Comanche é uma série de banda desenhada franco-belga passada no faroeste americano. A série, criada por Greg e Hermann, começou a ser publicada na revista Tintin em 1969. A narrativa acompanha Red Dust, um pistoleiro misterioso e competente, bem como Comanche, uma mulher que dirige o Rancho Triple Six. Neste território sem lei, o rancho vai enfrentando ladrões de gado, conflitos territoriais e violência, agravados pelo facto de Comanche ser uma mulher e estar à frente da propriedade.

Rever Comanche leva-nos a rever Red Dust algumas décadas depois – um homem velho e perigoso, que se esconde da lei. Vivienne, mulher grávida, procura Red Dust, numa missão sem propósitos muito claros e convence-o a fazer a viagem até ao Rancho Triple Six, e revisitar Comanche – até porque ninguém atende o telefone na propriedade.

Sendo Red Dust, apesar de idoso, um homem procurado em vários estados, a viagem faz-se de carro, por caminhos menos óbvios. A viagem traz confrontos perigosos (esperados), algumas conversas, mas também recordações e arrependimentos, sobretudo de um homem que se crê demasiado duro para ultrapassar as suas supostas limitações.

Em torno da viagem encontramos o fim do Faroeste. A terra sem lei é ocupada pelas leis da civilização, e os confrontos usuais da época, onde não existia alternativa a matar ou ser morto são agora vistos à luz da justiça moderna. Também os índios são remetidos para espaços controlados, desaparecendo a sua existência orgulhosa e independente. Estes contornos trazem alguma nostalgia perante o (péssimo) estilo de vida do Faroeste.

Esta nostalgia é, também, expressa por Red Dust e pelas recordações que vai desenterrando, ainda que, no seu caso, assuma também contornos de arrependimento. A brutalidade que lhe é típica, representativa da masculinidade, levou-o a ter receio de se expor, remetendo-se à negação e ao isolamento, quando a sua vida poderia ter sido muito mais do que isso. Red Dust enfrenta o passado com dureza, resistindo ao sentimentalismo, num conflito bastante difícil, mas humano.

A narrativa apresenta-se relativamente pausada, apesar da tensão existente entre Vivienne e Red Dust. Existirão alguns confrontos durante a viagem, mas bastante pontuais. Já o final revela-se bastante intenso, ultrapassando a expectativa de violência que vai sendo construída, numa forma mais crua e directa que contrasta com a forma como as personagens principais foram desenvolvidas até ao momento.

Visualmente, Rever Comanche é um volume fabuloso. Sempre a preto e branco, alterna entre o foco nas personagens e as paisagens fotográficas, de detalhes fabulosos. Ainda que a civilização humana tenha evoluído, a paisagem continua a mesma, proporcionando cenários nostálgicos apropriados.

Em suma, Rever Comanche é uma leitura extraordinária, sobretudo para quem leu a série clássica original. A narrativa consegue representar a personagem Red Dust e Comanche sem quebrar o legado, mostrando-se nostálgica, mas também desafiadora dos contornos esperados ao envelhecimento.