito que ambos demonstraram, sem prepotências ou projecções de importância, atenciosos e simpáticos durante todo o evento.

Na sexta-feira Mike Carey, conjuntamente com Filipe Melo e José Hartvig de Freitas, falou da larga experiência na produção de comics, da forma como trabalha com diversos desenhadores e da sua própria evolução e adaptação. Destacou-se a produção da série Unwritten, ideia que surgiu em cooperação com Peter Gross, com o qual já se habituou a desenhar. Foi uma palestra interessante e bem disposta.

No Sábado decorreu a conversa com ambos, Mike e Linda Carey, moderada por Rogério Ribeiro, mais voltada para os restantes livros (fora do formato da banda desenhada) onde se falou intensivamente do The Girl with all the gifts, que foi escrito em simultâneo com a adaptação, para cinema, da mesma história. Ambos os autores demonstraram uma queda para pequenos elementos subversivos nas suas histórias.

As restantes palestras de sexta

E com esta nomenclatura não pretendia referir menor prestígio das restantes palestras, mas sim destacar as que envolveram o autor convidado.

15:30 – Sessão Oficial de Abertura do Fórum Fantástico 2017

O Fórum iniciou-se na sexta (para mim, que não pude ir aos worksops) com uma sessão de apresentação de João Morales e Rogério Ribeiro onde expuseram algumas das diferenças deste ano e destacaram algumas sessões e workshops.

16:00 – Sessão “A Ficção Científica: Espelho de ansiedades políticas e pessoais”, com Jorge Martins Rosa, Maria do Rosário Monteiro, Daniel Cardoso e Aline Ferreira

Nesta sessão referiram-se várias obras e respectivas projecções das ansiedades sociais, não só em relação à evolução tecnológica e respectiva perda dos papéis tradicionais (com especial referência à mulher grávida e aos úteros artificiais), como a novos modelos sociais.

16:45 – Sessão “O lugar do Fantástico na Arte Contemporânea”, com Carlos Vidal, Henrique Costa e Opiarte – Núcleo de Ilustração e BD da FBAUL

A sessão apresentou a Opiarte enquanto espaço que permite, a alguns artistas, explorarem a vertente fantástica e de ficção científica nos seus trabalhos, espaço que visou responder a uma necessidade sentida pelos alunos da faculdade. Durante a sessão mostraram-se trabalhos produzidos neste núcleo, alguns dos quais se destacam pela qualidade.

17:45 – Sessão “Narrativa em Videojogos”, com Nelson Zagalo, Ricardo Correia e João Campos

(Cheguei no final)

As restantes palestras de sábado

14:30 – Sessão “Identidades autorais”, com Ana Luz, Joel Gomes e Pedro Cipriano

Os autores aproveitaram o espaço para falar sobre o seu percurso enquanto escritores, desde influências a desenvolvimento de método (destacando-se a referência de Ana Luz ao conto O Teste de João Barreiros), mostrando os livros em que já participaram, bem como os projectos futuros em que se encontram envolvidos.

16:00 – Lançamento “Almanaque Steampunk” (Editorial Divergência)

Cada EuroSteamCon costuma ser acompanhada pela publicação de um Almanaque Steampunk. O deste ano foi produzido em tempo recordo com a colaboração da Editorial Divergência. Ainda não tive oportunidade de ler, mas a publicação é curiosa, bastante atractiva visualmente, com conteúdos diversos e que promete bastante diversão para o leitor.

17:45 – Sessão “Prémio Adamastor”, com João Barreiros e Luís Filipe Silva

O prémio Adamastor este ano foi atribuído a João Barreiros e Luís Filipe Silva, dois dos poucos autores de ficção científica portuguesa que se têm destacado na divulgação do género dentro e fora do país. De realçar as várias antologias que João Barreiros organizou recentemente, bem como as colecções que organizou enquanto editor. Por seu lado, Luís Filipe Silva tem participado em diversas Con’s onde fala da ficção especulativa portuguesa, divulgando o que se fez em Portugal há várias décadas e o que se continua fazendo.

18:00 – Sessão “Dormir com Lisboa”, com Fausta Cardoso Pereira

Premiado e publicado na Galiza pela Urco Editora, Dormir com Lisboa é um romance de ficção especulativa que decorre na capital portuguesa, partindo da premissa de desaparecimento injustificável de várias pessoas. A passagem lida por João Morales denota um humor peculiar, com caricaturas de personagens e situações insólitas.

