Cemitério dos sonhos – Miguel Peres, Marília Feldhues, Cinthia Fujii, Rodrigo Martins e Rômulo de Oliveira

cemiterio-dos-sonhos

Com argumento de Miguel Peres e arte de quatro artistas diferentes, Cemitério dos Sonhos começa com um pensativo prefácio de André Oliveira sobre as diferentes experiências de vida e a sua real importância, para nos introduzir à vida de Dre, um rapaz que perdeu o pai muito cedo e que vive numa rotina cinzenta como avaliador de máquinas de lavar a roupa.

cemiterio-1

A rotina a que já está habituado é um modo seguro de sobreviver mas, também, a causa da sua apatia perante a vida, algo que ainda não se apercebeu, amarrado como está por memórias e sonhos com partes submersas no subconsciente. Até ao dia em que, através de uma estranha entidade, explora a sua própria mente, e o cemitério dos sonhos.

A exploração do interior, com lutas fictícias em que enfrenta memórias e desenterra inibições, fá-lo analisar alguns factos e rever acontecimentos por uma nova perspectiva, principalmente os que estão associados à morte do pai. É assim que Dre consegue dar nova forma às amarras que o prendem na apatia, lembrar-se de quem é e trazer à vida os seus sonhos.

cemiterio-2

Muitas obras que exploram temas mais interiores, com componentes conceptuais e pouco palpáveis, perdem-se em objectivos demasiado metafóricos. Não é o caso de Cemitério de Sonhos que consegue manter uma linha condutora e coesão, ligando as barreiras interiores a acontecimentos da vida Dre, o que lhe confere um sentido de conclusão e concretização no final.

cemiterio-3

De visuais diferentes que se complementam, Cemitério dos Sonhos é uma história introspectiva onde se explora a necessidade de reflectir sobre uma existência cinzenta, analisar as barreiras acumuladas ao longo dos anos e recuperar sonhos e objectivos de vida.

cemiterio-4

Cemitério dos Sonhos foi publicado pela Bicho Carpinteiro.

Retrospectiva 2016 – O Rascunhos

2016 no Rascunhos

Ultrapassadas todas as perspectivas de leitura, com 267 livros lidos, este ano não só consegui ler em espanhol, como em francês (coisa pouca, banda desenhada, mas tem de se começar por algum lado). As parcerias aumentaram, ainda que tal não se tenha traduzido num aumento de livros recebidos por ter investido em áreas não relacionadas com estas parcerias. Neste seguimento, para além da usual participação nas sugestões literárias do Fórum Fantástico, ainda estive na Eurocon Barcelona a apresentar a Ficção Especulativa portuguesa, mais especificamente sobre o que era publicado actualmente pelas grandes editoras.

As visualizações aumentaram, com cerca de 44 000, a página facebook continua a crescer, lentamente, mas o inesperado acontece com novas subscrições diárias directamente por e-mail. Notou-se um grande aumento na leitura dos artigos sobre livros do Plano nacional de Leitura, Aventuras de João sem Medo de José Gomes Ferreira a liderar com quase 2500 visualizações, seguido de perto por As Cruzadas Vistas pelos árabes de Amin Maalouf O Japão é um Lugar estranho de Peter Carey com cerca de 2200. A surpresa deste ano está associada ao Destaque para a Colecção Admiráveis Mundos da Ficção Científica que atingiu as 1000 visualizações (visualizações directas que as que são feitas na página inicial não são contabilizadas)

As melhores leituras

Dado o volume de leituras que corresponde a banda desenhada, este ano vou separar a banda desenhada numa entrada própria que será lançada durante a semana.

dark-tales

– Melhor colectânea – Dark Tales de Shirley Jackson – Se Sempre Vivemos no Castelo é uma história sombria repleta de tiques neuróticos de ambiente gélido que apela ao eterno sentimento do perseguido, The Lottery é o primeiro conto curto da autora que me deu a conhecer a mestria em formato mais curto de apresentar uma forte distopia e brutal, capaz de fazer desaparecer qualquer resto de fé na humanidade. O que encontrei em Dark Tales foi algo semelhante, contos aparentemente banais, quase quotidianos, não fosse revelaram-se autênticas peças de horror em tom pausado e medido, onde o que acontece pode, muitas vezes, ser perspectivado mas nem por isso deixa de ser menos brutal para o leitor;

sandkings

Melhor ficção curta – Sandkings de George R. R. Martin – A novela pertence a uma antologia com o mesmo nome e encontra-se publicado em português no livro O Cavaleiro de Westeros & Outras Histórias. A história centra-se num homem poderoso e exibicionista que gosta de adquirir espécimes raros, de preferência alienígenas, para os poder mostrar aos amigos em grandes festas. A mais recente aquisição é um pequeno mundo fechado em vidro onde quatro comunidades se desenvolvem. À primeira vista são semelhantes a formigas, mas capazes de empatia com o seu dono, desenvolvem guerras e estratégias enquanto criam cidades cada vez mais complexas, competitivas e ávidas de novos territórios. A colectânea possui outros bons contos que oscilam entre a ficção científica e a fantasia onde o autor explora os seus típicos finais esmagadores;

Emphyrio_9

– Melhor Ficção Científica – Emphyrio – Jack Vance – Apesar da extensa tecnologia, o mundo que se nos apresenta vive numa sociedade quase medieval onde se dá primazia extrema ao trabalho manual. Esta obsessão é de tal forma, que se torna uma sociedade distópica em que qualquer mecanismo ou automatismo é severamente penalizado. Quando finalmente consegue deixar o planeta, o jovem personagem descobre que este estado de existência quase feudal é perpetuado por interesses económicos para que noutros mundos os produtos aí produzidos sejam pagos a preços exorbitantes. Paralelismo com a exploração capitalista do terceiro mundo, apresenta a revolução contra uma distopia através da memória de um herói há muito caído;

dois anos

Melhor fantasiaDois anos, oito meses e vinte e oito dias – Salman Rushdie – Quando a magia volta a verter para o nosso mundo, provinda da realidade dos génios (gimnis) os descendentes de Sherazade (que afinal era uma e bastante poderosa) começam a apresentar uma série de capacidades estranhas e nem sempre com utilidade. Ao longo da história vão-se conhecendo os vários descendentes que agora habitam pelo mundo inteiro e fazendo cruzar as suas histórias;

santuário

– Melhor horror – Santuário – Andrew Michael HurleyNão há nenhuma acção que seja surpresa. Tudo o que presenciamos é antecipado páginas antes, gerando uma expectativa que transforma o desenrolar dos acontecimentos num ambiente sombrio de horror permanente, mais psicológico e interior. Lentamente os vários episódios, que decorrem em ambiente rural, entre a hostilidade fechada dos locais, a superstição e a religiosidade extrema, vão-se encaixando num final agridoce;

bibliotecas

– Melhor não ficção – Bibliotecas cheias de fantasmas – Jacques Bonnet – Livros sobre livros são sempre uma boa opção mas neste caso o autor consegue expressar toda a sua paixão por livros e bibliotecas. Passando por modos de organização e aquisição, o autor disserta sobre algumas obras que entraram para a minha lista de aquisições futuras e será, sem dúvida, um livro para rever;

Casos do direito galáctico e outros textos esquecidos

– Melhor livro de autor nacionalCasos de direito Galáctico e outros textos esquecidos – Mário-Henrique Leiria – Reunindo outros trabalhos do autor para além daquele que lhe dá o título, destaca-se na apresentação de vários casos de conflito legal entre diferentes espécies alienígenas em dissertações de lógica tão alienígena quanto os seres envolvidos, numa espécie de sátira, uma caricatura ao sistema legal.

