Darrel Schweitzer, escritor e editor americano, centra o seu trabalho nos géneros da ficção especulativa, normalmente na fantasia negra e no horror, onde pode ser enquadrado Living with the Dead.

Este pequeno livro apresenta-nos uma vila fora do espaço e do tempo, onde, todas as noites, chegam novos habitantes às praias – os mortos. Estes não são mortos comuns, nem tão pouco zombies, antes corpos inanimados e inexpressivos que não cedem à corrupção do tempo e devem ser acolhidos pelos habitantes da vila, ocupando os poucos espaços livres.

Uma noite, esta ordem estática dos acontecimentos, tão cuidadosamente preservada, é quebrada quando o responsável por organizar a recolha dos mortos, se apaixona por um desses corpos inanimados. Nessa noite, os mortos mexem-se e os habitantes assistem a uma estranha e alegre dança, que logo se esforçam por esquecer, não vá a lembrança alterar a ordem das coisas. Numa sociedade reprimida sem passado nem noção de futuro, são poucos os que se apercebem de mudanças perturbadoras.

Esta história negra apresenta-nos uma população envolta numa névoa de esquecimento e desconhecimento forçados, em que a maioria dos habitantes da vila vive enclausurada em papéis sociais estáticos, fantoches de cordas presas dedicados ao presente. Existem, no entanto, alguns que se tornam demasiado conscientes da realidade que os rodeia e nos fornecem um ponto de vista mais distanciado e arrepiante.

Com cerca de 50 páginas, esta novela inquietante apresenta-nos alguns estupendos mas estranhos episódios, marcantes pela forma como são percepcionados pelas personagens, entre a inocência e o fatalismo. Para além do posicionamento narrativo, é o mundo bastante singular que torna a história interessante, um espaço com características a explorar, que gostaria de ver aproveitado numa obra mais extensa. Esta encontra-se entre as melhores histórias curtas que li este ano.