Brasyl – Ian McDonald

River of Gods, também de Ian McDonald, encontra-se entre os melhores livros de ficção científica que já tive a oportunidade de ler: entrelaçando a história de várias personagens fornece as peças principais que compõem a sociedade indiana do ano de 2047, uma sociedade tecnologicamente avançada mas com as mesmas discrepâncias sociais que podem ser observadas hoje em dia, onde as novelas televisivas comandadas por inteligências artificiais têm um papel fulcral.

Em Brasyl não são histórias de diferentes espaços que se cruzam, mas de três diferentes épocas: século XVIII, início e meio do século XXI. Na primeira acompanhamos um padre jesuíta na descoberta do novo continente, uma terra que vinga pelo trabalho escravo, na falta de mulas e cavalos, dizimados por uma peste estranha. Mas não é só a realidade escrava que diferencia esta nova terra, também a forma como é gerido o poder que uns têm sobre os outros.

Marcelina é a personagem principal da segunda história, uma bem sucedida produtora de televisão e praticante de capoeira que explora escândalos e embaraços em directo. Solteira, mantém um tórrido e secreto romance, comparecendo às reuniões familiares da vasta família como “a criatura estranha” que nunca formou uma família.

Por último, a meio do século XXI conhecemos Edson, um empresário de talentos em São Paulo que se vê envolvido no perigoso mundo dos ilegais computadores quânticos. Com dupla personalidade e dupla sexualidade, Edson deixa-se envolver pelo glamour de uma jovem que ilegalmente constrói estes computadores, numa cidade sob intensa vigilância.

(a capa de Martiniére)

Explorando a teoria dos Universos Paralelos, Brasyl inicia-se com a apresentação de três histórias movimentadas em palcos ricamente definidos, que exploram a escravidão, a crueldade dos reality shows e até, de forma leve, a sexualidade.  Aquilo que parecem ser três histórias sem conexão, transforma-se, no final, numa única realidade.

Mas se parecem estar reunidas as premissas para um bom livro, não me parece que desta vez Ian McDonald o tenha conseguido. Em nenhuma das três histórias consegui sentir grande empatia pelas personagens principais: a caracterização parece forçada, e nem sempre é congruente.  Por outro lado, o emprego generalizado de palavras portuguesas com erros ortográficos poderá dar algum sentido pitoresco a um leitor inglês, mas a mim, portuguesa, alienou-me. Por último, as três linhas narrativas são repentinamente apressadas e cortadas, de modo a dar espaço à explicação para determinados factos: se não cheguei a afeiçoar-me às personagens, sou agora atirada para fora da história.

Talvez pelas elevadas expectativas criadas pela história soberbamente tecida em River of Gods, fiquei desapontada com Brasyl, que, embora tenha pontos fortes, precisava de ter sido melhor trabalhado, principalmente a nível de personagens e caracterização, de modo a atingir um nível semelhante de excelência. Seria interessante conhecer a opinião de leitores brasileiros sobre este livro: se eu já me senti estranha sendo portuguesa, qual será reacção de alguém que conhece o país?

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