Outras menções honrosas:

atrocity to your scattered_5

 

 

 

 

 

  • Ficção científicaThe atrocity archives de Charles Stross surpreendeu pelo bom humor, com uma série de personagens geeks num universo onde é possível existirem possessões através da electricidade, e um pedaço de código pode originar um apocalipse. Não bastasse tudo isto, de outras realidades paralelas, abrem-se buracos e erguem-se tentáculos que raptam quem perto deles estiver. Por sua vez, To Your Scattered Bodies Go de Philip José Farmer apresenta um conceito interessante. Um homem que já teria morrido acorda, nú, percebendo que ao seu lado outros corpos são reconstruídos. Todos são deitados num planeta selvagem onde tentam sobreviver e lutar pelos recursos que encontram. Por último, Kallocaína de Karen Boye apresenta uma distopia típica de contornos militarizados que une os cidadãos convencendo-os de um inimigo comum. É nesta sociedade que se inventa uma droga capaz de fazer revelar os sentimentos mais íntimos de qualquer ser humano;

KALLOCAÍNA

negocio-dos-livros

 

 

 

 

 

  • Não ficção – O Negócio dos livros de André Schiffrin apresenta a evolução da indústria livreira ao longo de décadas. Tendo o pai fundado uma editora acompanhou de perto como se desenrolava o negócio dos livros, e, mais tarde, fazendo parte de uma editora assistiu à forma como foi implementado um novo modelo que dá primazia às modas e aos sucessos rápidos, ao invés da qualidade do que é publicado;

o livro_ zoran

book_thimblestar_small

 

 

 

 

 

  • Fantasia – O Livro de Zoran Zivkovic torna o livro consciente, uma personagem feminina que se sente mal tratada por leitores incivilizados, tece uma crítica ao negócio editorial numa sátira sobre prémios, fabrico de autores, construção de capas e títulos e publicidade. Bastante diferente do usual, Thimblestar de Westley centra-se numa pequena fada que parte em demanda para bem de toda a família passando por episódios desafiantes com diálogos shakesperianos. Finalmente, O Gigante Enterrado de Kazuo Ishiguro contém uma história extremamente emotiva de um casal que parte em busca do filho, numa névoa de esquecimento que atinge aquele território, causada por um dragão idoso, num contexto arturiano, melancólico e metafórico;

gigante

ensaio sobre a cegueira

 

 

 

 

 

  • Nacional – Eu sei que colocar Ensaio sobre a cegueira de José Saramago nas menções honrosas e não no topo vai ser considerado crime por alguns. Apesar de ter gostado imenso do livro do autor galardoado com o Nobel, o de Mário-Henrique Leiria faz mais o meu género. Ainda assim, esta ficção apocalíptica com forte peso metafórico lê-se de um trago e consegue ser bastante mais poderoso que o filme.

Melhores leituras de anos anteriores

2015

2014

2011

2010

2009

2008

2007

2006

À espera de … (lançamentos internacionais)

Ao contrário do mercado português, a maioria dos lançamentos começa a ser publicitada largos meses antes do lançamento, por vezes quando o livro ainda nem sequer está terminado. Deixo-vos, assim, alguns dos livros que já estão anunciados e cuja data de lançamento já estou a seguir.

locke-small

Locke & Key de Joe Hill e Gabriel Rodriguez é das mais fantásticas séries de horror de todos os tempos. Joe Hill, filho de Stephen King, é conhecido pela sua obra escrita e nesta parceria com Gabriel Rodriguez criou uma série presente em qualquer lista de boa desenhada de horror. Apesar da série de 6 volumes estar terminada, em Janeiro será lançado Small World, uma história autónoma que decorre no mesmo mundo ficcional e muito material extra, uma edição que parece sobretudo para coleccionadores:

hree years after wrapping up their award-winning, best-selling Locke & Key saga, the team that built Keyhouse returns to Lovecraft, Massachusetts with a new tale of terror and suspense! An impossible birthday gift for two little girls unexpectedly throws open a door to a monster on eight legs!

This deluxe hardcover edition contains the new 24-page story and adds pages from various drafts of Joe Hill’s scripts, from the earliest hand-written pages to the various revisions; process pages from Gabriel Rodriguez; a special pinup from Brian Coldrick, and more!

beowulf

Desconheço outros trabalhos dos autores, mas pegando na história épica do herói que batalha Grendel (a propósito, aconselho a leitura da história contada da perspectiva do monstro, publicada cá pela Saída de Emergência), este volume parece prometer um bom trabalho, pelo menos do ponto de vista gráfico:

beowulf-2

cosmic-powers

Existem organizadores de antologias cujo trabalho se destaca e John Joseph Adams é um deles. Todas as antologias que organiza possuem histórias excelentes e uma qualidade média acima do razoável, histórias concretas com princípio, meio e fim, que ultrapassam o objectivo do conceptual e nos apresentam uma boa narrativa. Esta antologia promete muita acção num enquadramento menos forte a nível científico, com autores como Alan Dean Foster, Charlie Jane Anders ou Kameron Hurley.

forbidden

Depois de Norse mythology, Neil Gaiman lança esta adaptação para Banda Desenhada de um clássico gótico:

Somewhere in the night, a raven caws, an author’s pen scratches, and thunder claps. The author wants to write nonfiction: stories about frail women in white nightgowns, mysterious bumps in the night, and the undead rising to collect old debts. But he keeps getting interrupted by the everyday annoyances of talking ravens, duels to the death, and his sinister butler.

infernal-parade

Simultaneamente amaldiçoando pela paragem de Abarat e saltando de alegria por nova história de Cliver Barker, eis Infernal Parade, uma novela onde o autor parece ter recuperado o espírito negro dos seus livros:

From the beginning of his distinguished career, Clive Barker has been the great visionary artist of contemporary dark fantasy, a form that Barker himself has termed “the Fantastique.” Through his many novels, stories, paintings and films, he had presented us with unforgettable images of the monstrous and the sacred, the beautiful and the grotesque. His body of work constitutes a great and varied contribution to modern popular culture.

This astonishing novella, Infernal Parade, perfectly encapsulates Barker’s unique abilities. Like the earlier Tortured Souls, an account of bizarre—and agonizing—transformations, Infernal Parade is tightly focused, intensely imagined, and utterly unlike anything else you will ever read. It begins with the tale of a convicted criminal, Tom Requiem, who returns from the brink of death to restore both fear and a touch of awe to a complacent world. Tom becomes the leader of the eponymous “parade,” which ranges from the familiar precincts of North Dakota to the mythical city of Karantica. Golems, vengeful humans both living and dead, and assorted impossible creatures parade across these pages. The result is a series of highly compressed, interrelated narratives that are memorable, disturbing, and impossible to set aside.

Infernal Parade is quintessential Barker: witty, elegantly composed, filled with dark and often savage wonders. It proves once again that, in Barker’s hands, the Fantastique is not only alive and well, but flourishing. This is vital, visionary fiction by a modern master of the form.

empire-games

Apesar de se basear num mundo criado noutras séries, Empire Games é o primeiro volume de uma nova série de Charles Stross de realidades alternativas e viagens por mundos paralelos. Uma série sobre a qual tenho grande curiosidade, principalmente depois de ter visto o autor na Eurocon, de espírito sagaz e cómico:

Charles Stross builds a new series with Empire Games. Expanding on the world he created in the Family Trade series, a new generation of paratime travellers walk between parallel universes. The year is 2020. It’s seventeen years since the Revolution overthrew the last king of the New British Empire, and the newly-reconstituted North American Commonwealth is developing rapidly, on course to defeat the French and bring democracy to a troubled world. But Miriam Burgeson, commissioner in charge of the shadowy Ministry of Intertemporal Research and Intelligence―the paratime espionage agency tasked with catalyzing the Commonwealth’s great leap forward―has a problem. For years, she’s warned everyone: “The Americans are coming.” Now their drones arrive in the middle of a succession crisis.

In another timeline, the U.S. has recruited Miriam’s own estranged daughter to spy across timelines in order to bring down any remaining world-walkers who might threaten national security.

Two nuclear superpowers are set on a collision course. Two increasingly desperate paratime espionage agencies try to find a solution to the first contact problem that doesn’t result in a nuclear holocaust. And two women―a mother and her long-lost daughter―are about to find themselves on opposite sides of the confrontation.

calabria

Mais conhecido por O Último Unicórnio, Peter Beagle escreveu muita fantasia de premissa menos medieval que, mantendo um tom clássico na estrutura, contem elementos estranhos mas fascinantes. In Calabria será o próximo livro do autor, com data marcada para Fevereiro:

Claudio Bianchi has lived alone for many years on a hillside in Southern Italy’s scenic Calabria. Set in his ways and suspicious of outsiders, Claudio has always resisted change, preferring farming and writing poetry. But one chilly morning, as though from a dream, an impossible visitor appears at the farm. When Claudio comes to her aid, an act of kindness throws his world into chaos. Suddenly he must stave off inquisitive onlookers, invasive media, and even more sinister influences.

join

Apesar de desconhecer o autor, a premissa desta história é suficiente para a colocar como possível aquisição para os próximos tempos:

What if you could live multiple lives simultaneously, have constant, perfect companionship, and never die? That’s the promise of Join, a revolutionary technology that allows small groups of minds to unite, forming a single consciousness that experiences the world through multiple bodies. But as two best friends discover, the light of that miracle may be blinding the world to its horrors.

Chance and Leap are jolted out of their professional routines by a terrifying stranger—a remorseless killer who freely manipulates the networks that regulate life in the post-Join world. Their quest for answers—and survival—brings them from the networks and spire communities they’ve known to the scarred heart of an environmentally ravaged North American continent and an underground community of the “ferals” left behind by the rush of technology.

