Emily Tesh, vencedora do prémio Hugo, do Astrounding Award e do World Fantasy Award (para os livros Some Desperate Glory e Silver in the wood) tornou-se uma das autores que vigio pelos próximos lançamentos, após a leitura de Silver in the wood. Apesar de ter gostado menos de Drowned Country, Emily Tesh tem uma escrita coesa e uma boa capacidade para desenvolver personagens. Mais recentemente, na onda do sub-género fantástico Dark Academia, a autora lança este The Incandescent, um livro que não me fascinou, mas cumpriu com as expectativas, sendo uma sólida construção com alguns pontos inovadores.
A história centra-se na Doutora Walden, ex-alumni e directora de uma escola britânica de magia. Como directora, supervisiona não só as aulas, mas também a utilização da magia, garantindo que a escola se encontra segura dos demónios que pretendem alimentar-se da elevada energia fácil dos magos adolescentes, e que os mesmos não tentam invocar criaturas demasiado fortes. Problemas que ela própria viveu na sua adolescência e que irão assombrar o percurso desta história.
Depois de mostrar o quotidiano exigente da escola, a narrativa leva-nos exactamente a um destes acidentes, onde um grupo de adolescentes, julgando-se mais forte do que na realidade é, resolve invocar um dos mais fortes demónios que assombra a escola há séculos. Este incidente vai causar o afastamento da responsável dos Marshals da escola, a entrada de um consultor de segurança bastante suspeito, e a recordação de incidentes passados que envolveram Walden e que ecoam no presente, fazendo com que não veja o que obviamente se desenrola à sua frente.
A narrativa centra-se, sobretudo, em Walden, ainda que apresente escassos episódios com a perspectiva de outras personagens, concentrando-se no presente, mas mostrando, quando necessário, momentos relevantes para se entenderem as circunstâncias e as reacções presenciadas. Walden é uma professora competente, ainda que tenha dificuldades em desenvolver conversas normais. O seu doutoramento e a sua elevada erudição nos assuntos demonstram também como é mais focada nas aprendizagens do que nos relacionamentos – ainda que se preocupe com a formação moral a par com a formação académica.


A magia faz-se invocando demónios e tentando estabelecer com eles pactos para que obedeçam dentro de regras bem definidas. Mas dadas as possíveis graves consequências destas invocações, é necessário garantir que as marcas realizadas para as invocações são suficientemente bem feitas para que os demónios não consigam escapar e alimentarem-se dos alunos. Desta forma, a aprendizagem em magia é, sobretudo, algo metódico, e os contratos precisam de ser instruções que se assemelham a boas especificações técnicas para informática – o que se assume e o que se deixa de fora é exactamente o que vai provocar problemas. Mas a magia deve ter, também, regras bastante definidas, havendo a necessidade de estabelecer um código moral bastante claro, onde se delimita a correcta utilização da magia.
Como professora e como directora da escola, Walden tem de se apresentar como uma personagem autoritária, mas suficientemente acessível para que os problemas possam ser conhecidos antes de se desenvolverem em catástrofes. Esta necessidade de equilíbrio denota-se também na necessidade de proteger e controlar, ao mesmo tempo que os alunos precisam de espaços seguros para desenvolverem as suas capacidades.
Ao contrário de outros livros de fantasia que apresentam escolas de magia como cenário e adolescentes como as personagens principais, The Incandescent centra-se numa figura de autoridade que, sendo agora professora, cresceu como aluna nas mesmas instalações, tentando prevenir que os erros do passado que a assombram decorram outra vez e afectem outros. Esta perspectiva, mais sólida e menos desafiante, apresenta as dificuldades da idade adulta e da responsabilidade que advém das decisões necessárias. Walden, apesar do seu passado e da sua autoridade, é, também, uma líder pragmática e, até, condescendente em alguns momentos, apesar das suas imperfeições humanas.
Ainda que a narrativa se centre sobretudo na vida profissional de Walden (com vislumbres para os detalhes académicos), não deixam de existir alguns episódios mais pessoais, em que Walden mostra a sua dimensão humana. Recorda romances passados (e como estes influenciaram a pessoa que agora é) e fascinações presentes, mas também a dificuldade em ultrapassar os traumas a que sobreviveu.
Mas o livro não se fica pela caracterização de pessoas. O conhecimento académico de Walden e os vislumbres de algumas aulas, permitem perceber como, nesta realidade, surgem os demónios e se desenvolvem. Explica-se, também, a sua forma de pensar e a complexidade que vão ganhando com o seu desenvolvimento. No limite, percebe-se, também, como os demónios podem possuir humanos e se fundem com as suas memórias.
Ainda que não me tenha arrebatado, The Incandescent contem uma história sólida e consistente, que, apesar do contexto académico, não se baseia nos dramas da adolescência, mas apresenta os adolescentes como humanos em crescimento que precisam de fazer os seus erros em ambiente controlado, ao mesmo tempo que mostra que os adultos são pessoas que erram apesar da sua maior experiência. Diria que o factor mais inovador é a forma como explica e desenvolve os demónios, num sistema que é, simultaneamente estranho (até aberrante) mas compreensível.

