
João Nuno Azambuja não é estreante no mundo da escrita, tendo o seu primeiro livro, Era uma vez um homem, vencido o prémio UCCLA. Autópsia é o seu terceiro livro, cuja sinopse me despertou interesse por remeter para as alterações climáticas, prometendo-nos levar para um futuro apocalíptico, onde o subir do nível das águas ameaça o que resto da humanidade.
A promessa é cumprida e rapidamente nos vemos numa ilha que possui uma única cidade, Autópsia. Este local parece conter o que resta dos seres humanos, existindo alguma tecnologia (contida na sua distribuição), e prédios sobrepopulados. Mas o leitor sabe existir um outro local, uma outra ilha verdejante e quase sem humanos (as pistas parecem indicar tratar-se do pico dos Açores).
Autópsia é uma cidade apinhada de gente em crise de ansiedade. Conforme as águas vão destruindo progressivamente o perímetro da cidade, os seres humanos acumulam-se nos restantes edifícios, existindo várias famílias por apartamento. O trabalho continua a existir, mas a acumulação cada vez maior de pessoas resulta em tempos infindáveis de deslocação. Por outro lado, percebe-se que a destruição causada pelas águas não vai parar e que pouco tempo lhes resta. Em contrapartida, há um espectáculo onde as pessoas podem expressar toda a sua frustração.
É neste cenário que um homem (desconhecido) começa a matar pessoas do topo dos telhados, em modo sniper. Mas apenas um de cada vez. O desespero é palpável. Algumas pessoas pretendem manter-se unidas e esperançadas, mas é impossível não existirem os que demonstram uma perspectiva mais cínica. Há também os que se aproveitam politicamente da situação, mantendo-se no poder de uma cidade nitidamente em declínio. Em paralelo, outro homem envia cartas em garrafas, sem saber que uma delas chegará à ilha desolada e instigará um jovem rapaz a fazer viagem.
No contexto da cidade de Autópsia, apinhada de gente e em risco de se afundar, a história alterna entre personagens e relacionamentos, explorando interacções e estados de espírito. A narrativa centra-se, sobretudo nas personagens e nos conflitos, resultando, por isso, numa leitura que, para mim, se tornou um pouco cansativa nalguns momentos.
Ainda assim, possui aspectos interessantes, sobretudo quando desenvolve resolver os conflitos, revelar os detalhes do enredo e fechar a história, com vários episódios mirabolantes, mas que respondem bem à tensão acumulada da narrativa e que concluem de forma adequada a história.
Apesar de não achar perfeito devido à intensa exploração de conflitos pessoais, o autor desenvolve várias personagens peculiares muito próprias e credíveis, muitas vezes desagradáveis. Em termos de história, o autor aproveita as circunstâncias do quase apocalipse para criar tensão sob as personagens, tanto pela desgraça eminente como pela sensação claustrofóbica e pela sobrepopulação. O resultado é uma leitura sobre fim do mundo com um tom e desenvolvimento diferentes do usual.