In the storytelling tradition of classic speculative fiction from writers like David Mitchell and Michael Chabon, Join offers a pulse-pounding story that poses the largest possible questions: How long can human life be sustained on our planet in the face of environmental catastrophe? What does it mean to be human, and what happens when humanity takes the next step in its evolution? If the individual mind becomes obsolete, what have we lost and gained, and what is still worth fighting for?

Últimas aquisições

img_0588

Há alguns meses que não fazia um post destes (tirando um para a Eurocon que tinha por objectivo destacar a realização do evento) pelo que aqui vai um pequeno apanhado de algumas das aquisições mais recentes e mais interessantes.

img_0610

Não bastasse ser um livro de Margaret Atwood (a autora de The Handmaid’s Tale ou O Ano do Dilúvio), Hag-seed aparece em quase todas as listas de melhores livros do ano, principalmente nas mais relevantes:

‘It’s got a thunderstorm in it. And revenge. Definitely revenge.’ Felix is at the top of his game as Artistic Director of the Makeshiweg Theatre Festival. His productions have amazed and confounded. Now he’s staging a Tempest like no other: not only will it boost his reputation, it will heal emotional wounds. Or that was the plan. Instead, after an act of unforeseen treachery, Felix is living in exile in a backwoods hovel, haunted by memories of his beloved lost daughter, Miranda. And also brewing revenge. After twelve years, revenge finally arrives in the shape of a theatre course at a nearby prison. Here, Felix and his inmate actors will put on his Tempest and snare the traitors who destroyed him. It’s magic! But will it remake Felix as his enemies fall? Margaret Atwood’s novel take on Shakespeare’s play of enchantment, revenge and second chances leads us on an interactive, illusion-ridden journey filled with new surprises and wonders of its own

O segundo, Counter-clock World é um dos livros de Philip K. Dick que ainda não li e para o qual fui chamada a atenção depois de ter lido um conto engraçado na Smokopolitan com uma premissa que será semelhante. Nesta realidade o tempo anda para trás. Acordamos cada vez mais novos, os idosos restabelecem a memória e as capacidades, os mortos levantam-se do cemitério e retornam às suas famílias, as pessoas que tão bem conhecemos tornam-se progressivamente estranhos:

In the counter-clock world time runs backwards. People are born in their graves, dug up when they can start speaking, and are reintroduced into society where they grow younger before returning to the womb to be unborn. The Hobart Phase has been reversing time since 1986 and nothing has quite been the same since.

The Library is the most powerful and most feared organization in the world, responsible for the eradication of records from history for events which have no longer happened. Anarch Peak, a black religious leader, is due to be old-born and the Library wants him dead. With a feud already developing in religious communities throughout the world, Seb Hermes is sent to retrieve Anarch from his captors. He must suceeed before tensions trigger an all-out religious war.

img_0619

Este clássico fantástico, Jurgen de James Branch Cabell, o mesmo autor de Hamlet tinha um tio, é um dos mais recentes lançamentos da E-Primatur, em edição ilustrada:

Jurgen é um cavaleiro que parte em busca do “amor cortês”, o amor idílico. As suas aventurtas por reinos mágicos e misteriosos encontrando pelo caminho os mais excentricos personagens e acabando, muitas vezes, nos leitos de mil damas – da Rainha Guinevere à mulher do Diabo – são uma entrincada alegoria aos tempos modernos e à América mas podem, igualmente, ser lidas como um romance de aventuras, uma fantasia, uma obra política ou um tour-de-force literário cheio de referências mais ou menos claras aos grandes clássicos da literatura universal e a obras menores mas de igual forma relevantes.

Jurgen foi alvo do primeiro e mediático processo de obscenidade que ocupou as primeiras páginas dos jornais norte americanos entre 1919 e 1922.

Ao lado encontra-se o mais recente lançamento de Carlos Ruiz Záfon, o livro que vai fechar a tetralogia O Cemitério dos Livros Esquecidos e que teve direito a grande lançamento com presença do autor na semana passada. Para quem não conhece, apesar de se tratar de uma mesma série, os livros podem ser lidos isoladamente, contendo histórias que decorrem em Barcelona, em torno de livrarias e livros, mas com especial ênfase numa enorme biblioteca que conteria as últimas cópias de qualquer livro.

img_0628

Apesar de terem sido comprados em Portugal (na FNAC Chiado e no El Cortê Inglês, respectivamente), estes dois ainda derivam da viagem de Barcelona. O primeiro é um livro curioso que tem publicação prevista em Portugal para o primeiro trimestre de 2017, um livro de Bolaño mas que toca no tema da ficção científica, e o segundo foi diversas vezes referido como sendo o melhor livro do Piñol, conhecido autor espanhol de fantástico, ainda que haja quem prefira Pandora el Congo.

img_0634

Pode parecer incrível mas não, nunca li o Memorial do Convento. Felizmente não foi leitura obrigatória (é que por mais que goste de ler, a perspectiva de ter de ler determinado livro em determinada época nunca me foi muito agradável). Com o lançamento desta edição especial da Guerra e Paz, aproveitei. Para além da capa dura a edição possui ilustrações de João Abel Manta que lhe dão muito bom aspecto. Veremos como é a leitura.

The Underground Railroad de Colson Whitehead é um dos livros mais falados deste ano, tendo-se tornado um best seller e encontra-se, também, nas principais listas de melhores livros do ano:

Cora is a slave on a cotton plantation in Georgia. All the slaves lead a hellish existence, but Cora has it worse than most; she is an outcast even among her fellow Africans and she is approaching womanhood, where it is clear even greater pain awaits. When Caesar, a slave recently arrived from Virginia, tells her about the Underground Railroad, they take the perilous decision to escape to the North. In Whitehead’s razor-sharp imagining of the antebellum South, the Underground Railroad has assumed a physical form: a dilapidated box car pulled along subterranean tracks by a steam locomotive, picking up fugitives wherever it can. Cora and Caesar’s first stop is South Carolina, in a city that initially seems like a haven. But its placid surface masks an infernal scheme designed for its unknowing black inhabitants. And even worse: Ridgeway, the relentless slave catcher sent to find Cora, is close on their heels. Forced to flee again, Cora embarks on a harrowing flight, state by state, seeking true freedom. At each stop on her journey, Cora encounters a different world. As Whitehead brilliantly recreates the unique terrors for black people in the pre-Civil War era, his narrative seamlessly weaves the saga of America, from the brutal importation of Africans to the unfulfilled promises of the present day. The Underground Railroad is at once the story of one woman’s ferocious will to escape the horrors of bondage and a shatteringly powerful meditation on history.

img_0662

Autor de obras tão conhecidas quanto Transmetropolitan, Warren Ellis lançou recentemente esta série de ficção científica:

All over the world. And they did nothing, standing on the surface of the Earth like trees, exerting their silent pressure on the world, as if there were no-one here and nothing under foot. Ten years since we learned that there is intelligent life in the universe, but that they did not recognize us as intelligent or alive. Trees, a new science fiction graphic novel by Warren Ellis (Transmetropolitan, Red) and Jason Howard (Super Dinoasaur, Astounding Wolf-Man) looks at a near-future world where life goes on in the shadows of the Trees: in China, where a young painter arrives in the “special cultural zone” of a city under a Tree; in Italy, where a young woman under the menacing protection of a fascist gang meets an old man who wants to teach her terrible skills; and in Svalbard, where a research team is discovering, by accident, that the Trees may not be dormant after all, and the awful threat they truly represent.

img_0652

Finalmente, o volume da esquerda parece uma história caricata e engraçada, sem falas, mas expressiva, que contrasta com o aspecto duro e pesado de um dos mais recentes lançamentos da Dark Horse.

Resumo de Leituras – Dezembro de 2016 (3)

img_0412

241 – A Gratidão dos Reis – Marion Zimmer Bradley – Pequeno conto de fantasia medieval onde as mulheres têm todos os papéis principais, mostrando-se independentes, autónomas e inteligentes, mas sem esquecer aquelas que se vêm confinadas ao papel tradicional;

242 – Dicionário do diabo – Ambrose Bierce – Ao longo de vários anos o autor foi publicando, em jornais, pequenas entradas onde explicava um conceito alternativo para algumas palavras. Alternativo, cínico e cómico. Cada palavra tem uma entrada hilariante, uma interpretação por vezes demasiado frontal e realista;

243 – Johannes Cabal The Necromander – Jonathan L. Howard – História de fantasia que se centra num necromante com laivos de cientista, muito sério e lógico, que se vê em situações totalmente mirabolantes, cómicas e ridículas. Os trocadilhos do autor ajudam a montar um ambiente de total boa disposição;

244 – O Espectacular Homem Aranha: O regresso às origens – Para quem, como eu, conhece pouco do Mundo Marvel, este primeiro volume da série Salvat introduz uma nova história de Homem-Aranha, dando o contexto necessário para conseguir se tornar independente e introduzir uma nova linha do herói.

