Retrospectiva 2018 – O Rascunhos

2018 no Rascunhos

Ultrapassando as 82 000 visualizações, este ano trouxe grandes novidades. Algumas programadas, outras inesperadas ainda que, por vários motivos pessoais, o número de leituras e de artigos tenha sido menor do que em 2017 (no caso dos livros lidos, foram 220 contra os 270 do ano anterior). Se tenho por objectivo a médio prazo aumentar a leitura noutros idiomas que não o inglês ou o português, ainda não foi este ano que o consegui.

Tal como tem sido habitual nota-se uma grande procura pelas obras que estão no Plano Nacional de Leitura mas eis um destaque para as entradas de 2018 para tiveram maior número de visualizações: A maldição de Hill House de Shirley Jackson, O Corpo dela e Outras Partes de Carmen Maria Machado, e Borne de Jeff Vandermeer. Na banda desenhada, O Ateneu de Marcello Quintanilha,  Beowulf de Santiago Garcia e David Rubín. e The Fade Out de Ed Brubaker e Sean Phillips foram os mais vistos. De destacar, também, Comer / Beber de Filipe Melo e Juan Cavia, entrada que foi publicada no final de 2017 mas que atingiu o topo de visualizações em 2018.

Este ano o Rascunhos cresceu em diversas direcções:

– Programa na Voz Online (rádio);

– Participação em eventos nacionais;

– Jogos de Tabuleiro.

O programa na Rádio Voz Online contou com 23 episódios, (também disponíveis na Mixcloud) onde aconselhei leituras e jogos de tabuleiro, ou onde entrevistei autores, editores e organizadores de eventos, centrando-me sobretudo na banda desenhada e na ficção científica.

As participações em eventos aumentaram este ano. A participação no Fórum Fantástico para as Leituras do Ano repetiu-se e ainda estive numa mesa sobre Podcasts literários. No Festival Bang! estive com a Inês Botelho a falar sobre o papel da mulher no fantástico e no Sci-fi LX falei de naves na ficção científica portuguesa e de robots literários com João Barreiros. No Literal (em Alenquer) falámos do futuro da ficção científica em Portugal. Na área da banda desenhada estive à conversa com Daniel Henriques na Comic Con e apresentei o Rascunhos na Tertúlia BD de Lisboa.

Para além de participar novamente como júri no concurso de mini conto da Saída de Emergência com a FNAC, participei no júri para os Galardões Comic Con. Este ano viu ainda a publicação de Quem chama pelo senhor Aventura?, o livro escolhido para a primeira edição do prémio Divergência (no qual participei no júri).

Conforme previsto o ano passado, concretizou-se o espaço para jogos de tabuleiro (com uma rubrica mais ou menos quinzenal, aos Sábados, onde falo de jogos e de experiências envolvendo jogos) e estabeleceram-se parcerias nessa área.

Perspectivas para o próximo ano

O ano passado previa começar a falar de música, mas ainda não se concretizou um espaço para esta componente. Espero começar, lentamente, a apresentar algo nesta secção. Em termos de programa de rádio já tenho alguns convidados previstos pelo que espero recomeçar logo em Janeiro.

E para o ano? Bem, participei na edição de uma antologia de Space Opera portuguesa, a sair em 2019 pela Editorial Divergência (tenho a dizer que fiquei muito surpreendida com a qualidade das participações) e tenho planos para lançar um novo projecto no primeiro trimestre.

O Elmo do Horror – Victor Pelevin

O Elmo do Horror, de Victor Pelevin, foi publicado na colecção de Mitos, uma colecção em que participaram vários autores conhecidos (como Margaret Atwood com Penelopiad, também publicado em português recentemente) com o objectivo de recontar um mito clássico. No caso de Victor Pelevin reconta-se a história do Minotauro sob uma forma moderna – um chat de conversa.

O livro começa com a conversa entre vários humanos que se vêem fechados num quarto desconhecido, sendo que, nesse quarto, existe um computador em rede com os restantes, através do qual comunicam. O quarto responde a todas as suas necessidades mais básicas mas, claro, que as diferentes pessoas tentarão sair dos seus quartos e explorar o que os rodeia, com o objectivo de escapar.

No chat, em que partilham as suas experiências, assumem nomes de personagens míticas – nomes que não podem escolher mas que correspondem a elementos da sua personalidade (sendo que qualquer tentativa de dizerem os seus próprios nomes é censurada). Presos, partilham os seus sonhos e os detalhes da exploração fora dos quartos – uma exploração que é muito mais psicológica do que física.

Carregado de detalhes que, à primeira leitura, não percepcionamos, as várias personagens apresentam-se como estereótipos ganhando o nome de romances ou de mitos, representando ideias e posturas que se cruzam e se confrontam. À vez vão explorando os labirintos que os rodeiam, labirintos que são diferentes para cada um, labirintos que são controlados por uma presença assustadora, que é referida como o equivalente ao Minotauro.

Mais interessante pela forma como é apresentado, do que pelo conteúdo, não achei O Elmo do Horror uma leitura cativante, mantendo a leitura principalmente por causa do jogo de ideias, em que aproveita personagens míticas para explorar arquétipos e projecções psicológicas.

