Miracleman – A Idade de Ouro – Gaiman e Buckingham

No primeiro volume construído por Alan Moore a personagem sofre várias evoluções começando como um herói quase linear na sua perfeição típica das perfeitas famílias americanas para se tornar num herói distante, com várias camadas de complexidade (não, a duplicação do conceito de perfeito não foi acidental). A personagem não evolui sozinha – tanto o traço como a narrativa que o envolve vão, também, ganhando novas interpretações e perspectivas.

Gaiman pega na história de Alan Moore apresentando-nos a sociedade humana que é construída após a grande batalha no final do volume anterior. Se Miracleman era uma figura distante no final da história de Moore, aqui é uma sombra omnipresente e poderosa que raramente é vislumbrada. Gaiman prefere contar a história dos que vivem no mundo utópico governado por Miracleman e outros sapientes superiores.

O volume começa por nos apresentar a longa subida por uma escadaria infindável por quatro pessoas que pretendem pedir algo a Miracleman. Não é uma subida a que todos saiam incólumes do ponto de vista físico ou psicológico. Entre várias ouras histórias conhecemos um amante humano de Miraclewoman que, conhecendo-a, já não consegue suportar a imperfeição física das outras mulheres.

Se os adultos vivem entre a nostalgia da perda e da transformação social, já as crianças estão num admirável mundo novo, percebendo que as situações improváveis aumentaram de probabilidade e que facilmente novos poderes podem surgir. Com a nova sociedade vieram as vantagens tecnológicas dos alienígenas que parecem transformar o presente e o futuro.

Mas nem todos são enquadráveis na nova sociedade. Assim conhecemos uma cidade onde ficaram os espiões, incapazes de sair do ciclo vicioso de pistas e frases indirectas e por isso incapazes de aceitar a simplicidade e frontalidade do novo mundo. É uma cidade estranha onde qualquer acção ou palavra pode ter duplo sentido e onde qualquer reacção tem de ter em conta todas as possibilidades.

A sociedade pode estar a caminho da perfeição, mas os humanos ainda são humanos e com a transição recente expressam ainda receios e medos, elementos que não são totalmente expurgados pelos diversos rituais e festas mundiais criados para o efeito.

Ainda que o tom do primeiro volume, construído por Moore, seja diverso, parece-me mais coeso em termos de direcção (mesmo percebendo que alguns percursos são abandonados e novos são introduzidos a meio da história).  Gaiman torna Miracleman numa personagem quase inexistente mas cuja sombra se faz sentir em cada mini história.

Gaiman abandona a personagem perfeita. Talvez porque Gaiman é excelente a apresentar histórias de personagens com falhas, personagens que duvidam de si mesmas e que, com as suas imperfeições se tornam mais cativantes para o leitor. Com estas explora a sociedade demonstrando, ao invés de apresentar em narrativa directa, a sua evolução.

Cada personagem é acompanhada por um estilo diferente, num intercalar que relembra, por vezes, em forma e exploração, Sandman. Talvez por ser uma leitura recente foi-me impossível não ver algum paralelismo na forma como pretende falar das suas grandes personagens mostrando o que ocorre em seu redor, ao invés de nos apresentar episódios em que estas sejam protagonistas.

Ao efectuar estas permanentes comparações, com Moore ou com Sandman, parece que estou a diminuir o Miracleman de Gaiman. Nem por isso. Miracleman de Gaiman é um volume intenso e inteligentemente tecido mas que não pode ser lido como uma continuação de Miracleman de Moore ainda que aproveita os seus fundamentos. Gaiman sabe contar histórias e aproveita este Universo para contar várias ao seu próprio estilo.

Miracleman – A idade de Ouro foi publicado em Portugal pela G Floy.

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