 

Dicionário do Diabo – Ambrose Bierce

img_0273

Estou a ler este livro há semanas. Não porque seja aborrecido, muito pelo contrário,  mas porque esta dicionário subversivo de Ambrose Bierce se apresenta mesmo como um dicionário, com várias entradas, onde se apresenta, para cada palavra, um significado cínico, realista e crítico.

Aborígenes, n. Pessoas com pouca importância que são encontradas a obstuir o solo de um território recém-descoberto. Deixam rapidamente de obstuir, passando a fertilizar.

img_0159

Editor – uma pessoa que combina as funções judiciais de Minos, Radamante e Aecus, mas que é aplacável como um óbolo; um censor severo e virtuoso, mas tão caridoso que tolera as virtudes que encontra nos outros e os defeitos que encontra em si próprio.

Este dicionário começou como uma publicação ocasional num jornal, tendo sido estas entradas compiladas posteriormente num único volume, em 1911. As definições possuem referências históricas, sociais e políticas, e são, na sua maioria, simultaneamente críticas e cómicas, por vezes numa sinceridade desarmante.

img_0243

Quixotesco, adj – absurdamente cavalheiresco, como Dom Quixote. Uma compreensão mais profunda da beleza e da excelência deste incomparável adjectivo é tristemente negada àquele que tem o azar de saber que o nome do cavalheiro se pronuncia Quirróté.

Para além dos conceitos, esta belíssima edição da Tinta da china está carregada de ilustrações de Ralph Steadman que fez, também, um bom trabalho a desconstruir as definições de Ambrose Bierce, cruzando, até, por vezes, a descrição de dois ou mais numa única imagem.

Eventos: Para ler 100 pretextos

para-ler-100-pretextos

Palco de múltiplos eventos, inclusivé lançamentos e grupos de leitura, a Leituria continua a surpreender pelas iniciativas em que se envolve, sendo a mais recente Leituria100pretextos, que arrancou dia 02 de Dezembro e se prolonga até dia 15. Pois bem, nesta livraria acabaram-se as desculpas para não ler.

Livros caros, pouco disponíveis, oferta pouco variada? Esqueçam – a Leituria disponibiliza 100 livros para todos os gostos a custo 0. Entre os livros disponibilizados inicialmente encontramos banda desenhada, divulgação científica, livros não ficcionais, livros ficcionais ou juvenis.

Querem saber mais? Na página oficial encontram os detalhes associados a esta oferta, bem como a lista de livros disponibilizados.

 

Destaque: Cântico dos Cânticos / Manual de Civilidade para Meninas

manual-de-civilidade

Há pouco mais de um ano João Morales tirava o pó de um livro numa das sessões de Recordar os Esquecidos: Manual de Civilidade para Meninas de Pierre-Félix Louys. Sem que existissem, há um ano, edições disponíveis nas livrarias, ficou um título para adquirir um dia, talvez, nalgum alfarrabista. Qual o meu espanto quando vejo este lançamento anunciado pela Guerra & Paz. Maior a surpresa foi encontrá-lo na secção do fantástico, ao lado de livros mais ao género do Young-Adult. Fica o aviso. De conteúdo subversivo e pícaro, é um manual sexualmente explícito e sem pudores, uma crítica aos manuais de comportamento para jovens senhoras que tanto estiveram em voga na época. Deixou-vos a sinopse que acompanha o lançamento deste volume duplo:

Este é um livro de amor: do amor sagrado e do amor blasfemo. Este é um livro erótico que mostra dois extremos opostos do que pode ser o erotismo. Da ternura à violência, o amor e o erotismo são paixões fundadoras dessa cultura que se espraia do Médio Oriente judeu, passando pela costa mediterrânica, até às praias atlânticas do sul e do norte da Europa.

Este «Livro Amarelo» começa com o “Cântico dos Cânticos”, momento raro da Bíblia em que a carne, a fusão amorosa, é poeticamente exaltada. Ao “Cântico” junta-se o “Manual de Civilidade Para Meninas”, texto profano de 1915, de linguagem crua e revoltada. Por processos e linguagens decididamente opostas, Salomão, putativo autor do Cântico, e Pierre-Félix Louÿs, indesmentível autor do Manual, procuram o mesmo paraíso perdido, esse lugar ou momento de diáfana nudez que antecedeu a mentira, a hipocrisia e o preconceito. Este Livro Amarelo é o encontro de dois textos com a mesma fé, a de que o Amor é soberano.

Resumo de leituras – Outubro de 2016 (2)

img_8950

201 – Criminosos do Sexo – Vol.1 – Matt Fraction e Chip Zdarsky – Quando um orgasmo é capaz de parar o tempo e com ele todos os que nos rodeiam, aproveita-se para dar cordas à imaginação e dar uso a esse tempo especial. É o caso de Suzanne, uma rapariga que demora a perceber que o dom que tem não é comum a todos os seres humanos. Quando se envolve com um rapaz como ela crescem as ideias mirabolantes – porque não aproveitar este tempo extra para pequenos assaltos?

202 – How to talk to girls at parties – Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá – História curta, apresenta dois rapazes que se preparam para ir a uma festa onde se prevê estarem várias raparigas. Se a personagem principal, Enn, se revela tímido e inibido, o amigo com a sua desenvoltura abre facilmente caminho e envolve-se com a anfitriã. Enn deambula então pela casa, tentando falar com as raparigas que encontra, mas cada conversa lhe parece mais estranha que a anterior… até encontrar alguém especial.

203 – Tony Chu – Vol.5 – John Layman e Rob Guillory – Tony Chu continua mirabolante, carregado de cenas nojentas envolvendo comida e super-poderes, mas desta vez com o rapto de Tony e da filha, por grupos diferentes mas com objectivo semelhante – usar o poder de ambos para obter informações.

204 – Sandkings – George R. R. Martin – Bom conjunto de histórias de ficção científica que nos apresentam a hipocrisia religiosa, a dissimulação amorosa, a desilusão permanente de um regresso ou a megalomania desmedida de um homem que se projecta como um Deus a um conjunto de pequenos espécimes alienígenas capazes de cooperar e construir pequenas mas crescentes civilizações.

Resumo de leituras – Outubro de 2016

img_8884

197 – Rugas – Paco Roca – Este fabuloso álbum toca num tema sensível – a velhice. Mas fá-lo de uma forma simultaneamente forte e leve, colocando detalhes que se tornam cómicos apesar do cenário deprimente da decadência sem volta, resultante da degenerescência física e mental. São exactamente os pormenores, a perspectiva mirabolante dos episódios quase desesperados que tornam Rugas um álbum muito especial;

198 – Y: The Last Man – Vol.3 – Vários – A história continua com o declínio da sociedade com o desaparecimento de todos os homens – ou de quase todos os homens. Yorick Brown, o único sobrevivente masculino da humanidade encontra-se a ser discretamente escoltado para um laboratório a fim de o estudarem – enquanto isso descobrem que, se não existem outros sobreviventes na superfície do planeta, poderão existir outros dois num satélite;

199 – Odd e os Gigantes de Gelo – Neil Gaiman – História juvenil engraçada que bebe inspiração das lendas nórdicas em torno dos deuses, aproveitando as suas características imutáveis para nos apresentar uma pequena e engraçada aventura;

200 – The Walkind Dead – Vol.1 – Robert Kirkman e Tony Moore – Sem ter visto a série televisiva, o primeiro volume apresenta o cenário previsível de cenário apocalíptico aos dentes de mortos-vivos ávidos por carne humana. A perspectiva, apesar de comum, é enriquecida pelos laços familiares e amorosos, laços que se sobrepõem, por vezes, ao espírito de sobrevivência;

Destaque: A Biblioteca à Noite – Alberto Manguel

a-biblioteca-a-noite

 

Um dos mais recentes lançamentos da Edições Tinta da China parece ser o livro ideal para quem é fascinando por bibliotecas:

UM DOS MAIORES BIBLIÓFILOS DO MUNDO CONTA-NOS TUDO O QUE SABE SOBRE A HISTÓRIA, O FASCÍNIO E OS ENIGMAS DAS BIBLIOTECAS.

Ao construir a sua mítica biblioteca com mais de 40 mil livros num antigo presbitério em França, Alberto Manguel debateu-se com as mesmas questões de qualquer bibliotecário doméstico: dividir por línguas? Usar a ordem alfabética? Agrupar por géneros? Mesmo que não existam respostas certas, neste livro Manguel conta pelo menos as melhores histórias: há bibliotecas públicas com secções como «Esgotos: Obras Seleccionadas», e bibliotecas privadas onde, alfabeticamente, os amigos‑escritores Borges e Bioy Casares ficam lado a lado. Há bibliotecários corajosos que alteram registos de requisição para salvar livros, e livros corajosos que salvam homens torturados. Há livros perdidos, livros proibidos, livros digitais, livros que ficam numa prateleira demasiado alta e livros imaginados — mas todos ocupam um espaço e enchem estantes pelo mundo fora, tal como preenchem esta «Biblioteca à Noite».