O Elmo do Horror foi publicado pela Elsinore.

A ficção especulativa em Portugal – 2018

Se tinha sentido alguma evolução na ficção especulativa ao longo dos mais recentes anos, já este ano de 2018 achei que foi mais um ano de consolidação do que de crescimento. Algumas iniciativas terminaram (ou diminuiram em frequência) enquanto outras se iniciaram. Eis um apanhado dos eventos e dos lançamentos de ficção especulativa em 2018.

Eventos

2018 foi o ano em que terminaram os eventos regulares dos Devoradores de Livros. Os encontros decorriam mensalmente numa livraria e iniciaram-se na Leituria. Mais recentemente, passaram para a Tigre de Papel. De ocorrência mensal, estes encontros traziam um convidado com o qual decorria uma conversa na livraria até um pequeno jantar de convívio. Esperemos que outra iniciativa semelhante se siga.

Em termos de lançamentos de autores nacionais 2018 começou, tal como 2017, com um livro de João Barreiros, desta vez um livro a solo, Crazy Equóides. Este livro, publicado pela Imaginauta, começou como uma história para uma antologia erótica de ficção científica e fantástico. Não se realizando a antologia, a história acabou por ser publicada em livro isolado pela Imaginauta. O lançamento decorreu num cenário bem burlesco! (para os interessados, eis vídeos do evento).

Abril foi marcado pelo Festival Contacto, um novo evento de ficção científica e fantástico que se traduziu numa tarde bem passada para participantes de todas as idades. O evento possuiu componentes literárias, mas também uma escape room, jogos de tabuleiro e lutas de sabres de luz que deliciaram os mais novos. Não faltaram as salas de magia nem as bancas de livros e não faltou o apoio logístico (como bar e esplanada). Foi uma tarde recheada que poderá se repetir em 2018.

Na vertente de horror, o Sustos às sextas que se costumava alongar por 5 ou 6 sessões de periodicidade mensal, decorreu em 2018 apenas uma vez (sendo que não pude comparecer). Outro evento que voltou a ocorrer, mas julgo que com menor adesão, foi o Sci-fi LX – decerto por causa das obras que decorriam no pavilhão e que bloquearam a usual distribuição de participantes, convidados e bancas.

A Comic Con decorreu pela primeira vez em Lisboa e tive oportunidade de ir pela primeira vez. É um evento que dedica vários espaços a várias vertentes da cultura pop, ainda que nalgumas tenha condições insuficientes. Para nós foi um dia bem passado, mas cansativo, onde tive oportunidade de conhecer alguns autores de banda desenhada e ficção especulativa.

Já o Fórum Fantástico, este ano, alongou-se temporalmente e estendeu os seus tentáculos aos eventos EuroSteamCon e ao dia 5 de Outubro, com República Irreal e Fantástica (onde se falaram de realidades alternativas). O evento principal decorreu nos três dias habituais na Biblioteca Orlando Ribeiro e trouxe, como já é usual, o que de melhor de faz na ficção especulativa portuguesa. Este ano trouxe não um, mas dois convidados internacionais: Gillian Redfearn e Chris Wooding.

O Festival Bang! é outro dos eventos que marcou o ano, sendo já a segunda edição. O evento atrai muitos leitores e explora diversos interesses tendo um espaço para jogos de tabuleiro, magia (Harry Potter) e lutas de sabres de luz. Teve como convidada internacional Robin Hobb e foi dos eventos de ficção especulativa com mais público.

Logo no fim de semana a seguir ao Festival Bang! decorrer o Literal, um evento literário em Alenquer que, este ano, se dedicou à ficção especulativa. Entre os convidados estiveram João Barreiros, Luís Filipe Silva, Inês Botelho, Madalena Nogueira Santos. No mesmo fim de semana decorreu o ComCeptCON 2018, um evento ligado à Comunidade Céptica Portuguesa que tem como objectivo informar, de forma isenta, com base em conhecimentos científicos actuais.

De teor mais académico, Mensageiros das Estrelas decorreu, como é usual na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e trouxe como convidado, Mike Carey! Por sua vez, Margaret Atwood esteve em Portugal por ocasião do Fórum do Futuro. O ano terminou com o lançamento de Quem chama pelo senhor Aventura?, o livro escolhido para o prémio Editorial Divergência.

Lançamentos

Não vou fazer uma lista exaustiva de lançamentos – apenas realçar os que considero mais importantes. Começo com os lançamentos nacionais:

E continuo com os internacionais:

E os vossos? Que lançamentos de autores nacionais destacariam?

Resumos de outros anos

Novidade: Starlight – Mark Millar e Goran Parlov

Startlight é um livro de super-heróis, mas, neste caso, um herói idoso e cansado que já não possui o fulgor de outrora. Levado, na sua juventude, a outro planeta que consegue libertar de um ditador, passa o resto da sua vida na Terra, recordando feitos heróicos em que ninguém acredita. Agora, viúvo, é levado outra vez para salvar o mesmo planeta de outro déspota, mas a este homem, antigamente forte e destemido, resta apenas a rectidão de sempre.

