The Water Knife – Paolo Bacigalupi

the water knife

Paolo Bacigalupi é, com toda a certeza, um dos meus autores de ficção científica preferidos. Mesmo depois de ter lido este livro. Não é por acaso que, há muitos anos, quando li Pump Six, a história me ficou facilmente na cabeça – um cenário apocalíptico em que a água vai ficando contaminada e a humanidade cai na imbecilidade. Para mostrar este caminho sem volta o autor cria vários episódios que são comicamente idiotas, mas desesperados e deprimentes em tom, auspiciando o declínio inevitável das civilizações.

Bem, dizem que quando existe necessidade de falar de outros livros é porque o livro em questão não é bom. Talvez porque já li quase tudo do autor, achei que falharam os pontos fortes da sua escrita neste livro, ficando a descoberto as manias constantes que vemos em quase todos os livros. Não posso deixar de comparar com o The Windup Girl, um livro que nos apresenta também um cenário apocalíptico mas onde se cria uma realidade tão carregada de detalhes que se torna fascinante – a subida das águas leva à extinção da maioria das espécies vegetais e animais, deixando os seres humanos na penúria calórica. Para compensar, os humanos dedicam-se à extensa engenharia genética.

Em qualquer das histórias, The Windup Girl ou The Water Knife destaca-se a culpa dos seres humanos na situação, e o desespero das populações que leva a actos horrendos, numa espécie de declínio moral da espécie. O que difere são os detalhes. The Windup Girl centra-se em várias personagens e consegue, em pequenos episódios contar os diferentes percursos apresentando diferentes visões de uma mesma realidade. Neste, o esforço para mover os acontecimentos e forçar a reunião das personagens é tal, que se perde a visão independente de cada uma e não se exploram os detalhes desta realidade – as personagens tornam-se peões, secundárias aos acontecimentos.

Aliás, dá-se tanto espaço à acção que os actos de pancadaria, tortura e frieza deixam de ter grande significado – ao contrário de The Windup Girl onde se impunha a empatia pela personagem antes de a estilhaçar. A acção é tanta que, por momentos, parecia que tinha um livro de Richard Morgan nas mãos. E esta acção intensa não deixa espaço para muito mais.

Não se entenda que a história é má – simplesmente para quem já leu quase tudo do autor, pareceu insuficiente. A lógica da história é simples e, como não podia deixar de ser, apresenta-nos um apocalipse ecológico. Num período de seca mundial as cidades americanas lutam entre si pelos direitos à água mas são as grandes empresas que controlam esses direitos, recorrendo a toda a espécie de artimanhas – como agentes secretos que não olham a meios para concluir as suas missões.

Sem os detalhes que enriquecem outros mundos, e sem a criação do mesmo nível de empatia, evidenciam-se alguns vícios de escrita do autor, mais especificamente na caracterização. É comum apresentar uma personagem que se achava na crista da onda da crise apenas para ser esmagado pela força da ondulação e agora recorda os áureos tempos. Mas existirá alguém, mais espero e mais adaptado, implacável, que agora conseguirá manter-se à toa. Até quando?

Little Queen, i was rich. I pulled mid-six figures, easy. I was doing good. I had houses building. I had a plan (…).

Maria sat with that, considering its implications. Toomie had fooled himself the way the father had. Somehow they hadn’t been able to see something that was plain as day, coming straight at them.

O mundo de The Water Knife é sangrento, desesperado, corrupto e degradante. A economia basea-se no controlo da água, e são as companhias que a gerem, em guerras de alta escala onde tudo vale. As populações são empurradas e encurraladas, impossibilitadas de se deslocar livremente e acabam em campos de refugiados. A palavra de ordem é o desespero.

A premissa é simples e directa, sem grandes detalhes tecnológicos, seja de teor genético ou mecânico. As personagens acabam por ser secundárias aos acontecimentos e, apesar de se investir nalguns episódios de elevada interacção, não se cria uma grande empatia. De acção carregada, é uma leitura rápida ainda que extensa, que tem pontos interessantes mas não me conseguiu cativar como outras obras do autor.

2 pensamentos sobre “The Water Knife – Paolo Bacigalupi

  1. Pingback: The Water Knife – Paolo Bacigalupi | F_C ...

  2. Pingback: Resumo de Leituras – Março de 2016 (3) | Rascunhos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s