Ainda que o género de terror não seja um dos meus favoritos, todos os anos vou deixando algumas sugestões, ora de livros, ora de jogos de tabuleiro ou videojogos. Este ano não é excepção. Começaria por destacar os lançamentos em Portugal.

Vencedor do prémio Ataegina e, mais recentemente, do prémio Adamastor, trata-se de um livro de que já falei aqui algumas vezes. Coisas Ruins, de João Zamith, é um livro de horror que se destaca por decorrer no ambiente rural português, onde as famílias endinheiradas ainda são muito influentes nos meios pequenos, e pelo desenvolvimento de personagens ao longo da história. Encontramos tensão e antecipação, elementos construídos de forma competente ao longo da história, numa narrativa que nos leva a um final agridoce. Entretanto o autor tem novo livro, mas ainda não tive oportunidade de o ler.

Cadáver requintado, de Agustina Bazterrica é uma distopia peculiar, desenvolvida de forma inteligente e que nos leva a pensar nas narrativas alternativas que os seres humanos arranjam para desenvolver acções egoístas em relação a outros seres humanos. No mundo aqui criado os animais tornaram-se impróprios para consumo no seguimento de uma doença. Como obter então carne? A partir de outros seres humanos, claro. A história mostra como toda uma sociedade adopta vocabulário e hábitos que não só justifiquem o consumo e alienem outros seres humanos do conceito de humanidade, mas também ajudam a não se pensar verdadeiramente na proveniência da carne.

Li Uma Curta Temporada no Inferno ainda no original em inglês, sem imaginar que alguma vez seria traduzido. A história parte de uma premissa simples para se desenvolver – se quem não seguir a religião permanecesse num limbo quase eterno, onde tem uma missão quase impossível? Neste caso, a religião “verdadeira” terá muitos poucos seguidores, e a maioria da humanidade deambula numa biblioteca infindável (tipo biblioteca de babel, onde existirão livros com todas as combinações de letras possíveis) onde devem procurar a história da sua vida. Sem fogos nem torturas às mãos de demónios, a monotonia da eternidade torna-se, ela própria o maior pesadelo imaginável.

No seguimento de uma das mais recentes ondas da ficção especulativa, os livros centrados em escolas mágicas, encontramos este The Library at Hellebore, Se, em Educação Mortal de Naomi Novik vemos uma vertente mais negra das escolas onde os alunos têm de se esforçar para sobreviver a vários tipos de monstros, aqui, os alunos acabam em circunstâncias onde têm de matar os colegas. Não que sejam inocentes. Todos, à sua maneira, são eles próprios, monstros.

Mantendo-nos no tema escola, aconselho a série The Wayward Children, de Seanam McGuire. Aqui encontramos um internato de crianças e adolescentes que anseiam pelo retorno aos mundos fantásticos que encontraram. Enquanto alguns esquecem estes mundos e se adaptam à realidade sem problemas, outros foram moldados para sempre, ressoando com estes mundos mirabolantes. De volume para volume, as histórias têm apresentado fórmulas narrativas diferentes, algumas mostrando como as crianças se adaptam a estes mundos, outras mostrando assassinatos em série na escola, ou mostrando grupos destas jovens que conseguem entrar num outro mundo com uma determinada missão. Alguns destes volumes são bastante negros, lidando com vertentes diferentes de horror.

T. Kingfisher oscila entre a fantasia e o horror, apresentando por vezes fantasias com traços inquietantes, ou premissas de horror que quebram alguns estereótipos. Neste caso, Wolf Worm leva-nos ao final do século XIX, início do século XX, acompanhando uma jovem, filha de um cientista falecido. Procura agora nova ocupação, como ilustradora para um entomólogo que estuda espécies deixam as duas larvas em animais vivos, o que resulta em várias descrições de como estas larvas escarafuncham a carne dos seus hospedeiros.

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