Utilizando os clichés de super-heróis para apresentar uma história diferente, Starlight explora o herói enquanto ser humano, provocando uma leitura envolvente e emocionante, onde não faltam os usuais episódios de acção destruidora!

Starlight é um dos mais recentes lançamentos da G Floy, uma obra de Mark Millar que adorei e aconselho vivamente. Deixo-vos com a sinopse oficial e com algumas páginas deste volume:

Na sua juventude, Duke McQueen foi transportado para o distante planeta Tantalus, onde ajudou a salvar a população de um tirano terrível. Mas isso foi há quarenta anos, e entretanto ele regressou à Terra, casou com a única pessoa que sempre acreditou na sua história, teve filhos e tornou-se num homem velho, a quem já nada resta senão as suas memórias de um tempo mais glorioso… até uma noite em que uma astronave desce dos céus e aterra no seu jardim, a pedir-lhe que aceite regressar para uma última aventura! Será que Duke vai conseguir esquecer que já é um homem velho, e relembrar o herói que em tempos foi? Ah, e claro, cabeças e naves vão explodir, corpos vão ser cortados ao meio por lasers, e a contagem de corpos de vilões não vai parar de subir à medida que o leitor for virando as páginas do livro!

Originalmente publicado sob a forma de uma mini-série de 6 números, Starlight rapidamente se tornou num dos mais aclamados livros de Mark Millar. Uma tremenda, divertida, sentimental e bela homenagem aos grandes relatos de ficção científica dos pulps, desde o John Carter de Marte de Edgar Rice Burroughs, a heróis como Flash Gordon ou Buck Rogers, Starlight traz-nos algumas das mais belas personagens que Millar já construiu. Esta saga genuína e sentida vai capturar a imaginação dos leitores com a sua história de uma segunda oportunidade na vida, de luta entre a velhice e a juventude, e de aventura com A grande!

 

 

 

As melhores jogatanas do ano – 2018

Foram muitos os jogos a ir à mesa este ano!  Esta pequena lista reúne as melhores experiências em 2018, sendo que alguns dos jogos escolhidos não foram lançados este ano ou, nem sequer foram adquiridos este ano.

Azul / Azul: Stained Glass of Sintra

Sim, são dois jogos, bem diferentes. Mas os próprios autores se arriscam a que os consideremos no mesmo saco ao colocarem o mesmo nome, Azul. Azul foi, definitivamente, o jogo do ano. Vencedor do Spiel des Jahres, um dos mais conceituados prémios para os jogos de tabuleiro, Azul é de rápida aprendizagem e visualmente agradável. Foi dos jogos que mais jogámos a dois e achamos que a experiência difere bastante da que temos com mais jogadores.

Azul: Stained Glass of Sintra aproveita possui uma dinâmica semelhante na forma como se obtêm peças, mas apresenta mais diversidade dos padrões que temos de criar, tendo três formas diferentes de pontuar, o que permite desenvolver diferentes estratégias. Ainda o estamos a explorar, mas até agora constatámos que não é tão fácil integrar novos jogadores neste novo Azul e que não tem um mecanismo tão elegante quanto o primeiro.

Comentário mais detalhado ao jogo

Terraforming Mars

Eis um jogo que, em temática, é a minha cara. Terraforming Mars tem como objectivo transformar o planeta Marte para que este possa ser habitado por vida terrestre. Neste sentido temos três vectores que temos de aumentar: temperatura, oxigénio e água à superfície. Como o fazemos? Acrescentando organismos que façam fotossíntese, produzindo calor e criando zonas de água.

Terraforming não é um jogo rápido. A dois alonga-se por algumas horas. E, ainda assim, não desejo, neste momento, um início mais rápido (que leva muitos a adquirir uma expansão que acelera os primeiros momentos). Ao longo do jogo temos de ter em atenção as várias formas de atingir os objectivos e de pontuar – desde prémios a cartas com elevados valores. E, apesar de não ter ganho os primeiros jogos, adorei o conceito, a forma como se desenvolve e como permite criar diferentes estratégias.

Tiny Epic Galaxies

Contendo, também, um tema de ficção científica (a exploração e conquista de planetas) este jogo destaca-se pelo pequeno tamanho da caixa, a fácil aprendizagem e a rápida preparação. Após o primeiro jogo percebemos que tudo o que precisamos para preparar os tabuleiros se encontra bem assinalado nos próprios e o conceito é fácil de perceber. Os dados indicam as acções possíveis de cada jogador e mesmo que não seja a nossa vez podemos seguir as acções dos outros jogadores, fazendo com que os tempos mortos sejam diminutos.

Do ponto de vista gráfico é simples e agradável, os textos que o acompanham (principalmente nos planetas que indicam os poderes adicionais que estes conferem) são perceptíveis – por tudo isto e pelo seu fácil transporte,  Tiny Epic Galaxies tornou-se num favorito para viagens.