Banda desenhada em Junho de 2016

Esta rubrica costuma reunir lançamentos, eventos e bons artigos mas, até agora, a banda desenhada estava misturada. Este mês resolvi separar por conta do volume de novidades que tem tido, e assim ir fazendo crescer esta secção. Caso estejam interessados deixo-vos o link para Ficção Especulativa em Junho de 2016.

presas banner

Lançamentos nacionais

Neste ponto deixo-vos a ligação para As Leituras do Pedro que já tem um tópico mensal exaustivo sobre os lançamentos. Aproveito apenas para destacar o início da Colecção Novela Gráfica 2016, bem como a publicação de Alias e Velvet pela G Floy, e Eu, Assassino de Antonio Altarriba e Keko pela Arte de Autor.

Críticas interessantes

Tony Chu vol. 1-4 – John Layman e Rob Guillory – Deus me Livro;

Presas fáceis – Miguelanxo Prado – As Leituras do Pedro;

Terminus – Rochette e O. Bocquet – Ler BD;

Dellamorte Dellamore – Tiziano Sclavi – Intergalacticrobot;

La retour de la bondrée – Aimée de Jongh – As Leituras do Pedro;

Sobressaltos – Vários autores – Ler BD;

Fatale Vol.1 – Ed Brubaker e Sean Philips – Nuno Ferreira;

L’Usine – Yang Yu-Chi – Ler BD;

terra de sonhos banner

Terra dos sonhos – Jiro Taniguchi – As Leituras do Pedro | Por um punhado de imagens;

Os contos inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy – Filipe Melo, Juan Cavia e Santiago Villa – Nuno Ferreira;

Altemente – Mosi – Ler BD;

Eu, Assassino – Antonio Altarriba e Keko – As Leituras do Pedro;

La république des esclaves – Jour J #23 – Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Fafner – Máquina de escrever;

V de Vingança – Alan Moore e David Lloyd – Por um punhado de imagens | Ler BD;

Pandora  #1- As Leituras do Pedro;

vampiros banner

Outros artigos

– Filipe Melo: No novo livro houve um esforço para procurar um caminho próprio – As Leituras do Pedro;

– O Homem por trás da máscara – Público;

– Há novos heróis na banda desenhada franco-belga – Máquina de escrever;

– José Hartvig de Freitas em Um lance no escuro;

– Novela Gráfica – série II – Apresentação da Colecção – Por um punhado de imagens;

v de vingança banner

Eventos nacionais

– Lançamento A Liga dos Cavaleiros Extraordinários – Feira do Livro, por David Soares;

– Lançamento Os Vampiros de Filipe Melo e Juan Cavia;

– Lançamento Colecção Novela Gráfica com David Lloyd;

– Vampiros e Tex no Clube Português de Banda Desenhada;

– Lançamento O Segredo de CoimbraPor um Punhado de Imagens;

– Festival BD de Beja – As Leituras do Pedro |

– Apresentação de Nada a Temer  de Sama – Bandas desenhadas;

Últimas aquisições

IMG_4262

Este grupo começa com duas aquisições que há muito se encontravam na minha “lista de desejos”, As histórias de terror do tio Montague e Uma Biblioteca da Literatura Universal de Herman Hesse. O primeiro é um livro juvenil de horror – curiosamente parece que só se publica neste género para jovens:

Edgar não resiste às cativantes histórias de terror que o seu tio Montague lhe conta quando o vai visitar, do outro lado do bosque. Mas qual será a ligação do seu tio a estas histórias sinistras? Prepara-te para morreres de medo quando descobrires que o tio Montague é, afinal, o protagonista da história mais terrífica de todas. Um livro assustador… Terás coragem para o ler?

IMG_4270

The Loney de Andrew Michael Hurley foi inicialmente publicado pela Tartarus Press, numa edição limitada que esgotou em pouco tempo. Como é habitual nas edições da Tartarus, neste momento apenas se encontra disponível pela módica quantia de 600 libras. Bem mais barata foi esta edição, mais recente em capa dura deste livro de terror que foi um dos mais falados de 2015 no género.

IMG_4279

Os Luminares de Eleanor Catton é um daqueles livros que nunca pensei adquirir, mas comecei a lê-lo numa livraria e, não só gostei da escrita, como do mistério e espírito que rodeava as primeiras páginas . Já disse que os sofás nas livrarias são a melhor invenção desde a roda? Estou a exagerar claro, mas dão para pegar em livros curiosos e tirar dúvidas de aquisição. Deixo-vos a sinopse:

Um mistério por resolver no século XIX na cidade de Hokitika, Nova Zelândia, que reagrupa o destino de doze personagens – e inovador pela estrutura reinventada dos romances vitorianos. A corrida ao ouro, o tráfico de ópio, a prostituição e a expiação do passado de cada uma das personagens, além de um grandioso mistério por resolver, relevam a singularidade desta obra: é um thriller e um romance histórico, iluminado por referências astrológicas e chaves simbólicas orientadoras do destino das personagens. Surpreendente e viciante, eis ficção ao mais alto nível literário.

IMG_4284

IMG_4292

Depois das habituais aquisições periódicas (da Colecção Marvel da Salvat e dos Heróis DC da Levoir em conjunto com o jornal Público), encontram-se as aquisições de banda desenhada em língua francesa e um volume da Kingpin books. O primeiro, pela sinopse diria que é uma história com uma pitada de FC e de horror, enquanto Meta-baron apresenta um cenário totalmente futurista que me pareceu interessante.

IMG_4297

O melhor do primeiro trimestre de 2016

Estes três primeiros meses foram prolíferos em leituras, com 80 livros lidos, dos quais 38 são banda desenhada em inglês, português e até francês (ver Leituras 2016). Eis um resumo com os favoritos do primeiro trimestre, por ordem de leitura:

historia universal

1 – História Universal da Pulhice Humana – Vilhena – publicado pela E-primatur, uma das primeiras leituras do ano revelou-se um conjunto de episódios históricos transformados em alusões cómicas e satíricas à sociedade em geral, e à portuguesa em particular, com desenhos peculiares a acompanhar.

 

cavaleiro sueco

2 – O Cavaleiro Sueco – Leo Perutz – publicado pela Cavalo de ferro, é história fantástica com detalhes que recordam as histórias mais populares envolvendo o diabo, apresenta um dois homens que atravessam as terras geladas em busca de comida e abrigo – um nobre que terá desertado do exército e um pobre ladrão que se revela mais correcto moralmente do que o nobre. Por uma partida, acabam por trocar destinos, mas com as reviravoltas da vida irão endireitar o caminho de ambos.

dois anos

3 – Dois anos, oito meses e vinte oito dias – Salam Rushdie – Não tendo lido nada do autor antes deste livro, surpreendi-me pela premissa fantástica, e pelo seu desenvolvimento. Apesar de deambular em excesso nalguns episódios, está carregado de reminiscências de histórias conhecidas, com ecos de contos, lendas e histórias fantásticas, apresentando várias histórias cujo destino se cruza. Em  Portugal foi publicado pela Dom Quixote.

low

4 – Low – Vol.1 – Remender, Tochini – Banda desenhada de ficção científica que nos apresenta um futuro distante em que a humanidade foi obrigada a abrigar-se em cidades no fundo dos oceanos. Após várias gerações o ar não aguenta novas renovações, e as sondas enviadas à procura de planetas habitáveis não retornam. Ainda assim, neste mar de pessimismo deprimente , a personagem principal é a eterna optimista, a força que faz andar a história.

contos maravilhoso

5 – Contos Maravilhosos – Herman Hesse – Com estrutura base semelhante a contos populares, de figuras caracterizadas e de moral, estes contos elegantes e coesos possuem um objectivo claro – mas nem por isso o autor descura a criação de ambiente, envolvendo o leitor em cada história. Em Portugal este livro foi publicado pela Dom Quixote.

emphyrio

6 – Emphyrio Jack Vance – Clássico de ficção científica, apresenta uma sociedade distópica num cenário quase medieval ainda que tecnologicamente a humanidade seja capaz de viagens intergalácticas e domine as técnicas da biologia molecular. Mas neste planeta os comuns são mantidos sob uma economia rigidamente controlada, uma forma de manter a sociedade estagnada e dócil.

