O Poder – Naomi Alderman

Um dia, num mundo em tudo semelhante ao nosso, desperta nas mulheres um forte poder que muda as regras da sociedade em todos os pontos do planeta – o poder de gerar descargas eléctricas. Se, no início, este poder pertence exclusivamente às mais novas, com o passar do tempo, as mais novas ensinam as mais velhas a acordar as suas meadas para fazerem o mesmo.

O poder surge, inicialmente, em mulheres que estão em perigo ou em situações constrangedoras: um pai adoptivo que gosta de disciplinar através de abusos sexuais, um desconhecido que pretende um sorriso de uma rapariga, uma menina que vê a casa invadida e a mãe espancada até à morte. Os episódios brutais despertam a inesperada descarga eléctrica e rapidamente o poder se espalha, começando a ser usuais as pequenas batalhas eléctricas entre raparigas.

No seguimento de um destes episódios brutais uma rapariga refugia-se num mosteiro, procurando abrigo mas acaba por descobrir aqui uma vocação, tornando-se uma espécie de Messias dos novos tempos. A nova Eva acolhe mais raparigas perdidas, expulsas de casa ou abandonadas pelas suas capacidades, construindo uma espécie de exército que crescerá e poderá controlar o novo mundo.

A história não é contada apenas na perspectiva de raparigas, centrando-se, também, num rapaz que descobre ter jeito para repórter. Tendo conseguido filmar um dos primeiros episódios que envolveram descargas eléctricas, percorre o mundo de país em país, relatando os picos de tensão social, principalmente em países onde as mulheres são comummente humilhadas e aprisionadas.

Num mundo em tudo semelhante ao nosso, em que os homens usam frequentemente a sua autoridade e maior poder físico para se imporem e manipularem (ou desvalorizarem) a componente feminina, o surgir deste poder inverte o jogo de poderes. Não se julgue, claro, que quem foi subjugado, agora no poder, fará melhor trabalho. Rapidamente as circunstâncias começam a inverter-se e ocorrem inúmeros casos de abusos dos homens, na mesma medida em que aconteciam com as mulheres.

O Poder consegue, com uma premissa bastante simples (e se as mulheres pudessem emitir fortes descargas eléctricas), reverter a ordem social e fazer uma reflexão bastante interessante sobre vários aspectos do equilíbrio entre géneros. No final, vários séculos após a inversão de poderes, questionam-se alguns factos actuais, tidos como mitos, como, por exemplo, a castração feminina. Decerto que tal monstruosidade nunca terá ocorrido. Entre os vários capítulos que relatam a evolução do poder eléctrico encontramos pequenas provas e artefactos que pretendem provar a existência do poder ao longo dos séculos.

Não esperem que O Poder seja uma leitura amorosa e delicada. O poder surge em circunstâncias pesadas que são demasiado comuns (e actualmente reais) e consegue apresentar episódios emocionalmente fortes que levam o leitor a ter uma visão interessante do equilíbrio de poder entre os géneros, e a questionar-se sobre o exercício de várias formas de poder, físico e psicológico.

Com os direitos vendidos para adaptação a série televisiva, O Poder foi nomeado como um dos melhores livros de 2017 pelo The New York Times e foi lançado no mercado português pela Saída de Emergência.

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