Comentário mais detalhado ao jogo

Camel Up

O jogo não é novo e já tem, até, uma segunda edição com mecanismos adicionais. Cá em casa temos a edição clássica e é muitas vezes escolhido para jogatanas com pessoas novas. O conceito costuma surpreender – trata-se de uma corrida de camelos, mas não são atribuídos animais aos jogadores. Ao invés disso, os jogadores apostam nos camelos e tentam influenciar o seu avanço recorrendo ao calculo de probabilidades – o resultado é divertido e inesperado.

Captain Sonar

Eis um Batalha Naval avançado. Neste jogo cada equipa de 4 jogadores comanda um submarino e cada membro da equipa tem uma função diferente – captar as comunicações do inimigo, activar armas, comandar a deslocação do submarino ou gerir o equipamento. O objectivo? Destruir o submarino inimigo. Para tal temos de ser mais rápidos e usar mecanismos que nos dêem pistas sobre a posição do adversário, enquanto temos de nos mover de forma cuidadosa para não revelarmos a nossa posição.

Century: Golem Edition

Jogo simples, este primeiro Century tem como objectivo a aquisição de cartas de pontos. Para tal, temos de juntar e converter pedras valiosas (ou especiarias, dependendo da versão) usando as cartas do baralho que vamos construindo.  Trata-se, portanto, de um jogo com deck building que nos obriga a programar jogadas para garantirmos a melhor sequência de cartas que nos permite atingir o objectivo. Esta edição tem um aspecto mais juvenil (que adoro) mas bastante mais chamativo.

The Castles of Burgundy

Ainda que não costume gostar de jogos com dados (quando são determinantes no avanço do jogador pelo seu valor absoluto) em The Castles of Burgundy, tal como Tiny Epic Galaxies, os dados são usados para indicar possibilidades que temos de gerir. Neste caso, os dados indicam grupos de peças que podemos escolher ou espaços no tabuleiro que podemos preencher. Convém, portanto, tentar usar as probabilidades a nosso favor quando construímos o nosso reino e manter em aberto forma de usar qualquer número que nos possa sair.

Gizmos

Adoro jogos que permitem o encadeamento de jogadas. Neste caso específico podemos construir mecanismos que permitem acções em cadeia e, numa mesma jogada, fazer duas ou três acções. Falta-lhe, no entanto, um mecanismo de recuperação para manter o interesse de jogadores que estejam muito atrás na pontuação. Ainda assim, é um dos meus jogos favoritos deste ano, por permitir uma sucessão de jogadas rápidas e ser simples.

Great Western Trail

Com mecanismos como deck building ou point to point movement (construção de baralho ou deslocação entre dois pontos), Great Western Trail é um jogo mais complicado em percepção (sendo que algumas regras não são de fácil entendimento) mas é um jogo que permite diferentes estratégias para atingir o seu objectivo – entregar boas combinações de vacas. Para tal temos um comboio que se desloca pelo mapa e que, pelo caminho, vai trocando e adquirindo novos animais, contratando trabalhadores e avançando por cidades diferentes. É um jogo longo que permite pontuar de diversas formas, obrigando a estratégias mais complexas.

Scythe

Com componentes visuais de Steampunk, Scythe remete-nos para o início do século XX colocando, nessa época, máquinas avançadas que permitem apimentar os confrontos entre jogadores. Trata-se de um jogo de construção que possibilita a conquista de território, a movimentação de peões num tabuleiro e a evolução dos tabuleiros de cada jogador – tabuleiros que são únicos e que possuem combinações diferentes de acções.

O jogo termina com a concretização de uma série de objectivos que nos obrigam a evoluir em diversos sentidos – a abrir novas possibilidades, a construir edifícios, ou a recrutar aldeões entre muitas outras coisas. Não é um jogo de confronto directo, ainda que possam existir pequenas lutas, mas também não é só um jogo de construção pois somos obrigados a explorar o mapa e a evoluir uma série de características, como popularidade.

JOGOS DE TABULEIRO EM APP

Patchwork

Visualmente apelativa, entre as apps de jogos de tabuleiro esta destaca-se por não ser uma adaptação directa do design do jogo de tabuleiro, possuindo um aspecto gráfico bastante próprio (e apelativo). A app está pensada para possibilitar uma boa experiência de jogo, mantendo todos os elementos que caracterizam o jogo de tabuleiro. Apesar de gostarmos do jogo de tabuleiro (que é específico para dois jogadores) a app tem sido mais usada, por possibilitar jogar em qualquer lugar.

Alhambra

Se a app de Patchwork é um excelente exemplo de uma boa adaptação de um jogo de tabuleiro ao telemóvel, a de Alhambra é exactamente o contrário. Demasiado colada ao jogo, tanto em termos visuais, como na forma como as componentes se apresentam no ecrã, sem grandes explicações das regras, esta app serviu para um simples objectivo – perceber se valia a pena comprar o jogo de tabuleiro (e valia), ainda que a experiência de jogo seja muito diferente.

Maria e Salazar – Robin Walter

Durante o Estado Novo foram milhares os portugueses que se viram obrigados a emigrar, em busca de melhores remunerações e condições de vida. Uns procuraram as grandes cidades, outros o Ultramar, outros ainda atravessaram a fronteira e deslocaram-se até França, apesar de desconhecerem o idioma e de terem nesse país poucos ou nenhuns conhecidos.

