
A leitura despertou interesse por algo a que normalmente não ligo nenhuma – uma referência no livro This is how you lose the time war e um blurb de Ursula K. le Guin. Já a sinopse e a informação que encontrei sobre o livro intrigou-me. Escrito em 1952 por uma escritora prolífera em ficção especulativa mas que, de alguma forma, parece caída no esquecimento.
A história centra-se na filha de um rei, Halla, que tendo uma nova esposa, abandona a criança. Adoptada por ursos e educada depois por um dragão, a jovem revela-se uma protagonista pouco usual numa história que parece conter a demanda do herói, apesar da personagem central ser feminina. A sua criação peculiar permite-lhe desenvolver um sistema de valores bastante diferente dos restantes seres humanos, e uma desenvoltura que a libertam dos usuais constrangimentos sociais que se esperam de uma rapariga.
Esta falta de noção daquele que é o lugar que lhe é esperado pelos restantes seres humanos leva-a a, despropositadamente, a desafiar as questões de género numa história que possui contornos mais clássicos e parece destinada a um público mais jovem (ainda que existam passagens que diria que poderão passar ao lado de crianças). Apesar de ser uma demanda, não existe necessariamente uma missão concreta. Com a morte do dragão e o desejo de recuperar o tesouro roubado, enfrentando o herói que o matou, a jovem irá partir para uma infindável viagem que a leva por percursos estranhos e imprevisíveis.



Halla revela-se desprendida, evitando compromissos. É uma personagem livre e independente, que se fascina e se transforma, flexível e adaptável a várias realidades, ainda que consiga, nesta adaptação, manter-se fiel a si própria, questionando a lógica do que lhe apresentável, e revelando um espírito prático e desinibido que vai surpreendendo positivamente ao longo de toda a narrativa. Esta simplicidade e objectividade transmitem-se para a narrativa, também ela simples e directa, mas não desprovida de magia ou de um sentido de fascínio pela magia. Se para Halla algumas das suas capacidades são normais, para os que a rodeiam tornam-se surpreendentes, sendo quase santificada por alguns.
A narrativa apresenta-se de forma directa, numa estrutura simples, num tom quase de conto, onde pequenas frases vão afirmando e exemplificando. Trata-se de uma abordagem apropriada para os mais jovens, mas escondendo conotações e musicalidade perceptíveis a leitores mais velhos. A história apresenta interacção com animais e criaturas míticas, bem como observação das diferentes regras sociais e, até, alguma, leve, crítica.
Um dos aspectos mais interessantes no início, é a forma como os seres humanos são apresentados, na perspectiva dos dragões e de outras criaturas (como Grendel) que vêm perturbar a paz e quebrar a ordem natural, roubando tesouros e destruindo os restantes seres, quando estes apenas fazem o que lhes está destinado por natureza.



Travel Light é uma leitura fascinante pela sua estranheza e desenvolvimento, ainda que nem sempre movimentada ou entusiasmante. A personagem, criada por ursos e dragões, desenvolve uma lógica muito peculiar que provoca surpresas, quer pelas decisões que vai tomando (que são lógicas, mas não necessariamente integradas numa lógica humana) quer pela forma como vai evoluindo.