saga gosta

7 – A Saga de Gosta Berling – Selma Lagerlof – Aqui está, uma leitura mirabolante, carregada de reviravoltas dementes, de personagens irresponsáveis, sonhadoras e inconstantes – tudo envolto por elementos surreais. Pactos com o diabo sorrateiro, donzelas inocentes (ou nem tanto) que se deixam tentar, mulheres poderosas caídas em desgraça por se afirmar a verdade que já todos sabem, castigos com impacto prolongado – ao longo de quase 400 páginas vamos conhecendo a forma como se interligam os destinos destas pessoas numa sucessão de desgraças e poucas alegrias. Em Portugal foi publicado pela Cavalo de Ferro.

descender

8 – Descender – Vol.1 – Jeff Lemire – Banda desenhada de ficção científica que recorda Battlestar Galactica ou A.I. , apresentando um futuro onde algumas máquinas se assemelham a humanos e se revoltaram. A acção é centrada num pequeno robot que tem o aspecto de um rapaz, que estava adormecido na altura da revolta. Anos depois, acorda e tem como único objectivo encontrar a sua família. Infelizmente é uma peça importante no entendimento da revolta.

wytches

9 – Wytches – Vol.1 – Scott Snyder – banda desenhada de horror, pega em terrores antigos e profundos, retomando como cenário uma floresta deserta onde seres sobrenaturais, as bruxas se escondem. Estas bruxas concedem desejos a troco de vidas em cenários negros, misteriosos e sangrentos.

contrato com deus

10 – Um contrato com Deus – Will Eisner – Dizem-me que os livros de Will Eisner são todos semelhantes e que as histórias se repetem em tom e estilo. Bem, a vantagem é que li muito pouco de Will Eisner. O que destaca este volume é trazer-nos o ambiente da América de há algumas décadas, em histórias que retratam os factos daquela vida e daquele quotidiano, centrando-se sobretudo em personagens pobres ou remediadas que vivem na esperança de conseguirem algo melhor. Em Portugal este volume foi lançado pela Levoir em parceria com o jornal Público, na colecção de Novelas Gráficas.

comboio dos orfaos

11 – O Comboio dos órfãos – Jim e Harvey – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin – Era para ficar pelas tradicionais 10 referências, mas tinha de citar este livro. Tomando inspiração nos anos 20 da América, acompanha os órfãos (ou crianças abandonadas) que eram recolocadas no interior do país para terem novas famílias e se afastarem de uma vida de vícios. De boas intenções está o inferno cheio – as crianças nem sempre são aceites com boas intenções, e os supostos benfeitores que patrocinam a distribuição das crianças deixam-se levar pela superioridade moral em que se envolvem. Em Portugal este volume foi publicado pela Arcádia.

Últimas aquisições

IMG_3610

No topo encontra-se um volume curioso de um estudioso brasileiro publicado pela Letra Livre (e que encontre na Almedina, conjuntamente com outros livros da mesma colecção) – O Bibliófilo Aprendiz.  Neste livro, um verdadeiro bibliófilo fala sobre a forma como se deve construir uma verdadeira colecção de edições antigas de livros raros, falando, não só do processo de aquisição, como se conservação, não faltando, claro, os episódios quase cómicos como algumas edições se perderam, ou particularidades profissionais do processo de edição que permitem distinguir, várias décadas depois, as diferentes edições.

IMG_3624

Segue-se Os Marcianos somos nós de Nuno Galopim, um livro comentado de forma bastante positiva por Artur Coelho e que me convenceu a dar uma oportunidade assim que tivesse oportunidade (ou promoção). Deixo-vos a sinopse:

Marte desperta a curiosidade desde há séculos. As descobertas científicas que se têm vindo a fazer em muito contribuem para manter aceso o interesse sobre o planeta vermelho. Dos tempos em que era apenas um ponto avermelhado nos céus ao momento em que uma sonda descobriu água no solo deste astro, a história da nossa relação com Marte somou séculos de fantasias e descobertas. Ao que se conhece do passado, associa-se o que se espera do futuro, onde parece abrir-se um mundo de possibilidades. É a oportunidade de viajar até lá, no momento presente, através de páginas cheias de referências, exemplos e histórias, que este livro oferece.

As visões dos invasores de H. G. Wells ou dos seres imaginados por Edgar Rice Burroughs cativaram muitos jovens para a ciência. Mas se Marte continua a despertar a ficção, capta igualmente o interesse de cientistas, cujas observações têm permitido acumular conhecimento sobre o planeta.

Carl Sagan defendeu que para contar a história de Marte é preciso juntar a ciência e a imaginação. Este livro faz essa reunião de modo convincente. O olhar do autor cruza as sondas Viking ou Mariner com as Crónicas Marcianas de Ray Bradbury, as canções de David Bowie com o hilariante Marte Ataca!, de Tim Burton. E fornece bons motivos para manter o leitor atento às páginas, incluindo pequenos marcianos que chegam à Terra maldispostos e colónias humanas que encontram em Marte uma nova casa.

O Cavaleiro Sueco de Leo Perutz foi um dos mais recentes lançamentos da Cavalo de Ferro que tive oportunidade de ler e de apreciar. Em O Cavaleiro Sueco encontramos algumas das características dos contos e lendas tradicionais num modo mais literário de escrita que resulta numa história de aventura curiosa.

E se a palavra curiosa diz pouco como caracterização, na verdade o que queria dizer era única e peculiar – a personagem principal não é  um herói imaculado, mas um homem que, seguindo uma moral própria e algo distorcida, tenta escapar ao destino. E como ao destino não se pode escapar, o que ele acaba por fazer é adiar um caminho sabendo agora tudo o que perde da vida.

IMG_3633

Mas o livro que aqui vos mostro não é O Cavaleiro Sueco. Esse já li e gostei tanto que aproveitei rapidamente outra promoção para arranjar outro livro do mesmo autor, O Judas de Leonardo.

Lendas, mitos, contos populares – desde sempre que este é um tema que me entusiasma, e o fascínio, que estava dormente, foi reactivado pelo livro Sobre o conto de fadas de Italo Calvino. E como um livro puxa outro, foi nessa sequência que me aconselharam os livros de Francisco Vaz da Silva, tendo escolhido este entre os vários que já publicou.

IMG_3644

Estar à espera de amigos, tendo uma hora para gastar, e estar perto de uma livraria – eis uma combinação perigosa. Neste caso saí de lá com dois livros de banda desenhada, o primeiro volume de Serenity (que está na minha lista de aquisições há alguns anos) e um livro da Panini Brasil. Serenity – those left behind apresenta aventuras que decorrem entre a série Firefly e a série Serenity. Apesar de cumprir o seu papel em termos de nos apresentar acontecimentos entre os dois segmentos, não consegue captar o espírito peculiar das personagens que era uma grande mais valia. No final, deixa a saudade e a vontade de rever a série (para comentário mais detalhado, vejam o tópico).

Matiné é um livro de banda desenhada que ando há muito para comprar. Não me parece ser exactamente o meu tipo de leitura, mas nada como sair, de vez em quando, da nossa zona de conforto:

AS TRÊS HISTÓRIAS QUE COMPÕEM ESTE MATINÉ têm por inspiração o velho e bom cinema de acção e aventura e são temperadas com cirúrgicas pitadas de sangue e humor. Mas isto não é pura e simples pancadaria, com alta dose de adrenalina à mistura. Os enquadramentos escolhidos ajudam a ambientar a acção, os ângulos, a movimentação e a velocidade das cenas transformam estas páginas em algo parecido com os filmes de Quentin Tarantino. Não sabendo o que se passa antes, ficamos no entanto a saber que acaba por estar tudo de alguma forma interligado. Atenção, pois, ao final. Matíné funciona como cartão de visita dos gémeos Magno e Marcelo Costa e seus convidados: Marcio Moreno, Magenta King e Dalts. Tudo boa gente da nova geração de autores de banda desenhada brasileira.

IMG_3652

Não sei se perceberam, mas estou lentamente a adquirir as coisas de André Oliveira. Sem achar que estejam perfeitas (das que li, faltavam alguns detalhes para garantir a total coesão da história, e uma melhor caracterização de personagens) são normalmente livros com uma história definida, onde se percebe a existência de um fio condutor. E, normalmente, a história combina bem com os diferentes estilos de desenho que o acompanham.

Classificado com o melhor desenho de álbum português de 2015, Erzsébet é a mítica condessa húngara que se banharia no sangue de jovens:

Erzsébet Bathory, a infame condessa húngara contemporânea de Shakespeare, ao contrário deste, incarnou como poucos o lado negro e animalesco do ser humano. São-lhe atribuídos centenas de crimes inomináveis que lhe grangearam alcunhas como “Tigreza de Csejthe” ou “Condessa sanguinária” e que a colocam no mesmo lendário patamar de bestas humanas como Gilles De Rais ou Vlad, o Impalador. Por detrás do seu rosto pálido, de olhar impassível e melancólico ocultava-se o próprio demónio, Ördög.

