Este volume colecciona a totalidade da história Alex + Ada, uma série de banda desenhada de ficção científica lançada pela Image Comics. Apesar de ter sido lançada há alguns anos, possui um tema bastante relevante, centrando-se na senciência de andróides e na forma como a humanidade reage à existência destas entidades.
Alex é um homem normal a viver numa realidade ligeiramente futurística em relação à nossa. Os dispositivos telefónicos são implantes, permitindo que as pessoas telefonem sem recorrerem a um objecto exterior ao seu corpo. Como homem normal, Alex alterna entre o trabalho e a sua casa, principalmente agora que foi deixado pela noiva, sem qualquer justificação ou previsão.
Os amigos tentam levá-lo a festas e existem nitidamente uma amiga interessada em algo mais, ainda que, para Alex, seja apenas uma amiga. É neste contexto, e aproveitando um aniversário, que a avó lhe oferece um andróide de características femininas para lhe servir de companhia. Entre a confusão da semelhança humana e a desilusão com a incapacidade da andróide de expor decisões ou preferências, Alex questiona-se se é possível que a androide seja algo mais. Esta questão leva-o à clandestinidade onde encontra alguém capaz de acordar a consciência de Ada.



Mas quais as consequências para este mudança? Os andróides são percepcionados pela maioria dos humanos com desconforto. Por um lado são parecidos com os humanos, o que permite transmitir alguma familiaridade, mas por outro não apresentam as normais reacções, o que leva a desconfiança e, até, medo. Estes sentimentos são agudizados por alguns incidentes, usados pela comunicação social com alarmismo.
Ada deve, assim, esconder a sua consciência – principalmente quando a sua mera presença pode gerar pânico ou desconforto nalgumas pessoas. Mas não é fácil. Agora que acordou, por assim dizer, e expressa sentimentos e pensamentos, existem alguns detalhes que vão escapando – o suficiente para que algumas pessoas próximas se sintam desconfiantes.
Alex + Ada explora a premissa em diferentes níveis. Por um lado, apresenta a andróide como algo útil, até como um brinquedo sexual – pelo menos na visão de algumas pessoas. Para quem usa bonecas insufláveis, um andróide de aspecto feminino poderia aproximar-se mais de uma mulher real. Para além desse aspecto, um andróide seria capaz de conferir alguma companhia e, até, ajuda em casa, não precisando de descansar. Encontram-se, portanto, entre objecto útil e brinquedo caro.



Há quem tenha traumas específicos envolvendo andróides, há quem sinta a pressão de uma comparação impossível – um andróide não envelhece, não tem oscilações de humor, não tem doenças e não tem vontades próprias. Para além do receio, há a insegurança. Sem necessidade de descansar o que impede que substituam os trabalhadores humanos? Esta última questão explorada de forma muito tangencial e leve, será respondida no final, de forma algo castradora em relação às potencialidades existentes.
Num nível diferente, a história explora a dualidade em relação à tecnologia, entre o fascínio e o receio das possibilidades desconhecidas. A sociedade é manipulada pela comunicação social, que, em tom alarmista, usa todos os eventos para alimentar o medo de algo – até porque o medo vende.
É assim que nos é apresentada a sociedade em Alex + Ada. Esta história consegue o feito de fazer a exploração social sem se apresentar como uma distopia pesada, mas quase como uma sociedade normal, bastante semelhante à nossa, que ainda tem de evoluir conceitos associados à inteligência artificial e aos andróides. Não existe mais ou menos vigilância do que a actualidade, existem interesses e lobbys (em que as grandes empresas nunca são condenadas e é preferível agir contra humanos singulares), e existem sempre pessoas que reagem de forma egoísta e egocêntrica.



Apesar de todos estes elementos, a história não se apresenta como dramática, catastrófica ou intensa do ponto de vista de acção. Consegue roçar a normalidade apesar da premissa, com uma narrativa (e desenho) simples e limpos de complexidades desnecessárias, centrando-se quase sempre em Alex e na sua perspectiva. É uma leitura pausada mas fluída, interessante com as suas questões existenciais e filosóficas.
Esta série é, portanto, uma boa leitura, ainda que não a considere excelente. Gostaria que tivesse apresentado mais a perspectiva de Ada, ou que tivesse explorado mais os conflitos sociais em torno dos andróides. Ainda assim, entretém de forma inteligente.