Maria trabalha para uma família francesa há largas décadas. Acompanhou o crescimento das gerações mais novas e a decadência dos mais velhos, e quase já faz parte da casa. De tal forma se habituaram à sua presença que é quando colocam a casa de família à venda a casa que se recordam da origem de Maria, levando um dos membros da família, o autor, a escrever a história da empregada portuguesa.

Mas para poder escrever sobre Maria, o autor tem, também, de investigar as condições em que esta deixou Portugal, os motivos que a terão levado a emigrar, bem como as condições em que viajou e que encontrou no novo país. O autor acaba por não se centrar apenas em Maria e explora um pouco mais sobre e migração portuguesa e o contexto histórico em que esta ocorreu.

Normalmente as famílias portuguesas não emigravam  de uma só vez. Os homens iam primeiro para procurar emprego, casa e estabilidade financeira. Só então viajava a restante família. A ideia era, sempre, retornar um dia a Portugal e muitos guardam dinheiro com este sonho em mente – constroem uma casa na terra e colocam as poupanças em contas portugueas. Mas os anos passam e adaptam-se à nova cultura e idioma, regressando a Portugal apenas por uns dias por ano.

O tempo passa e começam a aperceber-se que as probabilidades de voltar são baixas. Os filhos já são mais franceses do que portugueses e, os netos, então, vêm a portugalidade como algo distante e, até, exótico. Os emigrantes começam a sentir-se divididos entre retornar à terra que já não reconhecem como a sua infância, e permanecer em França, perto dos filhos e netos.

Robin Walter explora todos estes aspectos (comparando, até os novos imigrantes franceses com os anteriores portugueses), bem como a vida durante o Estado Novo – uma vida dura e pouco rentável a que muitos tentam fugir. Oficialmente, a postura do Estado português era dúbia. Se, por um lado, quem fazia passar os emigrantes pela fronteira era visto como um inimigo da nação (sendo estes alvo de alguma propaganda negativa), por outro, a emigração gerava fluxos monetários interessantes com o depósito das poupanças.

Fornecendo uma perspectiva algo diferente do usual, Maria e Salazar debruça-se, sobretudo, nas dificuldades de quem abandona o país e tem de gerar rendimentos para sustentar uma família. Não faltam as tiradas à figura típica da mulher portuguesa, nem a melancolia do emigrante que deixa de ter terra para a qual voltar.

Não falta, também, o contexto em que os portugueses deixaram Portugal (fugindo de um país pobre onde faltam as oportunidades de progressão económica) nem a perspectiva mais pessoal de quem teve uma empregada portuguesa e se apercebeu de uma cultura diferente. O autor intercala estes aspectos com elementos históricos mostrando, também, os bairros em que os portugueses viviam, em França.

Não esperem, em Maria e Salazar, uma história comovente. Ou muito pessoal. É sobretudo um retrato interessante dos emigrantes portugueses, bem contextualizado, que espelha uma realidade que se repete ao longo dos séculos com outros povos. Maria serve como motivo para tratar do tema e a partir dela o autor investiga e desenvolve vários elementos associados à migração dando o exemplo português.

Maria e Salazar foi publicado em Portugal pela Polvo.

The Wake – Scott Snyder e Sean Murphy

Em The Wake os humanos entram em guerra com uma espécie sapiente – uma espécie que se cruza com a humana de diversas formas, ainda que a memória de tais episódios não esteja presente.  O livro começa com a contratação de uma especialista em sons de cetáceos que viu a sua carreira colapsar pela entidade patronal. Com a carreira perdeu a guarda do filho pelo que quando a abordam com um novo projecto, prometendo resolver alguns dos seus problemas pessoais, a especialista aceite prontamente.

O que a espera não é uma baleia. Antes um ser quase humano, uma espécie de sereia bastante agressiva que emite fortes sons e é capaz de envenenar e hipnotizar humanos. O estudo do espécime capturado rapidamente se torna numa invasão destes seres que consegue subir o nível das águas de forma extraordinária, e assim eliminar grande parte da área habitada pelos humanos.

Dois séculos depois apresenta-se a nova realidade. Os humanos persistem nas poucas áreas não alagadas, em guerra com esta espécie marinha, sob uma espécie de ditadura que impede a livre comunicação e deslocação. Entre os sobreviventes existe o mito de um mundo humano debaixo das águas, um mundo que resiste aos invasores e que alguns procuram insistentemente.

Vencedor de um Eisner em 2014, esperava mais do ponto de vista narrativo deste volume. Se a primeira parte é coesa, decorrendo como uma história de terror que explora bem a criação de tensão; a segunda parte parece perder-se num futuro em que existem várias linhas narrativas possíveis (um regime totalitário, um mito que pede para ser explorado e um inimigo que justifica alguns dos acontecimentos) mas que acaba por não investir devidamente em nenhuma delas.

