Depois de rejeitado mais de 50 vezes por diversas editoras, Sleeping Giants acabou por ser publicado e destacou-se como finalista em vários prémios. Trata-se de um primeiro volume de uma trilogia de ficção científica que decorre com uma premissa relativamente simples e uma execução original. O resultado é intrigante.
A história
Em Sleeping Giants é descoberta uma mão gigante composta por um dos metais mais raros do mundo. É praticamente impossível reunir tal quantidade de metal, mesmo com os meios modernos de extracção. Após a descoberta da mão, um grupo dedica-se a estudá-la, com resultados dúbios. Felizmente, um segundo grupo há-de por mãos â obra, descobrindo que a mão é apenas uma parte de uma enorme estátua feita do mesmo material.
Bem, na realidade não é apenas uma estátua, mas uma espécie de robot que pode ser comandado através de um painel que o grupo agora se dedica a descodificar. Quão poderosa é esta tecnologia? Ainda não se sabe – apenas que está muito distante das capacidades humanas.



Crítica
A premissa é simples. A descoberta de um pedaço da estátua origina toda a narrativa, e justifica a progressão da história enquanto o grupo de trabalho descobre e investiga os vários pedaços. Em termos de execução, a forma é original, mas também um pouco limitada e repetitiva. A história é contada sob a forma de conversas registadas (como numa investigação criminal ou relação militar) aos membros do grupo de trabalho.
Esta forma de narrar os acontecimentos é, em si, algo limitada. Em cada conversa percebemos uma perspectiva sendo-nos relatados episódios que já decorreram. O formato é, em si, portanto, algo limitado. A componente da repetição advém do espírito peculiar de quem faz as entrevistas que nos fornecem, fazendo com que nas várias conversas com pessoas diferentes se sinta uma constância de tom que consegue ser algo repetitivo.
O ritmo é relativamente pausado, ainda que pouco introspectivo, mas de alguma forma, o formato tem dinamismo suficiente para causar as quebras necessárias no texto. Pouco a pouco, peça a peça, o grupo vai descobrindo as limitações e detalhes do robot.
Em paralelo, e nas mesmas conversas, debata-se tangencialmente o impacto da descoberta de vida extraterrestre, sobretudo por possuir tecnologia tão avançada, quando comparada com a humanidade. A comparação desperta surpresa, mas também, claro, receio. Que poderá fazer tal espécie? Qual será o seu objectivo? Estas questões vão-se tornando cada vez mais fortes ao longo da narrativa, sobretudo no final.
O resultado é intrigante. Pelo menos neste primeiro volume. Sabemos que alguma coisa construiu o robot, sabemos que possui capacidades que podem ter uso bélico. E sabemos que a sua existência traz questões que talvez a humanidade não tivesse preparada para fazer. Nesse aspecto, a narrativa abre a porta para um possível encontro com uma nova espécie sapiente.
Mas pouco mais. Novamente, o formato em entrevistas traz pouco de novo a cada capítulo, fazendo com que a progressão seja lenta. Pouco mais se sabe no final do livro em relação ao seu início. A direcção que a investigação toma nem sempre é a melhor. Existe alguma política a ter em conta durante a descoberta das várias peças, mas parece extremamente fácil estar no território dos outros países para concretizar a missão.
Parece que o blurb usado no mercado anglosaxónico tecia comparações com o The Martian. Felizmente, tinha recebido este livro em Galley (Cópia para revisão) há algum tempo e desconhecia esta relação imposta aos leitores. Nem a premissa, nem o desenvolvimento são semelhantes, e ainda que as descobertas científicas tenham algum interesse, The Sleeping Giants não é um livro muito emocionante.
Em relação às descobertas científicas, o autor cria um sistema numérico que não tem base 10 (como outros que existiram em outras civilizações humanas) e uma linguagem que é parcialmente perceptível a partir de uma grelha de operações numéricas. Esta construção é, simultaneamente, verosímil e inverosímil, no sentido em que parece demasiado simplista.
Conclusão
Volto, pois, à afirmação de que é uma leitura intrigante. Provavelmente pegarei nos próximos volumes, mas é um volume que me deixou sentimentos dúbios. Tem elementos interessantes e curiosos, mas o formato tornou-se algo cansativo com a progressão da história.