18:30 – Lançamento “Apocryphus #2”, com Miguel Jorge

Este projecto de banda desenhada português apresentou, no primeiro volume, uma qualidade gráfica excepcional, com elevado cuidado no tipo de papel utilizado e uma selecção cuidada de autores. À semelhança do primeiro volume, também o segundo foi publicado no Fórum, com a presença de tantos autores que por pouco transbordavam do palco.

Restantes palestras de Domingo

Infelizmente, Domingo apenas pude assistir à palestra do João Morales, Novas Metamorfoses Musicais, para além de participar em As Escolhas do ano com João Barreiros e Artur Coelho (sobre a qual dedicarei uma entrada específica para publicar as escolhas de cada um, como é usual).

A sessão de João Morales demonstrou o usual bom humor, com óptimas escolhas musicais onde se cruzam estilos e épocas, novas conjugações de musicas conhecidas em que destaco as seguintes:

(Venus in Furs: Versão portuguesa em Uma Outra História)

No final, há a destacar que o Fórum Fantástico é um evento TOTALMENTE gratuito, onde, todos os anos, várias pessoas se organizam para proporcionar, ao público, três dias de extrema diversão geek!

A Biblioteca à noite – Alberto Manguel

Livros sobre livros. E que tal livros sobre bibliotecas? Partindo da sua própria biblioteca que está albergada num local com uma fascinante história própria, Alberto Manguel discorre sobre várias bibliotecas, seja do ponto de vista de conteúdo, organização ou democratização.

Claro que não é possível falar de bibliotecas sem falar das desaparecidas e míticas, como a de Alexandria. Mas como esta, existem outras, reunidas em determinados locais para simplesmente serem extintas, de repente, por algum conservador de ideias que vê, nos livros, uma afronta e um perigo.

Utilizadas para manipulação política (o autor descreve casos em que a disponibilização ou maior destaque foi dado a determinadas publicações), como estrutura diferenciadora de classes (numa altura em que o acesso a livros poderia aprofundar diferenças culturais) ou como monumento de prestígio (que homens ricos deixavam não porque valorizassem a cultura, mas porque desejavam ter o seu nome realçado) as bibliotecas, com os respectivos livros, têm marcado culturas e gerações.

Organizadas de determinadas formas (alguns métodos convertem-se em autênticas dores de cabeça), mantendo, por vezes, a nomenclatura dos donos originais, as bibliotecas privadas reflectem os seus donos, pela diversidade e composição das obras, e representam fisicamente associações de ideias:

Os nossos livros decorrem de outros livros, que os mudam ou enriquecem, que lhes atribuem uma cronologia diferente da dos dicionários literários.

A Biblioteca à noite, publicado em Portugal pela Tinta da China é uma leitura fascinante para quem gosta de livros e bibliotecas – carregado de curiosidades e sem se conter em fazer observações políticas e históricas sobre o acesso à cultura. Cruzando diferenças culturais e históricas com a actualidade ocidental, realça o mistério da biblioteca à noite, obscura, carregando todas as possibilidades e todos os livros, os lidos e os não lidos.

Aleister & Adolf – Douglas Rushkoff e Michael Avon Oeming

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Definitivamente tenho um problema com a temática explorada. Não o simbolismo ou a força que as ideias podem ter quando propagadas de forma eficiente. O meu problema é mesmo com os rituais de velhotes que envolvem sempre belas donzelas numa forma que parece mais a concretização das mais avançadas fantasias eróticas do que propriamente rituais com verdadeiro intuito mágico.

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Claro que, conhecendo a personagem a que a história se dedica, Alesteir, não seria de esperar outra coisa. E por aqui, a história consegue captar esta essência corrosiva, semi demente, no mínimo, estranha, desconfiada e sempre envolvida em teorias da conspiração que aqui encontramos.

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Apesar de justificar a narrativa por uma ideia algo absurda, senão idiota, de um símbolo que estará a ser digitalizado com dificuldade, a história consegue ter algum interesse ao explorar uma luta simbólica entre as duas personagens, Alesteir e Adolf, envolvendo objectos de importância ritual e capacidades mágicas que terão tido um papel mais importante do que julgamos no curso da História.