Visualmente competente e com um estilo apropriado aos momentos de terror marítimo, The Wake começa bem, mas desilude nos confusos episódios finais, entre ditaduras, piratas, e pistas para uma teoria que explique a razão do confronto com os humanos – razão esta que acaba por ficar em aberto, ainda que se revelem alguns detalhes da origem e ligação entre ambas.

Resumo de Leituras – Dezembro de 2018 (2)

208 – Economix – Michael Goodwin e Dan E. Burr – Sem se perder em detalhes mais técnicos, Economix apresenta uma série de conceitos de Economia bem como a sua evolução ao longo dos séculos. Apresenta, também, no final, uma visão interessante das crises económicas, e a forma como uma série de instituições tem agido para <aumentar as grandes riquezas, deixando os restantes cada vez mais pobres;

209 – O.P.A / Business Rules – Philippe Francq e Jean Van Hamme – O segundo volume de Largo Winch apresenta o jovem milionário sob outra luz, mostrando que, até ele, pode ser enganado. A riqueza e posição influente fazem de Largo um alvo preferencial, tanto por mulheres em busca de um casamento proveitoso, tanto por outros que pretendem usá-lo para sair de difíceis situações financeiras;

210 – Humanus – Antologia da Escorpião Azul em que os seus autores publicados constroem pequenas histórias. O conjunto está muito satisfatório e existem boas histórias quer na perspectiva visual, quer na perspectiva narrativa;

211 – Maria e Salazar – Robin Walter – A história centra-se numa emprega da família – uma empregada que terá saído de Portugal durante o Estado Novo por forma a encontrar melhores condições de vida. Para se compreender a história da empregada há que explicar o contexto e, como tal, o autor apresenta alguns pontos chave da política de Salazar.

Rascunhos na Voz Online – Mike Carey

Mike Carey esteve em Portugal por ocasião do evento Mensageiro das Estrelas. A organização disponibilizou condições para que se realizasse a entrevista e aproveitámos a oportunidade para falar com este autor de banda desenhada e ficção científica que tem produzido, também, guiões para filmes.

Mike Carey é conhecido, no mundo da banda desenhada por séries como The Unwritten e Lucifer, tendo, também, adaptado Neverwhere de Neil Gaiman. Já trabalhou para a Marvel e para a DC e tem vários projectos em lançamento. Para além da banda desenhada, Mike Carey é o autor de A Rapariga que sabia demais, história de ficção científica que escreveu em conjunto com o script para cinema que conseguiu concretizar.

Para além de ficção científica e de banda desenhada, Mike Carey publicou, ainda, uma série de fantasia em conjunto com a esposa e a filha (também escritoras) que se tornou bastante conhecida no meio.

Deixo-vos com a ligação para a entrevista com o autor.

Jogos ao Sábado – Pega Bicho

Pega bicho é uma das mais recentes apostas da MEBO para os mais jovens, constituindo um jogo que pode integrar jogadores de todas as idades! Colorido e divertido, em Pega Bicho temos de capturar insectos com uma língua de camaleão (uma língua semelhante aos antigos pega-monstros)!

Mas não podemos apanhar qualquer insecto! O objectivo é conseguir, com a nossa língua de camaleão, capturar o insecto designado pelos dois dados, um que indica a cor do insecto e outro que indica o tipo de insecto. E atenção! Nada de apanhar uma vespa! Estes pequenos insectos penalizam quem os captura!


Após rodar os dados, os jogadores têm de se apressar para localizar o insecto pretendido e capturá-lo antes dos restantes jogadores. Quem conseguir ganha uma moeda e o vencedor é o primeiro a conseguir reunir cinco moedas. Se a dois jogadores já é um jogo engraçado, a quatro ou mais passa a ser uma divertida confusão em que todos tentam, ao mesmo tempo, atirar sob um insecto, entrelaçando as línguas!

Apesar da idade indicada (+ 6 anos) consegue-se jogar facilmente com crianças de menor idade sem qualquer adaptação e rapidamente se tornou um dos favoritos para jogar em família. Ainda que seja um jogo de reconhecimento e destreza consegue ser jogado de forma equilibrada por diferentes pessoas e proporciona grandes momentos de diversão (cuidado com os insectos que podem voar em todas as direções na tentativa de se tentar ser o mais rápido – no final do jogo existiam insectos de cartão do outro lado da sala).

Aconselho vivamente Pega Bicho como um jogo óptimo para integrar os jogadores mais novos nos jogos de tabuleiro, pela sua facilidade de compreensão, diversão e rapidez!