IMG_3673

Mais interessante pelo aspecto gráfico do que propriamente pela história, Ruins consegue, mesmo assim surpreender. Com duas, quase três histórias paralelas, acompanha sobretudo um casal americano que se mudou para o México e uma borboleta que circula pelo mundo. Simultaneamente, encontramos algumas páginas do livro que a jovem americana estaria a escrever. A metáfora é óbvia, trata-se de uma viagem de transformação, tanto para o casal como para a borboleta, uma viagem que os levará a perceber o que querem da vida. Ainda assim consegue apresentar algumas características menos turísticas do México, num conjunto engraçado (para comentário mais detalhado sobre o livro, com imagens, vejam o seguinte tópico).

IMG_3668

Últimas aquisições

IMG_3201

Os dois volumes mais claros, um de capa mole, e outro de capa cozida, correspondem às mais recentes aquisições da Tartarus Press, uma editora conhecida pelos seus exemplares de pequena edição que rapidamente se tornam numa raridade.

IMG_3212

No campo da banda desenhada portuguesa adquiri duas pequenas bandas desenhadas. A da esquerda é da autoria de José Carlos Fernandes e é um pequeno conjunto de demências, algumas socialmente reconhecíveis, estereotipos comuns. Outras são exageros ao género da caricatura que se tornam interessantes e engraçados.

IMG_3215

Agentes do C.A.O.S é um lançamento da Kingpin Books de anos anteriores, que já me tinha despertado interesse e que, no seguimento de uma promoção aproveitei. Deixo-vos a sinopse:

O maior atentado de sempre em território português. Um julgamento mediático em tempo recorde. Um veterano polícia amargo e semi-aposentado empurrado para uma última missão. Um plano urdido ao pormenor que poderá fazer desmoronar os frágeis alicerces do sistema instalado. Esta é a historia de Agentes do CAOS: Nova ORDEM; mas, no fundo, é sobre muito mais do que apenas isso. É sobre velhos terroristas com velhos sonhos e novos terroristas com métodos actuais. É sobre velhos polícias com velhos hábitos e jovens polícias com outros hábitos. É sobre velhos hábitos que não mudam e novos hábitos que teimam em ficar na mesma. No fundo, é sobre o velho fado português e canções intemporais que permanecem actuais; e sobre autores actuais que se reinventam e que se recusam a estagnar.

IMG_3221

Para além do habitual volume da colecção de Super-heróis DC, as minhas aquisições de banda desenhada não se ficaram por aqui. À esquerda encontram o terceiro volume de The Looking Glass Wars, histórias onde o Universo do País das Maravilhas se cruza com o nosso, e onde assassinos a soldo e agente secretos são enviados para o nosso mundo com estranhas e hediondas missões, em que a Alice tem um papel central. Os volumes anteriores já os tinha comentado há alguns anos (Volume 1 | Volume 2).

IMG_3224

Estas são as duas últimas aquisições de banda desenhada desta fornada, Ardalén de Miguelanxo Prado e o segundo volume de A Pior Banda do Mundo de José Carlos Fernandes.

IMG_3229

O resultado de andar entre estantes mais escondidas das livrarias é encontrar coisas publicadas há muito que despertam peculiar interesse. Foi o caso de A viagem dos sete demónios de Manuel Mujica Lainez que tem uma premissa no mínimo curiosa:

O Diabo está furioso com os setes demónios que tutelam os setes pecados capitais por levarem no Interno uma vida ociosak, mais não fazendo do que discutir “como se fossem teólogos”. E porque o Inferno é “um instituto penal que deve assentar em bases sérias”, os demónios são enviados à terra para cumprirem a sua missão: infernizar os que cá andam. Lúcifer, negro e despido como a noite, é a Soberba; Satanás, imenso crustáceo vermelho com asas de abutre é a Ira; Mamon, andrajoso e esquelético, a Avareza; Asmodeo, fauno de focinho de porco, a Luxúria; Belzebu, devorador insaciável, a Gula; Leviatã, grande almirante e chefe supremo das heresias, a Inveja; e Belfregor, fêmea roliça sustida por quatro animais alados, é a Preguiça. Esta missão não será, no entanto, tarefa fácil, já que a cada um corresponde um assunto que não cabe na sua especialidade. Sobre todos eles gravita um corrosivo Mujica Lainez que compõe com esta parábola uma autêntica aguarela dos vícios e das paixões humanas.

À direita encontram Mausuléu, um livro de contos enviado pelo autor, Duda Falcão, no seguimento do comentário ao seu conto decorrido no Museu do Terror, Universo sobre o qual pretendia ler mais alguma coisa.

IMG_3235

A Saga de Gosta Berling tornou-se um dos livros favoritos dos últimos tempos. Foi em resultado desta leitura que me convenci a adquirir a mais recente edição de O Livro das Lendas, apesar de não gostar do aspecto renovado da colecção (também não era grande apreciadora da anterior, mas se na foto as duas cores parecem conviver pacificamente, ao vivo, os meus olhos não têm a mesma reacção).

As mais belas fábulas africanas é um livro que vem responder à minha paixão por contos, mitos e histórias tradicionais das mais diversas, tendo expectativa de ler histórias que reflictam as diferenças da vivência africana.

The Water Knife – Paolo Bacigalupi

the water knife

Paolo Bacigalupi é, com toda a certeza, um dos meus autores de ficção científica preferidos. Mesmo depois de ter lido este livro. Não é por acaso que, há muitos anos, quando li Pump Six, a história me ficou facilmente na cabeça – um cenário apocalíptico em que a água vai ficando contaminada e a humanidade cai na imbecilidade. Para mostrar este caminho sem volta o autor cria vários episódios que são comicamente idiotas, mas desesperados e deprimentes em tom, auspiciando o declínio inevitável das civilizações.

Bem, dizem que quando existe necessidade de falar de outros livros é porque o livro em questão não é bom. Talvez porque já li quase tudo do autor, achei que falharam os pontos fortes da sua escrita neste livro, ficando a descoberto as manias constantes que vemos em quase todos os livros. Não posso deixar de comparar com o The Windup Girl, um livro que nos apresenta também um cenário apocalíptico mas onde se cria uma realidade tão carregada de detalhes que se torna fascinante – a subida das águas leva à extinção da maioria das espécies vegetais e animais, deixando os seres humanos na penúria calórica. Para compensar, os humanos dedicam-se à extensa engenharia genética.

Em qualquer das histórias, The Windup Girl ou The Water Knife destaca-se a culpa dos seres humanos na situação, e o desespero das populações que leva a actos horrendos, numa espécie de declínio moral da espécie. O que difere são os detalhes. The Windup Girl centra-se em várias personagens e consegue, em pequenos episódios contar os diferentes percursos apresentando diferentes visões de uma mesma realidade. Neste, o esforço para mover os acontecimentos e forçar a reunião das personagens é tal, que se perde a visão independente de cada uma e não se exploram os detalhes desta realidade – as personagens tornam-se peões, secundárias aos acontecimentos.

Aliás, dá-se tanto espaço à acção que os actos de pancadaria, tortura e frieza deixam de ter grande significado – ao contrário de The Windup Girl onde se impunha a empatia pela personagem antes de a estilhaçar. A acção é tanta que, por momentos, parecia que tinha um livro de Richard Morgan nas mãos. E esta acção intensa não deixa espaço para muito mais.

Não se entenda que a história é má – simplesmente para quem já leu quase tudo do autor, pareceu insuficiente. A lógica da história é simples e, como não podia deixar de ser, apresenta-nos um apocalipse ecológico. Num período de seca mundial as cidades americanas lutam entre si pelos direitos à água mas são as grandes empresas que controlam esses direitos, recorrendo a toda a espécie de artimanhas – como agentes secretos que não olham a meios para concluir as suas missões.

Sem os detalhes que enriquecem outros mundos, e sem a criação do mesmo nível de empatia, evidenciam-se alguns vícios de escrita do autor, mais especificamente na caracterização. É comum apresentar uma personagem que se achava na crista da onda da crise apenas para ser esmagado pela força da ondulação e agora recorda os áureos tempos. Mas existirá alguém, mais espero e mais adaptado, implacável, que agora conseguirá manter-se à toa. Até quando?

Little Queen, i was rich. I pulled mid-six figures, easy. I was doing good. I had houses building. I had a plan (…).

Maria sat with that, considering its implications. Toomie had fooled himself the way the father had. Somehow they hadn’t been able to see something that was plain as day, coming straight at them.

