
Pedro Medina Ribeiro lançou dois livros há cerca de 10 anos – A Noite e o Sobressalto, e O Diletante e a Quimera. O primeiro é uma colectânea de contos de horror, que contêm excelentes histórias. O segundo é um romance com toques de sobrenatural. Independentemente da extensão ou do género, a narrativa de Pedro Medina Ribeiro caracteriza-se por uma apresentar uma boa escrita.
A Serpente no Sótão é, também, uma colectânea de histórias, sobretudo de horror, que vão-se encaixando em diferentes vertentes deste género. O conjunto começa com duas histórias de tom mais clássico, A Donzela e a Morte, e Colares. Ambas as histórias apresentam-se em ambientes mais rurais, sendo que a primeira apresenta uma casa de contornos sombrios para a qual o narrador se muda, e a segunda uma senhora numa casa mais afastada da cidade que troca cartas sobre a leitura de um livro – cartas que se confrontam porque o destinatário assimilou uma narrativa bastante diferente.
Este conto não é o único que apresenta uma “brincadeira” com os livros e as narrativas, existindo também o Sobre a Natureza das Coisas e ISBN, mon amour, que também referem livros e histórias. O primeiro, uma história dentro de uma história dentro de uma história, num fractal imparável, o segundo apresentando um livro cujos exemplares parecem não resistir. A linha entre a ficção e a realidade volta a ser explorada em Amnésia.
Para além destas, o autor explora medos, obsessões e traumas de infância no conto que dá nome ao conjunto, Serpente no sótão, apresenta cenários mais actuais e distópicos em Vigilância (onde a vertente política mais populista instala uma ditadura) e o impacto dos ecrãs em mentes manipuláveis com Espelho Negro.
Confrontando o sobrenatural e a racionalidade, encontramos Héstia, uma história que começa por apresentar o grande artigo de um novo jornalista – artigo que lhe vai valer algumas ameaças de morte, mas também uma aventura numa casa assombrada. Esta história, a par com Calíope, distingue-se por terem contornos mais aventureiros, com maior desenvolvimento e interacção entre diferentes personagens.
Como conjunto de histórias, A Serpente no Sótão apresenta-se diversa, com histórias que oscilam entre as 3 e as 40 páginas e que exploram diferentes vertentes do horror. Algumas distanciam-se do género (como Héstia), outras são narrativas mais pausadas que desenvolvem as personagens e as suas interacções enquanto outras são mais a exploração de um conceito. O resultado é, como seria de esperar, bastante bom, ainda que não muito homogéneo em formato e desenvolvimento.
