No seguimento de séries como Magus of the Library e The Apothecary diaries, esta série aparece altamente recomendada, como uma série que se centrara na aprendizagem e no conhecimento. É, também, uma série com foco na luta entre o bem e o mal, razão pelo qual poderia ser menos interessante. Mas as expectativas foram cumpridas, e apesar de não ser tão viciante quanto outras leituras, é uma série que estou a seguir com calma.

A história começa por nos apresentar Coco, uma jovem sonhadora e filha de costureira que deseja tornar-se uma bruxa. No entanto, neste mundo tal é praticamente impossível porque normalmente só quem nasce em famílias de bruxas se pode tornar bruxa. Infelizmente, depois de ver (às escondidas) como a magia é feita, e aliciada por uma entidade maléfica que lhe ofereceu um livro de magias proibidas, Coco experimenta um dos feitiços, com graves consequências familiares.

É, no entanto, salva por um bruxo que a acolhe como aprendiza, juntando-a ao grupo de jovens que estuda a seu cargo. Apesar do seu fascínio por magia, a integração de Coco não será fácil, existindo concretamente uma outra aprendiza que, aplicando-se com afinco na arte da magia, vê Coco como uma introduza e tenta sabotá-la.

Depois deste início conturbado, Coco continua a aprender sobre o mundo da magia, e sobre os motivos da sua prática ser restrita. Existem, também, feitiços proibidos. Mas todos os momentos que deveriam ser banais para uma aprendiza se tornam em episódios caóticos. O grupo de bruxas maléficas que lhe disponibilizaram o caderno original continua a interferir, procurando causar situações em que Coco use magia proibida.

Existindo várias séries e mundos com magia, esta consegue destacar-se pela forma como desenvolve a magia através do desenho. Há outros sistemas mágicos que usam o desenho (assim rapidamente recordo-me de Illuminations), mas aqui é desenvolvida de forma lógica, com justificações compreensíveis para o leitor. Estender uma parte do desenho que corresponde a uma parte do feitiço pode aprofundar essa parte, com diferentes consequências para quem o conjura.

Mas nem toda a magia é acessível. Por consequências passadas, a magia é altamente regulada e regulamentada, com um grupo específico de bruxos que age para monitorizar feitiços proibidos, implementando regras muito restritas que levam ao apagar de memórias, seja de comuns mortais, seja de bruxas envolvidas nos feitiços proibidos. No entanto, existe quem goste de desenvolver a sua própria magia, usando-a de forma menos tradicional. A forma como o tema é abordado leva a que se questionem as regras aceites pela maioria, sendo que, lentamente, se dão pistas sobre as bruxas maléficas que agem contra o sistema.

A aprendizagem da magia não envolve só o aprender a desenhar os diferentes feitiços e a compreender como actuam em conjunto. As aprendizas têm margem para errar e aprender com os erros, havendo também uma aprendizagem sobre a ética da utilização da magia. Para poderem progredir devem passar por provas e definirem as suas próprias soluções – elemento que se distingue neste professor, mas que, ao longo da série veremos, não ser o método usado por todos.

E é neste seguimento que percebemos, também, que as aprendizas têm um passado, expectativas e vivências anteriores, que contaminam e influenciam a forma como abordam a magia. Há traumas e reacções antagónicas. Esta diversidade de perspectiva leva, também, a uma diversidade nos feitios da aprendizas, que se vão revelando com personalidades bastante vincadas.

Entre os segredos das personagens, os conflitos da aprendizagem e as situações inesperadas proporcionadas pela facção de bruxas maléficas, a série vai revelando maior densidade, tensão e conflito do que era esperado. Existem momentos de maior proximidade e desenvolvimento de relacionamento, mas a maioria da narrativa é composta por episódios tensos onde as aprendizas devem passar as provas ou salvarem-se de perigos imprevisíveis.

Visualmente, é uma das séries mangá de maior interesse, com desenho detalhado e elegante, compondo páginas belíssimas que se destacam não só pelas imagens, mas pelo uso do espaço da página, por vezes ligeiramente experimental. Não é, assim, de estranhar, que existam livros dedicados à arte desta série.

Witch Hat Atelier não é tão viciante como outras séries Mangá como Ascendance of a Bookworm ou The Apothecary Diaries. Pelo menos nestes cinco volumes iniciais. É, no entanto, uma série que me está a cativar lentamente, e apesar de não adorar particularmente nenhuma das personagens, gosto da forma como está a desenvolver o sistema da magia, a lógica da sua utilização e o conflito. Neste seguimento, já encomendei, claro, os próximos volumes.