Referido em várias listas conceituadas como um dos melhores livros do ano de 2024 (e apresentado nas listas de melhores leituras do Artur Coelho e do João Campos no ano passado), este livro foi publicado em Portugal ainda em 2024 pela Singular. Consequentemente, a expectativa criada foi elevada. Tão elevada, que preferi distanciar-me um pouco destas opiniões, antes de o ler. O que encontrei desafia algumas expectativas em relação ao que se espera encontrar nas viagens do tempo, ao mesmo tempo que apresenta maior relacionamento entre as personagens do que é esperado num livro de ficção científica.

A história centra-se numa funcionária que é contratada para um projecto secreto. A par com um ordenado vistoso, é-lhe atribuída uma casa, onde deve acompanhar a integração de um viajante do tempo, um homem que foi retirado ao passado. O seu papel é tanto de o ajudar, quanto de o monitorizar, reportando conversas, reacções e comportamentos. Mas este homem do século XIX é peculiar. Homem da marinha, honrado na sua postura em relação à sociedade (e pouco adaptado, claro, aos costumes mais actuais), passa pelo síndrome do sobrevivente (os viajantes do passado são retirados de situações em que iriam morrer, de forma a minimizar possíveis impactos temporais). A protagonista (na perspectiva da qual toda a história é contada) vai funcionar mais como guia do que como agente ou espia, havendo, como se espera, um envolvimento entre os dois.

Este homem não é o único viajante do tempo. Tal como ele, outros foram retirados a tempos passados, sendo que cada um apresenta diferentes dificuldades de adaptação – mas como grupo, alguns vão criar maior empatia, falando de hábitos e invenções actuais, unindo-se perante as novidades que se lhe apresentam. Pela protagonista vamos percebendo que estes não são simples viajantes, mas antes exemplares numa experiência que visa acompanhar as consequências físicas e temporais das viagens, analisando-os detalhadamente.

Mas o que é uma história com viagens no tempo, sem alguns paradoxos? Pelo meio vamos percebendo que, tanto os viajantes, quanto os que os acompanham, se tornam alvo de conspirações, espiões e atentados, conferindo à narrativa um ímpeto de urgência que contrasta com o tom inicial mais pausado. A história vai progredir mais como thriller, entre reviravoltas e traições, e, claro, mortes. Será aqui que entram os paradoxos, as incoerências que vão sendo introduzidas por outros viajantes do futuro, e que introduzirão incertezas na linha presente.

Numa abordagem mais directa, a história apresenta o choque de épocas e de culturas, bem como o envolvimento da personagem principal. O choque é a vários níveis. Por um lado, tecnológico e científico, com uma abordagem médico bastante diferente, com chamadas telefónicas, carros e outras invenções que poderão parecer estrambólicas, por outro de comunicação e moralidade, com códigos de etiqueta e de honra que levam a mal entendimentos e constrangimentos.

O Ministério do tempo não é uma história clássica de ficção científica. Finalista para o prémio Locus e nomeado para os prémios Hugo, British Book Award e Arthur C. Clarke (que costumam ser dos mais representativos no género) lê-se mais como thriller de espionagem com pitadas de romance do que como ficção científica. Não existem preocupações propriamente científicas, nem um desenvolver de hipóteses, mas antes o desenrolar de um trama onde as conspirações e os segredos se encontram no cerne, sendo que as viagens no tempo são usadas não só como objecto de estudo (e de segredo) mas também como origem de conflito.

Neste sentido, O Ministério do tempo vai gorar muitas das expectativas. De forma geral, não desgostei. É uma leitura que começa de forma mais pausada (com demasiado centralismo numa personagem que é pouco activa e pouco interessante) mas que ganha dinamismo com a componente da conspiração e espionagem, intercalando com leve humor e algum romance. Aconselharia a quem pretende uma leitura leve e não uma ficção científica mais clássica. Gostei, mas não o suficiente para o encaixar entre as melhores leituras.