Resumo de Leituras – Dezembro de 2018 (1)

 

204 – Princípio de Karenina – Afonso Cruz – Com menos elementos fantásticos do que é usual em Afonso Cruz, Princípio de Karenina é, também, o seu livro mais linear, contendo uma história contada pela primeira pessoa, um homem que conta a sua vida à filha, sob a forma de carta, mostrando como alguém pode viver toda a vida com medo do exterior;

205 – O Comboio dos Órfãos – Tomo 2Philippe Charlot e Xavier Fourquemin – Cada volume contém duas histórias. Neste segundo tomo detalha-se a vida de Lisa e Joey, mostrando como os interesses de quem adoptou as crianças nem sempre eram os melhores. Ambos fogem das suas novas famílias adoptivas em busca do irmão perdido de Joey;

206 – Injection Vol.1Ellis, Shalvey e Bellaire – A existir uma inteligência artificial, porque pensaria como nós? Na realidade descrita em Injection o mundo das lendas cruza-se com o real criando zonas de circulação impossível. Enquanto alguns tentam terminar com estes pesadelos vivos, outros tentam afastar-se das obrigações que os esperam;

207 – Os segredos de Loulé – João Miguel Lameiras e João Ramalho-Santos – Num futuro distante a humanidade regressa ao planeta Terra para pesquisar sobre o seu passado. Ao regressar encontra um arquivista que se mantém vivo após séculos, graças a elevada tecnologia, e que conta a história de Loulé ao longo dos séculos.

O Comboio dos Órfãos – Ciclo II – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin

Há dois anos tive a oportunidade de comentar o primeiro tomo de O Comboio dos Órfãos, que adorei. Trata-se de uma série francobelga lançada pela Arcádia que retrata a vida das crianças abandonadas nas grandes cidades americanas nos anos 20. Estas crianças eram levadas para o interior do território americano onde lhes arranjavam famílias de acolhimento. Mas se algumas famílias tratam estas crianças como membros das suas famílias, noutras são uma espécie de escravos, habitantes de segunda categoria sem condições nem possibilidades de educação.

No primeiro volume (que, tal como este, reúne duas histórias) conhecemos a história de dois rapazes cujo destino foi trocado, sendo que um deles, com esta troca, perde a irmã. Os irmãos, ainda que não sejam órfãos, são abandonados pelo pai que não tem condições para os educar. Apesar da situação trágica em que se encontram as crianças, os episódios são envoltos em pequenos detalhes cómicos e apresentam pequenos diálogos quase inocentes que refletem a visão infantil, menos prática, mas mais pura dos acontecimentos. A dura realidade percebe-a o leitor que sabe algo do destino que os espera.

Neste volume conhecemos, mais detalhadamente, a história de Lisa e de Joey – Lisa, uma rapariga de quinze anos, que percebe muito bem a distribuição dos rapazes e que ajuda a cuidar deles. Não espera é ela, também, ser adoptada, mas não com o intuito de fazer dela uma filha, antes uma noiva – o “dono” de uma cidade mineira quer casar e celebra o futuro casamento na taberna local. Por sua vez, Joey foi adoptado por uma família mexicana que o trata bem, mas vê-se arrancado dessa família pelo desejo de um bêbado em ter alguém que trabalhe para ele – o motivo para que os interesses do bêbado possam ser sobrepostos aos da família mexicana? Ser branco.

Ambos se encontram na taberna onde se celebra o noivado e decidem fugir para Nova Iorque em busca do irmão de Joey. Mas como podem viajar sem dinheiro? Ajudados por alguns que pouco têm, ludibriando a entrada em comboios e pedindo esmolas, conseguem encontrar o homem que distribuiu as crianças e que deveria saber qual o destino que deu a cada um. Na realidade a investigação vai-se tornar mais difícil e carregada de imprevistos.

Oscilando entre as perspectivas de várias personagens e as duas linhas temporais (aquela em que decorre a distribuição de crianças, e uma mais actual em que as crianças se transformaram em idosos), O Comboio dos órfãos é uma série carregada de sentimentos contraditórios. Por um lado, as personagens são retratadas com pequenos exageros, tornando-as caricatas e de fácil empatia, por outro, a situação em que se encontram é psicologicamente pesada. A combinação das duas componentes torna a história sublime e não é por acaso que, após a leitura do primeiro volume em português, adquiri a restante série em francês, voltando agora ao português com este segundo volume duplo (os volumes da edição francesa possuem apenas uma história cada um).

A série é publicada em Portugal pela Arcádia.

Outros volumes da série

Jogos ao Sábado – Tiny Epic Galaxies – Scott Almes

Confesso que dados num jogo de tabuleiro são, normalmente, motivo para me afastar dele – não gosto quando os jogos determinam, de forma absoluta, o avanço de uma personagem ou o prosseguir de um jogo. Mas estou a falar, claro, se dados com valores absolutos, em que o 6 determina um avanço muito superior do que um 1, deixando-se à sorte o que acontece. Talvez por isso, demorei algum tempo a experimentar o Tiny Epic Galaxies, sendo que o que me convenceu foram as várias críticas positivas ao jogo. Neste caso os dados fornecem possibilidades – acções que podem ser efectuadas (como no Castles of Burgundy ou o Rajas of the Ganges); e são uma componente que tem de ser bem gerida, mantendo em aberto várias possibilidades para conseguirmos prosseguir.

Em Tiny Epic Galaxies o objectivo é fazer pontos. Pelo menos mais do que o(s) nosso(s) adversário(s). Como pontuar? Evoluindo o nosso Império, conquistando planetas e concretizando um objectivo secreto. Consoante as acções disponibilizadas pelos dados ganhamos energia ou cultura, lançamos naves, avançamos na conquista de um planeta ou usamos e evoluímos as capacidades do nosso Império. A evolução do Império desbloqueia novas naves e dados permitindo mais acções.

