Eu, Louco – Altarriba e Keko

Em Asa Quebrada ou A Arte de Voar, conhecemos uma versão mais pessoal do autor, que, nestas duas histórias se centra em cada um dos progenitores. A história de ambos cruza-se, claro, com a história do povo espanhol, referindo a Guerra Civil espanhola e outros eventos que justificam um percurso de sofrimento e desilusão. Estas duas obras, publicadas na colecção Novela Gráfica da Levoir em parceria com o jornal Público, afastam-se bastante do tom de Eu, Assassino, publicado em Portugal.

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Se, a temática de Eu, Assassino favorece a utilização do vermelho como cor necessária para realçar a brutalidade de cada passagem e compor a estética de cada obra de arte (vulgo, assassinato), neste caso, Eu, Louco, o destaque vai para a cor amarela, que vai sendo utilizada para realçar alguns elementos fundamentais à narrativa – como uma espécie de aposematismo em que a cor é usada para mos avisar estarmos perante um elemento venenoso.

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Curiosamente, aqui, o veneno encontra-se associado a uma farmacêutica internacional, mais propriamente ao seu observatório de transtornos mentais, no qual Ángel Molinos, a personagem principal trabalha. Apesar dos antecedentes de escritor, Ángel tem como função criar novos perfis psicológicos que permitam o aumento de diagnósticos e, claro, o aumento do consumo de fármacos produzidos pela farmacêutica.

Mas o próprio Ángel parece estar a afastar-se da sanidade mental. Noite após noite sofre insónias e pesadelos terríveis que o fazem recordar de traumas infantis. A par com estes pesadelos, um colega procura o seu apoio para denunciar a farmacêutica, levando-o a um caminho de maior inquietação. Em paralelo, vê-se envolvido em perigosas tramas em que alguns colegas procuram utilizá-lo para subir na carreira.

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Já em Eu, Assassino, o autor tinha explorado a brutalidade dos relacionamentos laborais, mostrando como a competitividade profissional pode ser mais violenta do que uma facada fatal. Em Eu, Louco, o autor volta a explorar as interacções com os colegas, tecendo uma sucessão de falsidades e subtilezas que se compõem em planos engenhosos para que outros sejam apanhados a agir em falso.

Mas se, em Eu, Assassino, o tema era o ambiente académico, aqui apresentam-se as tramas da indústria farmacêutica sob uma perspectiva cínica, venenosa e bastante tóxica. A empresa usa, como cobaias, pessoas sem familiares, sentindo-se à vontade para testar combinações quase impossíveis de fármacos em condições arrepiantes e degradantes.

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Não são só as práticas experimentais que carecem de ética – todo o funcionamento da empresa gira na formulação de perfis psicológicos, alguns deles forçados, que têm por objectivo aumentar o consumo de medicamentos pela população em geral. Definem-se obsessões, doenças psicológicas modernas que levam ao consumo de substâncias viciantes e, consequentemente, ao aumento dos lucros.

O resultado é cínico. Por um lado centra-se numa empresa que, tendo uma função relacionada com a saúde, utiliza esse mesmo papel no sentido da corrupção. A prática, além de pouco ética, é maléfica e corrompe todos os que se encontram directa, ou indirectamente, relacionados com ela. Não é, assim, de surpreender que quem se encontra nos altos cargos de chefia seja capaz de quase tudo para manter a sua posição de poder.

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A narrativa é tensa. Por um lado existe uma alternância entre pesadelos e revelações ácidas que expõem o pior lado do ser humano. Por outro lado, acompanhamos a história pela perspectiva da própria personagem que se vai sentindo cada vez mais inquieto com a sua profissão. Esta mesma perspectiva permite que o autor engane o leitor da mesma forma que a personagem é enganada na narrativa.

A par com estas particularidades da narrativa, o desenho é escuro, carregado de sombras e destacando apenas os elementos venenosos. Se, no início, os elementos amarelos são raros, no final tornam-se cada vez mais frequentes, acompanhando o aumento da tensão.

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Seguindo a mesma linha de Eu, Assassino, este Eu, Louco é uma leitura forte e estonteante que impele a leitura rápida  e que se tornou numa das minhas leituras favoritas entre as mais recentes. Afinal, o que pode haver de mais arrepiante do que uma empresa que mina o sistema de saúde para levar milhares ao falso diagnóstico de doença psicológica?

Eu, Louco foi publicado pela Ala dos Livros.

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