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Carregado de rituais e simbolismo, Alesteir & Adolf apresenta a luta por detrás da luta, a exploração de ideias e de forças mentais, através de componentes culturais subtis. Esta ideologia é explorada através de rituais que envolvem sexo e drogas de forma descontrolada, elementos que deturpam a realidade e provocam traumas profundos, principalmente naqueles que são usados sem compreenderem a totalidade do que ocorre.

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Alesteir & Adolf foi publicado pela Darkhorse.

Mil Anos de Esquecimento – Afonso Cruz

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Mil Anos de Esquecimento é o mais recente volume de Enciclopédia da Estória Universal, o sexto se contarmos com o primeiro lançado pela Quetzal.  Mantendo o formato já conhecido, de várias entradas alfabeticamente ordenadas, sendo que algumas são pequenas notas, frases curtas com enorme significado e outras são contos completos, este volume é um dos melhores do conjunto por conter uma extraordinária história que ocupa quase metade do volume.

E apesar de ter achado esta história extraordinária, não consigo classificar este volume, no seu todo, como muito bom. Por um lado, sofre do mesmo problema que outros anteriores, desbalanceado na distribuição de conteúdos curtos e longos. Por outro, possui alguns conteúdos que já li, integralmente, noutros livros do autor. Ainda, falta-lhe o intenso intercruzar de entradas que tornava o primeiro, lançado pela Quetzal, tão coeso e excelente.

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A história que dá nome ao livro apresenta um homem, um pintor, que terá estado nas melhores companhias e privado com nobres e pintores influentes. Viajando em terras mais orientais encontra dois montes e, em cada um deles, uma cidade. Quando se aproxima de uma delas é preso e maltratado, tal como os seus dois servos.

A recepção do pintor é, afinal, um engano, provocado pelas longas disputas entre as duas cidades, cada uma seguidora de uma corrente filosófica diferente, e tão fanáticos nas suas certezas que da discordância nasceu uma guerra mortal, que, das ocasionais escaramuças já passou a expedições para capturar e matar os habitantes da cidade vizinha.

Interessante pela forma como explora a idiotice das guerras, principalmente quando causadas por discordâncias ideológicas, a história principal deste volume poderia constituir, por si, um livro autónomo, o que beneficiaria a história, e o restante conjunto da enciclopédia.

Quando tenho muitos livros para ler, tenho escolha. Quanto menos tiver, mais a minha liberdade está confinada. Ela depende dos livros que não são lidos. Se temos apenas um caminho, não temos liberdade, teremos impreterivelmente de o seguir. Para ela existir, temos de ter possibilidades, muitas, porque só daí pode resultar uma escolha lúcida.

Para além da história, as restantes páginas são preenchidas com frases mais curtas ou pequenas histórias, com relação entre algumas das entradas, de onde se destaca a história do homem que julgou ter sido salvo do mar por um bando de loucos, quando estes lhe explicam o seu objectivo de atingir a Índia na direcção do que é claramente o fim do Mundo, ou a história de uma mulher que espera pela carta do seu amor, dia após dias, sem perceber porque tais cartas nunca chegam (apesar de nós, leitores, sabermos que tais cartas são escritas).

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De leitura muito aconselhável, este volume vem redimir a sensação de vazio transmitida no último volume, apresentando boas histórias numa combinação que, não sendo muito equilibrada, contém excelentes ideias.

Opinião sobre os restantes volumes da Enciclopédia da Estória Universal

A ficção especulativa em Portugal – 2016

Se o ano 2016 foi catastrófico em diversas áreas, na ficção especulativa, não sendo extraordinário, foi um ano muito razoável, ultrapassando o ritmo de 2015 e abrindo portas para um 2017 que promete.

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Tivemos poucas visitas estrangeiras, quando comparamos com 2015 (marcado pela presença de David Brin na Leituria e por Lauren Beukes e Fábio Fernandes em Outras Literaturas entre muitos outros) mas a presença de Brandon Sanderson em Portugal, vindo da Eurocon em Barcelona foi um sucesso que levou muitos à FNAC, bem como a de Carlos Ruíz Záfon na Academia das Ciências. Com menor assistência mas, para mim, de maior destaque foi a vinda de Zoran Zivkovic para o lançamento de O Livro. De nota, a presença de Ken MacLeod nos Mensageiros das Estrelas, evento mais académico dedicado à Ficção Especulativa.

