O mais recente lançamento da Arte de Autor leva-nos a uma África do Sul de elevadas tensões políticas, resultado dos longos anos do Apartheid. É aqui que decorre um crime que vai justificar a linha narrativa, ao mesmo tempo que explora questões culturais e religiosas, demonstrando contornos políticos doentios.



A história começa por apresentar um assassinato – sendo que a vítima não é propriamente branca, vários outros policiais teriam negligenciado os normais procedimentos e optado pelo esquecimento. Não é o que faz Shepperd que começa com o que deveria ser o habitual – um autópsia e inquéritos; que o levam a explorar os curandeiros locais e tentar perceber a ligação entre as mezinhas e o jovem assassinado.
A narrativa é tensa. Por um lado exploram-se as tensões, onde colonos e colonizados se confrontam, anos após o Apartheid, realidade que, apesar de já não estar em vigor, deixou marcas profundas. As consequências ultrapassam os normais confrontos políticos, apresentando ramificações para a forma como uns e outros são tratados em sociedade, e resultando em actos violentos e redes de actividade criminosa.



Política e crime andam lado a lado, com um estado que, estando ausente de várias camadas sociais e realidades, abre a porta para outro tipo de jogos de poder. Tal é evidente no ambiente clandestino dos bairros, e na forma como a polícia parece negligenciar propositadamente alguns crimes, deixando-os sem a devida investigação e resposta – ou, até, permitindo a sua continuidade. A desigualdade económica e a exclusão são as condições que permitem a proliferação
Por outro lado, existe, claro. o crime, que resulta numa investigação policial. Esta deriva para localizações pouco saudáveis para policiais de pele clara, circunstâncias que Shepperd há-de contornar e enfrentar, tanto na procura dos curandeiros possivelmente associados ao crime, como no consequente envolvimento nas redes políticas de contornos criminosos.



O resultado é uma leitura movimentada, tanto pela investigação como pelas circunstâncias políticas (onde as facções instigam acções violentas no terreno) levando a narrativa por bairros densos, quintas onde a exploração se fazia sentir ou apresentando uma realidade mais idílica dos endinheirados.

