Eis uma série que me tem surpreendido pela positiva desde o primeiro momento. Ao longo dos poucos volumes que li cruza elementos de ficção científica e fantasia, centrando-se em Thorgal, filho das estrelas, que vive num planeta onde os contornos da sociedade se encontram entre o medieval e o bárbaro, mas onde a magia está presente, com deuses e feiticeiros. Para além da esperada acção, a história costuma apresentar os conflitos éticos com que Thorgal se depara.

A história começa com uma tentativa de assassinato a Thorgal, fruto da época em que, tendo perdido das memórias e influenciado por uma mercenária, se tornou também ele mercenário. Se, por um lado, é culpado pelas desgraçadas propagadas pelo seu outro eu, por outro, sabe que agiu sem ter presente parte de si. A busca por tentar esmorecer o mal causado leva-o a contactar com os que veneram o pássaro azul e aspiram à peregrinação à ilha de Skellingar.

A viagem fá-lo conhecer um nobre que vê os seus terrenos empobrecerem, despidos de trabalhadores que vão perdendo as vidas na vã tentativa de irem até à ilha, onde reside o eremita, principal figura manipuladora deste culto, que instiga que se tragam pepitas de ouro para alimentar o rochedo enorme que deverá ser movido pelo seu sucessor.

Tal como noutras histórias de Thorgal, o herói resolve fazer justiça pelas próprias mãos e enfrentar sozinho a causa da injustiça que se apoderou daquelas terras. Neste caso, trata-se de desmascarar as falsas crendices que levam o povo à perdição, deixando o seu trabalho, e enfrentando um percurso quase sempre fatal. A superstição é usada como arma manipuladora, levando estes homens a partirem em busca de um propósito mais elevado.

Se excluirmos o episódio inicial de tentativa de assassinato, a acção é quase toda perpetuada por Thorgal, havendo claro resposta do eremita. Movido inicialmente pela necessidade de fazer emendas e, depois, numa segunda fase, pela necessidade de libertar os homens da manipulação fanática. Defensor das liberdades individuais, toma a decisão de desmascarar e, dessa forma, desobrigar os crentes a enveredar pelo perigoso caminho. Mas na realidade, estes homens saltam de algema em algema. Se deixam de estar focados na peregrinação impossível, voltam ao trabalho diário para um nobre.

Este volume apresenta uma história contida, com princípio, meio e fim, que pode ser lida por quem conhece pouco da personagem. Mesmo a referência a episódios anteriores apresenta detalhes suficientes para o seu enquadramento. É uma história que se não precisa de mais ninguém, havendo alguma falta de interacção ou de acção de outras personagens. Apesar da série apresentar vários elementos de ficção especulativa, este é mais realista, com contornos bastante menos míticos ou exotéricos.