Wylding Hall – Elizabeth Hand

Wylding Hall

Aqui está uma boa leitura mas, sobre a qual, não me foi fácil começar a escrever. História forte, contada em tom pausado sob a forma de relatos ou entrevistas, centra-se numa banda de folk inglesa que terá tido o seu auge interrompido de forma misteriosa – de tal forma que o último álbum nunca terá sido gravado em estúdio e contem as versões dos ensaios gerais, alguns ao ar livre.

Logo no início percebemos que a banda está a ultrapassar um período difícil, com a morte de um dos elementos, um escândalo abafado pelo manager. Entre o consumo de drogas (usual naquele meio artístico) e o assédio dos fãs, o manager decide-se a alugar uma casa longe da cidade, para a produção do album seguinte, e que haveria de ser, também, o último, com o mesmo nome da mansão alugada.

Como o título indica, a história centra-se no período Wylding Hall da banda, seja em referência à mansão, seja em referência ao próprio álbum, constituindo a casa quase uma personagem por si só. Construída em camadas ao longo dos tempos, a casa tornou-se num extenso labirinto que esconde vários e inquietantes segredos, lembrando por diversas vezes, a casa do famoso livro fantástico Little, Big de John Crowley.

Mas se em Little, Big os habitantes quase faziam parte da casa, aqui são quase todos elementos modernos e estranhos que se enrolam com elementos desconhecidos. Quase todos – o cantor principal da banda é um conhecedor fanático de antigas artes mágicas que, ao explorar a casa se isola cada vez mais dos restantes elementos da banda, aparecendo com complexas músicas já construídas que têm por base os poemas estranhos encontrados na antiquíssima biblioteca.

wylding hall 2

Apesar da história ser contada pelos diversos pontos de vista, alguns bastante cépticos em relação aos acontecimentos, cedo se percebem os elementos mágicos dos contos de fadas irlandeses – espaços que fogem à normal relatividade do tempo e do espaço possibilitando a vista de uma enorme extensão de terra a partir de um ponto pouco alto, ou percursos labirínticos e transmutáveis no interior da casa.

Claro que tudo é ficcional – a banda, a casa, os acontecimentos. Mas é a forma lenta e pouco reveladora dos vários relatos que se sucedem que torna a história transtornadora, um misto de realidade com algo não descrito mas de presença marcante onde ganhamos alguma afinidade com o jovem conjunto de músicos que vai caminhando lentamente para uma segunda desgraça.

O ambiente é mágico, mas nem sempre fantástico – uma magia que transborda da paixão da juventude em pleno verão, misturando a alegria da idade com o consumo das drogas e que transforma os actos mais mundanos. Os episódios verdadeiramente surreais são poucos, mas coerentes entre si e fazem antever alguma desgraça. Episódios suportados pela evolução das declarações dos vários elementos da banda, que, referindo-se a acontecimentos anteriores, acabam quase sempre por lançar algum detalhe do que se irá passar mais tarde.

Tendo um bom ponto de partida – casas seculares, de extensos corredores labirínticos e imensos jardins ou florestas sem trilhos – a história aproveita o uso de drogas pelos membros da banda para não ser conclusiva na quantidade de surrealidade que existe nos acontecimentos – uma boa leitura inquietante.

(foi fornecida uma cópia para opinião pelo Netgalley).

Um pensamento sobre “Wylding Hall – Elizabeth Hand

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