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Olhando para os eventos regulares, Os Sustos às sextas tiveram uma segunda época de sucesso e estão já a preparar a terceira onde alguns detalhes mais literários aguardam o anúncio oficial. Resta-nos aguardar impacientemente! Também este ano o Scifi-LX pareceu mais consolidado voltando ao Pavilhão Central do IST com robots, jogos, livros, palestras e várias outras coisas muito geeks. O Fórum Fantástico também retornou ao espaço habitual, em Telheiras, com os usuais três dias carregados de eventos fantásticos – e já há datas para a edição de 2017 ( 29 de Setembro a 01 de Outubro). De temática não especulativa, Recordar os Esquecidos escorrega de vez em quando na ficção científica e na fantasia, destacando-se pelas tardes bem passadas no Saldanha, revendo livros e autores.

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Mas 2016 também foi marcado pelo aparecimento dos Devoradores de Livros, uma tertúlia mensal que termina em jantar, que decorre na Leituria e onde se fala sobretudo de livros de ficção especulativa, mas não só. Ainda em solo nacional, João Barreiros apresentou Viagem ao retrofuturo, e deu-se especial destaque a António de Macedo, com o filme O Segredo das Pedras Vivas no MotelX, e o divertidíssimo documentário sobre a sua obra, Nos interstícios da Realidade. Ainda na Península Ibérica, mas fora de Portugal, é de destacar a forte presença portuguesa na Eurocon de Barcelona, associada ao evento Scifi-Lx e à Editorial Divergência, com Luís Filipe Silva a marcar presença em vários painéis.

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A nível de publicações de ficção especulativa nacional, também não foi um mau ano, com o lançamento de Terrarium na Comic Con (mas apenas disponível nas livrarias a partir de 27 de Janeiro), de Galxmente de Luís Filipe Silva (nova edição), A Provocadora Realidade dos Mundos Imaginários de António de Macedo, Os Marcianos somos nós de Nuno Galopim, e da primeira antologia Cyberpunk portuguesa, Proxy, pela Editorial Divergência. Em caminhos mais internacionais, foi publicado um conto de um autor português, Mário de Seabra Coelho, na Strange Horizons!

Sem estranhar, a publicação de livros estrangeiros continua escassa e camuflada em etiquetas genéricas e pouco alusivas à ficção especulativa. Eis os que achei mais relevantes:

Sobre o ano de 2015, podem consultar a entrada equivalente, A ficção especulativa em Portugal – 2015.

O meu ano em fotos…

Bem sei que o ano ainda não terminou, mas eis um apanhado de alguns momentos que marcaram este horrível ano de 2016. Olhando assim, nem parece.

1

Parede

2

Feira do Livro

3

4

David Lloyd

5

Lisboa

6

Lisboa

7

António de Macedo – apresentação do filme O Segredo das Pedras Vivas

8

O trabalho

9

Lisboa

10

11

12

13

AmadoraBD

14

Barcelona

15

Barcelona

16

Lisboa

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Revisão – Bandas desenhadas dos anos 70

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Com a comemoração dos 40 anos do fim da Visão, Revisão recupera uma série de curtas histórias de banda desenhada num conjunto que se torna uma excelente surpresa – é que as histórias são, genericamente, muito boas, ora pelo aspecto gráfico, ora pela pertinência das tiras que proporcionam bons momentos de leitura.

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Apresentando experiências do ponto de vista narrativo ou estético, encontramos histórias da vida quotidiana entre alienígenas que muito têm de familiar, curtas mas boas críticas distópicas ou a desconstrução de um conto de fadas que, para além de cómico, apresenta um final peculiar.

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Mas não só ! Não estranhem encontrar um Pai Natal que utiliza mão de obra barata e infantil para a produção massiva de brinquedos numa crítica nada suave à época natalícia, vilões musicais ou a história de uma família de canalhas que, por conta das heranças, se envolve em planos furados para receber mais uma fatia.

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Estória após estória Revisão fascina pela diversidade, pela inteligência expressa na narrativa de muitas das tiras, e ainda mais pelo visual apresentando na maioria do volume – sem dúvida, uma aquisição obrigatória para quem gosta de banda desenhada e quer perceber o que já se fez de muito bom em Portugal. Revisão foi publicado pela Associação Chili com Carne.

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Já agora, aproveito para destacar que Revisão não se encontra disponível apenas em solo nacional tendo sido uma bela surpresa vislumbrar a capa numa loja meio esquecida no Bairro Gótico de Barcelona, entre outras publicações.

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