A colecção de clássicos da TOR, denominada como TOR Essentials tem lançado alguns títulos de ficção científica e fantasia meio esquecidos ou indisponíveis. Entre os mais recentes lançamentos encontramos A Deepness in the Sky de Vernor Vinge, Stand on Zanzibar de John Brunner, ou The Dragon Waiting de John M. Ford. Entre estes clássicos esquecidos encontra-se este Knight’s Wyrd, um livro que não me recordo de alguma vez ter ouvido falar, mas que, após ler, reconheço traços da fantasia medieval escrita nos anos 90, apresentando-se ligeiramente irónica, com contornos mágicos incompreensíveis para os normais guerreiros, e demonstrando a bravura da personagem principal.
A história centra-se em Will, o filho mais velho de um barão, que, na véspera de ser armado cavaleiro é confrontado com um género de profecia que ditará o seu destino. Nunca herdará a baronia do pai, existindo dois caminhos possíveis – ou foge, ou enfrenta o seu papel e encontrará a morte antes de passar um ano. Decidindo-se a ficar e a ser armado cavaleiro, Will vai iniciar uma viagem com os seus jovens amigos – não só para competir com outros cavaleiros e criar a sua reputação, mas para conhecer a jovem que lhe está prometida e libertá-la do compromisso.
A primeira parte da viagem fá-lo enfrentar um perigoso troll com os seus amigos, e leva-o a um jogo de confronto com outros cavaleiros que termina de forma inesperada – e onde parecem existir contornos mais negros. O incidente irá marcar outros episódios da sua aventura. O confronto com a magia irá ser mais marcante quando finalmente chega ao castelo da sua prometida, sendo que ela desaparece sem deixar rasto durante a noite. Decidido a encontrá-la e potencialmente salvá-la, Will irá ser envolvido numa trama de traições que não controla e que determinarão o seu destino como estava originalmente traçado – havendo no entanto, possíveis reinterpretações da profecia que irão conferir o toque irónico no final da narrativa.
A aventura inicia-se com um objectivo concreto e logo se transforma numa demanda. Will decide-se a seguir o caminho honrado mesmo que isso o faça enfrentar a morte, fazendo-se acompanhar de outros que, jovens como ele, começam o seu percurso na vida adulta. Mas aquilo que parece um objectivo simples vai-se transformando, conforme se depara com situações nas quais se vê obrigado a agir. Encontramos trolls, sereias carnívoras, e, até, um dragão. Mas nem sempre as criaturas são o que parecem, e o cruzar com criaturas mágicas leva-o a ter de interpretar enigmas e charadas, num jogo psicológico que se revela dúbio e, até, maldoso.


Tal como outras narrativas fantásticas centradas num cavaleiro valente, Will vai ter de demonstrar o seu valor, tomando decisões honradas, numa jornada de passagem para a vida adulta. A história apresenta contornos reconhecíveis das histórias fantásticas deste género, que cruzam elementos mágicos, com provas que o cavaleiro deve ultrapassar para ir demonstrando as suas diferentes capacidades e carácter, como forma de se ir moldando e crescendo. Mas Knight’s Wyrd também possui elementos diferenciadores com passagens estranhas e sombrias, e reflexões pouco usuais para o género.
Os nobres, apesar das suas origens e das suas declaradas alianças, são traiçoeiros e manipuladores. Ainda que possuam o poder sobre uma população não se comportam de forma magnânima, mas mesquinha e vilã, torturando e matando sem grande antecipação. E mesmo os que detém maior poder estão corroídos pelo medo das traições e tomam decisões apressadas e erradas. O povo, esse, encontra-se entre os monstros que exterminam vilas inteiras, bandidos que roubam o pouco que têm, e nobres que não lhes reconhecem valor ou direito à vida.
Já as mulheres, mesmo as nobres, não controlam os seus futuros, prometidas a este ou aquele nobre que nunca conheceram, como forma de estabelecer alianças e selar compromissos. No caso concreto, a prometida de Will é uma jovem inteligente que se vê remetida a mera moeda de troca, não só com Will, mas com outros nobres, onde convém manter a dualidade das promessas. O aspecto diferenciador é a forma como a jovem resolve tomar as rédeas do seu próprio destino, e distanciar-se daquilo que é esperado dela.
Knight’s Wyrd consegue o feito de apresentar elementos clássicos das fantasias de cavaleiros, mas apresentar-se, ao mesmo tempo, diferenciadora pela forma como apresenta elementos sombrios (e, até, irónicos) e como desenvolve perspectivas pouco usuais – dando espaço para a perspectiva do povo e das mulheres; ainda que se centre, claro, na demanda de Will para encontrar o seu próprio caminho. É uma leitura que se inicia típica e que consegue surpreender dentro do género em que se enquadra.


Sim, precisamos de mais fantasia!
Vou procurar Knight’s Wyrd!