The Shape of Water

Eis um filme que, do princípio ao fim, não me pareceu ser de Guillermo del Toro! De tal forma, que tive de confirmar após o ver, para garantir que não me tinha enganado. Confesso que não vi muitos filmes do realizador, mas algo que têm em comum os que vi é um certo ambiente rural, um ambiente crú que não deixa espaço para o romantismo onde o fantástico de horror se imiscui na realidade e consegue não ser o pior do que é retratado. É um horror surreal cuja existência questionamos em todos os momentos.

Em The Shapes of Water retrata-se os anos 60,  e denota-se a queda do romantismo em relação a décadas anteriores, que possui resquícios no cinema e em programas de televisão, na música e no trato de algumas pessoas. Este romantismo está a ser substituído por uma frieza calculista, fruto das modificações sociais – são detalhes muito leves no filme, breves alusões.

Entenda-se que este romantismo anterior não era sinal de perfeição social, mas simplesmente uma forma de tapar as imperfeições e de manter uma aparência de inocência – um estado que causa uma certa nostalgia em duas das personagens principais, um isolamento e simpatia entre dois amigos, Elisa Esposito e Giles.

Elisa Esposito é muda. Não porque seja surda, mas porque as cordas vocais foram cortadas antes de ter sido abandonada e integrada num orfanato. Com o vizinho, um artista que produz cartazes de marketing à mão (e que está a ser substituído pelas novas tecnologias, a fotografia), passa longas horas visualizando musicais antigos.

A quebra na rotina diária de Elisa ocorre no trabalho. Empregada da limpeza num laboratório, assistiu, com a sua fiel colega (e amiga) à chegada de um ser aquático e bípede. Fascinada pela criatura começa a visitá-la e percebe que o ser é capaz de entendimento e comunicação, bem como de sentimentos – estabelece-se entre ambos uma rara empatia!

Paralelamente, apercebemo-nos de algumas movimentações associadas à Guerra Fria. O laboratório está associados aos militares que vêem no ser aquático uma vantagem na corrida ao espaço, enquanto um dos cientistas que estuda o ser reporta aos russos. O responsável pelas instalações é um general com várias taras pouco encobertas, alguém habituado à perfeição militar que vê, no ser aquático, um monstro, uma vantagem para ser domada e maltratada selvaticamente. Os maus tratos pioram de tal maneira que Elisa não vê outro remédio senão raptar o ser aquático.

Romântico em várias perspectivas, The Shape of Water prima pelo aspecto visual. O apartamento de Elisa cruza elementos decadentes com uma decoração clássica, uma espécie de estúdio de largas janelas industriais que se situa por cima de um cinema. Paralelamente, o laboratório tem um aspecto mais crú mas carregado de tubagens e azulejos, um misto de piscina com tecnologia da época, o que lhe dá uma leve sensação de hospício típico de filmes de terror. Mas sem o suspense que lhe costuma estar associado.

A história em si é, também, romântica e quase clássica. A ironia provém do facto de ser a senhora da limpeza que tece o plano para raptar um bem nacional, mesmo à vista dos militares, sem levantar grandes suspeitas. Mas para Elisa não se trata de um bem. Nem de um animal. Antes uma alma com a qual sente empatia e reconhecimento, um sentimento tão forte que leva a que amigos, pessoas banais, a ajudem naquilo que parece ser um plano doido e impossível. Sim, gostei do The Shape of Water, mas não é nada do que estava à espera.

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