O conjunto começa com uma aquisição em segunda mão, O Japão é um lugar estranho, de Peter Carey. Este é mais um dos belíssimos exemplares da colecção de literatura de viagem, neste caso com várias ilustrações de Anime e Manga. Eis a sinopse:
Peter Carey percorre a Tóquio moderna e entrevista os protagonistas da cultura da «manga», procura respostas impossíveis, naquele estilo levemente ébrio que nos faz nunca perder a sua prosa. The Guardian Escrito com a destreza narrativa de um romancista de créditos firmados (vencedor do Booker Prize por duas vezes), este livro traz em si, também, a urgência da reportagem e a capacidade de observação do melhor jornalismo. Revela-nos aquilo a que muita gente ainda não terá dado a atenção necessária: que há uma nova geração de adolescentes ocidentais a crescer, nesta primeira década do século XXI, sob a influência da cultura popular japonesa. Peter Carey conduz o filho e é conduzido (levando-nos a nós também nessa viagem) pelos labirintos de uma cultura cheia de códigos mais ou menos impenetráveis para um estrangeiro. Uma cultura bem mais transparente para um adolescente familiarizado com os universos da manga e do anime do que para um adulto à procura de uma chave que se revela quase sempre «lost in translation».
Segue-se O Visitante da Noite & Outros Contos, de B. Traven – este adquirido em promoções Bertrand, aproveitando uma campanha de 20% em tudo. Já há algum tempo que ando de olho no livro – pelo que não deixei passar a oportunidade. Publicado em Portugal pela Antígona, possui uma capa que relembra o dia dos Mortos mexicano, ideia que o resumo na capa parece apoiar:
Impressionado pela exploração a que os mexicanos estavam sujeitos, B. Traven traça neste livro um retrato afectivo e humano deste povo, fundindo com mestria incidentes do quotidiano e histórias do folclore de uma nação. N’O Visitante da Noite e Outros Contos – visões do México rural, entre índios e covis de bandoleros –, os poderes de observação e de descrição de Traven esboçam o retrato da identidade e das forças vitais de um país. A presente colectânea inclui, entre outros contos, «Macario», a lenda de um lenhador que faz um pacto com a Morte, «O Visitante da Noite», no qual a história do México desfila nos sonhos de um solitário forasteiro americano, e «Uma História verdadeiramente Sangrenta», ou as vicissitudes bem-humoradas de um gringo que aspira a ser repórter.
Seguem-se mais três usados, pequenas bandas desenhadas publicadas pela Polvo, ambas desconhecidas, mas que me pareceram interessantes. O Amor Infinito que te Tenho, de Paulo Monteiro, reúne várias histórias curtas e foi distinguido no Festival de Banda Desenhada da Amadora como Melhor Álbum Nacional:
Este é o primeiro livro de banda desenhada de Paulo Monteiro. Reúne um conjunto de histórias curtas efectuadas entre 2005 e 2010 e mostra de forma clara e concisa o percurso de maturação de um autor que vive intensamente as histórias que conta e desenha.
Já se tornou, com toda a justiça, no livro mais traduzido de sempre da BD portuguesa. A 3ª edição inclui, como novidade, um álbum de fotografias do autor.
Finalmente, uma adaptação à banda desenhada de O Estrangeiro (de Camus) que conheci numa das sessões de Recordar os Esquecidos, e o primeiro volume da série de Novela Gráfica que está a sair agora com o Público (e vale a pena, quer pelo formato, quer pelo preço).
Mas nem tudo nas novas aquisções são bandas desenhadas, há também dois volumes curiosos: O Último Europeu e Stoner. O primeiro da autoria de Miguel Real (que esteve presente em Recordar os Esquecidos) possui uma premissa curiosa para o género de livro que é:
Em 2284, a Europa é maioritariamente composta por Baldios governados por clãs guerreiros que escravizam as populações esfomeadas; subsiste, porém, um território isolado por um cordão de segurança com uma sociedade que, por via da ciência e da tecnologia, atingiu um nível altíssimo de felicidade individual, pois todos os desejos podem ser consumados, ainda que apenas mentalmente. Nesta Nova Europa, as relações sexuais são livres e não se destinam à procriação: as crianças, desconhecendo os pais, nascem nos Criatórios em placentas sintéticas e seguem para Colégios onde, sem a ajuda de livros, andróides especializados incrementam as suas competências como futuros Cidadãos Dourados. As famílias reúnem-se por afinidades, ninguém trabalha e nem sequer existem nomes, para que ninguém se distinga, já que todas as conquistas se fazem em nome da comunidade. Mas este mundo aparentemente perfeito sofre uma inesperada ameaça: a Grande Ásia, lutando com graves problemas de demografia, acaba de invadir a Europa… Um velho Reitor, estudioso do passado, é chamado a liderar uma equipa que possa refundar algures a Nova Europa e a deixar testemunho da sua História. Vinte e cinco anos depois da queda do Muro de Berlim, Miguel Real constrói uma utopia sublime no contexto de um novo paradigma civilizacional, revelando o seu talento de escritor e filósofo e, ao mesmo tempo, chamando a atenção para o esgotamento da Europa actual.
E falando em esquecidos, Stoner de John Edward Williams, lançado em 2014, tem sido livro de destaque, apesar de ter sido publicado originalmente há 50 anos:
Romance publicado em 1965, caído no esquecimento. Tal como o seu autor, John Williams – também ele um obscuro professor americano, de uma obscura universidade. Passados quase 50 anos, o mesmo amor à literatura que movia a personagem principal levou a que uma escritora, Anna Gavalda, traduzisse o livro perdido. Outras edições se seguiram, em vários países da Europa. E em 2013, quando os leitores da livraria britânica Waterstones foram chamados a eleger o melhor livro do ano, escolheram uma relíquia.
Julian Barnes, Ian McEwan, Bret Easton Ellis, entre muitos outros escritores, juntaram-se ao coro e resgataram a obra, repetindo por outras palavras a síntese do jornalista Bryan Appleyard: “É o melhor romance que ninguém leu”. Porque é que um romance tão emocionalmente exigente renasce das cinzas e se torna num espontâneo sucesso comercial nas mais diferentes latitudes? A resposta está no livro. Na era da hiper comunicação, Stoner devolve-nos o sentido de intimidade, deixa-nos a sós com aquele homem tristonho, de vida apagada. Fechamos a porta, partilhamos com ele a devoção à literatura, revemo-nos nos seus fracassos; sabendo que todo o desapontamento e solidão são relativos – se tivermos um livro a que nos agarrar.







o livro do paulo monteiro é um espanto, acho que irás adorar. o da canção do bandido pareceu-me bom na altura em que saiu, mas envelhece mal… fiquei curioso com o livro do carey (o japão fascina-me, um dia hei de assaltar um banco ou concorrer a um cargo político (mesma coisa 3:) para arranjar dinheiro para visitar tokyo. o do miguel real, depois de ouvir falar, também parece promissor…
o livro do carey li as primeiras páginas, parece-me bom ! Escrita fluída e interessante – hei-de dizer mais quando ler 🙂
pois, o problema do Japão é ser caro. Muito caro. E para além das cidades, gostava de ver as zonas rurais.
O do Miguel Real estou curiosa. O conceito é totalmente SF , mas só olhando para o índice se percebe que tem uma estrutura curiosa. 🙂
«O Amor Infinito que te Tenho», do meu amigo Paulo Monteiro, não é propriamente uma obra desconhecida… e, além de premiado em Portugal, também o foi em Espanha e em França.
Bem, então tenho a confessar que não me recordo de alguma vez ter visto tal livro 🙂