Uncanny Valley – Greg Egan

Vencedor de dois dos mais importantes prémios na ficção científica, um prémio Hugo e um prémio Locus, para além de vários outros, Greg Egan é um autor peculiar que não se apresenta em convenções de ficção científica, ou apresentações de livros, recusando-se a assinar as suas obras e afirmando que não possui fotos na net. Esta forma particular de não se expor é, no mínimo curiosa.

Uncanny valley é uma história interessante e envolvente que segue a perspectiva de uma única personagem – um ser humano construído à imagem de uma personalidade existente, como forma de garantir imortalidade, ou pelo menos, de se perpetuar ao longo de mais umas quantas décadas. Neste futuro os seres humanos construídos à imagem de outros, com cópia cerebral, não são reconhecidos como seres humanos com direitos próprios. Este enquadramento não nos é explicado, mas é lentamente percepcionado através dos pensamentos e das conversas do ser que seguimos.

Não sendo reconhecido como ser humano, de que forma pode a réplica manter uma vida autónoma e produtiva? Existe um vazio legal. E ainda que o ser humano original, um escritor de forte carácter, tenha tentado proteger a sua réplica, empregando advogados e empresas para a manter ligada, a verdade é que tal manutenção tem um custo elevado – um custo de que a família se quer livrar, e que as empresas contratadas querem elevar ao impossível.

O ser humano construído sabe ser uma réplica imperfeita, existindo memórias às quais não tem acesso – memórias que foram intencionalmente deixadas de fora. O vazio legal e o lapso de memória constituem obstáculos a transformar-se numa pessoa coesa e bloqueiam a capacidade criativa.

A história não se centra na tecnologia que envolve o novo ser humano (ainda que forneça rápidos vislumbres) mas na perspectiva do ser inteligente que se sente desintegrado e incapaz, um ser adulto com todo o peso de memórias de uma outra vida, cujos companheiros e amigos já faleceram ou o evitam, e se sente impossibilitado de realizar novos contactos.

A acrescer a esta perspectiva solitária, o saber que há memórias “suas” que desconhece levanta várias outras questões interessantes. Por um lado, a pessoa original escolheu enterrar uma componente sua, um momento do qual não se orgulha ou, até, obscuro, por outro, a falha de memórias pode levar a uma quebra de personalidade e de integridade psicológica.

O resultado é um conto envolvente que levanta questões éticas interessantes associadas ao desenvolvimento tecnológico que deve ser acompanhado por uma evolução legal e da própria sociedade.

Esta história foi publicada gratuitamente na TOR.com.

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