O mundo de The Water Knife é sangrento, desesperado, corrupto e degradante. A economia basea-se no controlo da água, e são as companhias que a gerem, em guerras de alta escala onde tudo vale. As populações são empurradas e encurraladas, impossibilitadas de se deslocar livremente e acabam em campos de refugiados. A palavra de ordem é o desespero.

A premissa é simples e directa, sem grandes detalhes tecnológicos, seja de teor genético ou mecânico. As personagens acabam por ser secundárias aos acontecimentos e, apesar de se investir nalguns episódios de elevada interacção, não se cria uma grande empatia. De acção carregada, é uma leitura rápida ainda que extensa, que tem pontos interessantes mas não me conseguiu cativar como outras obras do autor.

Fevereiro de 2016

trono dos cranios banner

Lançamentos nacionais relevantes

Para além das colecções de banda desenhada em curso (da Marvel pela Salvat, e dos Heróis DC pela Levoir em parceria com o jornal Público) eis os lançamentos nacionais que mais me interessaram:

Por sorte o leite – Neil Gaiman – Editorial Presença;

Extinção – Kazuaki Takano – Casa das Letras;

– O livro da selva – Rudyard Kipling – Bertrand Editora;

O barão trepador – Italo Calvino – Dom Quixote;

Filho Dourado – Pierce Brown – Editorial Presença;

O herói das eras – Brandon Sanderson – Saída de Emergência;

O trono dos crânios – Peter V. Brett – Edições Asa;

Críticas interessantes

Se no mês passado constatei que o número de blogues com excelentes críticas de FC era cada vez menor (citando alguns de exemplo que não dão sinal de vida há largos meses), este mês outros houve que anunciaram fecho. Mais palavras para quê? Aqui fica o apanhado das críticas que achei mais interessantes ao longo de Fevereiro.

confessions banner

Ficção científica

Analog Science Fiction and Fact – Setembro 2014 – Intergalacticrobot – A revista é uma das mais conhecidas no meio, e uma das melhores formas de se descobrir ficção em formato mais curto;

The young world – Chris Weitz – As leituras do corvo – um clássico cenário pós-apocalíptico, com todos os inevitáveis dilemas da vida adolescente;

Confessions d’un automate mangeur d’opium – Fabrice Colin & Mathieu Gaborit – Intergalacticrobot – quando a ficção steampunk tem preocupações mais estéticas do que narrativas;

12.22.63 – Stephen King – D’Magia – história de viagem no tempo com ritmo imparável apoiada numa pesquisa exaustiva sobre 22 de Novembro de 1963;

Rendez-vous com Rama – Arthur C. Clarke – Ler y Criticar – clássicao do género centra-se no primeiro contacto com vida extraterrestre;

rainha vermelha 2

Fantasia

A porta no muro – H. G. Wells – A Lâmpada Mágica – Um dos livros da colecção dirigida por Jorge Luís Borges apresenta uma faceta mais fantástica do autor de A Guerra dos Mundos;

O Vento nos Salgueiros – Kenneth Grahame – Deus me Livro – um clássido da literatura juvenil, “história de amizade e mudança, de lendas e mitos”;

Monsters of Men – Patrick Ness – Floresta de Livros – último volume da trilogia com “personagens intensas, sem momentos mortos e com uma escrita veloz”;

A rainha vermelha – Victoria Aveyard – Letras sem fundo – jovens saídas da puberdade, capacidades mágicas e triângulos amorosos num esquema narrativo distópico;

The sleeper and the spindle – Neil Gaiman – Leitora de fim-de-semana – a união de dois contos, A Bela Adormecida e Branca de Neve, resulta numa história bem diferente;

A guardiã da espada – Alex 9 – Bruno Martins Soares – A Lâmpada Mágica – Romance demasiado ambicioso de frenética sucessão de cenas, com várias descrições de combates e batalhas;

cruelle banner

Banda desenhada

A louca do Sacré-Coeur – Moebius & Jodorowsky – A Lãmpada Mágica – gozo ao intelectualismo oco, às crises masculinas de meia-idade e ao misticismo new age;

Tony Chu: Enfarda-Brutos – Layman & Guillory – As leituras do Pedro – “original e “nojentamente divertido””

A agência de viagens Lemming – José Carlos Fernandes – aCalopsia | As leituras do Pedro;

Cruelle – Florence Dupré La Tour – As leituras do Pedro;

– Foi assim a guerra das trincheiras – Tardi – A Lâmpada Mágica – retrato revoltante e comovente da guerra, com exposição das grandezas e misérias da espécie humana;

as horas invisiveis banner

Outros

Connections – James Burke – Intergalacticrobot – livro não ficcional de divulgação científica, que possuirá uma abordagem pouco usual para explicar a evolução tecnológica;

O poço e o pêndulo – Edgar Allan Poe – Nuno Ferreira – conto de horror de escrita envolvente onde se destaca a capacidade de subtilmente transmitir sensações;

As horas invisíveis – David Mitchell – Ler y Criticar – o último livro do autor publicado em Portugal tem um ritmo lento, mas é original e ambicioso;

Oriente, Ocidente – Salman Rushdie – Pedro Cipriano – depois de ter lido um livro do autor, fiquei curiosa com este, um livro de contos;

Frankenstein – Mary Shelley – Virtual Illusion – “um rasgo de pura criatividade que se veio a tornar num ícone dos mundos de ficção”;

Outros artigos

Literatura de ficção

– O umbigo do Mundo de Umberto Eco era em Portugal – Observador;

– Franz Kafka: A obra em chamas – Deus me Livro;

– As fantasias irrealistas de David Mitchell – Observador;

– Umberto Eco: A insuportabilidade do silêncio – aCalopsia;

– Eternamente Tom Sawyer – Revista Estante;

– O bibliotecário e o nome da rosa – Observador;

– O homem que inventou Dan Brown – Observador – apesar do título (infeliz, a meu ver, que quase dá maior importância a Brown) tem alguns parágrafos interessantes;

Banda desenhada

– Os heróis também usam BI – Mafalda – Deus me Livro;

– Hermann: Um grande clássico – aCalopsia;

– Príncipe Valiente: 1957 – 1960 – As leituras do Pedro;

– Artigos sobre BD, Os meus – cuto “O Mosquito” – Divulgando Banda Desenhada;

– Crítica e divulgação de BD: Antes e depois da Internet – aCalopsia;

– 2016: Arranque em grande para os autores portugueses no estrangeiro – As leituras do Pedro;

– Super-heróis à francesa II: O Universo fantástico da Lug – Leituras de BD;

– A mansão assombrada da Disney por Joshua Williamson e Jorge Coelho – aCalopsia;

Eventos

– Correntes d’Escritas – Deus me Livro (23, 24, 25, 26, 27);

Sustos às sextas;

– Reportagem – 380º encontro da Tertúlia BD de Lisboa – Kuentro 2;

Recordar os Esquecidos;

– Exposição comemorativa do 80º Aniversário d’O Mosquito – Kuentro 2;

A vida contada de A. J. Fikry – Gabrielle Zevin

IMG_2083

Um viúvo recente e relativamente jovem tenta sobreviver à ausência da esposa, mantendo o negócio que fundaramem conjunto. Para além de beber demasiado quase todas as noites, a perda recente fá-lo ser mal humorado para clientes e fornecedores. Esta não é, de todo, a descrição de um livro que me costume captar o interesse – mas, este caso é especial! Envolve livros e livrarias!

É que o viúvo vive na mesma casa onde tem o negócio que é um livraria – o que é quase o mesmo que viver numa biblioteca. Na livraria apenas vende o que gosta e é um crítico implacável, que dispensa clichés e dá grande valor à narrativa:

Ele é um leitor e aquilo em que acredita é na construção. Se aparecer uma arma no primeiro ato, é melhor que essa arma dispare até ao ato três. Ou seja, aquilo em que A. J. acredita é na narrativa.

O livro abre com uma pequena referência crítica ao célebre conto de Roald Dahl, Cordeiro à matança. A partir daí vamos conhecendo os acontecimentos que mudam radicalmente a vida de A. J. , intercaladas com outras pequenas críticas. O seu estilo de vida decadente muda radicalmente quando lhe roubam um livro raro de Poe. E é este roubo que vai levar, indirectamente, a que lhe deixem uma bebé na livraria – porque não existirá melhorar lugar para educar alguém do que numa livraria.

IMG_2095

O livreiro mal humorado, até mal educado, que conhecemos nas primeiras páginas vai-se acalmando, criando na sua livraria grupos de leitura e arranjando livros para os diversos clientes – mas sempre com forte posição em relação aos livros que vende.

Apesar dos acontecimentos trágicos que vão rodeando a vida do livreiro, o humor irónico e as constantes referências aos livros vão aliviando o ambiente, tornando-se numa história engraçada de pequenas reviravoltas onde a leitura tem um papel bastante importante.