A cada turno lançamos vários dados, sendo que a ordem pela qual os usamos permite combinar e optimizar recursos e, consequentemente, concretizar pontos. Mas um dos elementos mais interessantes é podermos copiar as acções que calham nos turnos dos outros. O podermos realizar a mesma acção enquanto decorre o turno dos outros jogadores obriga a que os jogadores se mantenham atentos durante todas as jogadas e diminui os momentos de pausa.

A cada jogo somos obrigados a pequenas adaptações estratégicas, usando os objectivos privados e os diferentes planetas que conquistamos. Por outro lado, o jogo é equilibrado a 2 ou a 4 jogadores, aumentando o número de planetas disponíveis, sendo que a 4 tem de haver uma melhor gestão das acções que queremos copiar.

Optimizado para caber numa pequena caixa, Tiny Epic Galaxies consegue a proeza de ser um jogo interessante, de rápida preparação (a simbologia é simples e perceptível)  onde se integram facilmente novos jogadores. Pelo seu tamanho tornou-se um dos favoritos para levar em viagem e levou-nos a explorar os restantes Tiny Epic!

(nota final – o jogo tem, também, um modo a solo que não testei)

Watchers – Luís Louro

Na realidade futura apresentada em Watchers um grupo de jovens (Watchers) usa a tecnologia para criar canais que expõem o mundo que os rodeia. Sem filtros, sem análises nem contextos, as filmagens são divulgadas para todos os que as quiserem ver. Começando com episódios fofinhos e caricatos, a busca de mais seguidores e de mais reacções nas redes sociais depressa leva a que sejam filmadas situações mais inusitadas, ridículas, perigosas e violentas.

Sentinel é um dos mais conhecidos Watcher – um jovem anónimo, sem rosto, que consegue captar os episódios mais curiosos e mais populares. Mas a que custo? Sentinel não se remete apenas ao papel de observador e a vontade de aumentar a sua populariedade leva-o a provocar situações de conflito com as quais alimenta o seu canal.

De interferir a provocar, Sentinel passa a tentar exercer justiça pelas próprias mãos, mostrando-se como uma espécie de justiceiro, omnipotente, que tudo vê e tudo pode fazer. Mas não por muito tempo. As suas intervenções já provocaram o envolvimento da polícia, e pouco falta para ser descoberto.

Watchers, de Luís Louro, permite muitas leituras. Primeiro, o mundo futurista que retrata é tão deprimente quanto o nosso, carregado de jovens sem futuro ou sem destino, que não sabem o que fazer da sua vida e como ultrapassar as contrariedades com que se deparam. Por outro, trata-se de uma crítica à sociedade actual, que se centra, excessivamente, nas redes sociais, e para as quais se projecta uma realidade e para a qual se criam expectativas.

 

Em busca de comentários, aceitação e atenção, há quem perca a noção do que é certo e errado, e exponha a privacidade – a sua e a dos outros. Por outro lado, a possibilidade de ter um feedback imediato leva ao à divulgação, sem filtros nem contexto, de notícias e interacções, por uma única perspectiva, viciada. As notícias passam de informação imparcial a pedaços de novelas quotidianas, cedendo-se aos desejos mais primitivos de sexo e sangue.

Sentinel produz, na prática, um misto de reality show e programa noticioso, elevando o seu canal a milhares de visualizações. Mas a que custo? Até que ponto o que retrata é real ou provocado? Da mesma forma, se pode transpor esta crítica para o que vemos nas redes sociais – divulgações de perspectivas viciadas, notícias que misturam a verdade com o ficcional, desinformando ao invés de informar. Watchers leva esta escala esta componente, levando-a ao extremo, num enredo bem composto, contínuo,  lógico e coerente.

Watchers foi publicado em Portugal pela Editora Asa e possui duas versões, uma com título a branco e outra com título a vermelho, duas versões que apresentam finais diferentes. A edição que li e comentei é a vermelha. De realçar, também, que a par com as notícias de Sentinel são apresentados alguns comentários dos seguidores, sendo que alguns dos seguidores ficcionais possuem nomes associados a personalidades reais da banda desenhada.

Rascunhos na Voz Online – Inês Garcia e Tiago Cruz

 

Os autores de Sintra, Inês Garcia e Tiago Cruz, falaram dos seus projectos na banda desenhada, bem como das suas principais influências e à forma como trabalham a imaginação para produzirem histórias de horror fantástico. Sintra foi publicado pela Escorpião Azul. Deixo-vos a ligação para o programa.

Revival – Tim Seeley e Mike Norton – Vol.2

Revival centra-se numa zona dos Estados Unidos da América em que a morte desapareceu. Ou melhor, as pessoas continuam a sofrer acidentes graves, mas os seus corpos recuperam em escassos segundos e a vida continua. Alertadas para tal fenómeno, as autoridades americanas colocam a região em quarentena – trata-se de um segredo que pode colocar o mundo em pânico.

Para as pessoas da região a vida quase que continua como anteriormente. Quase. É chocante ver alguém surgir ileso do seu funeral, é uma fonte de medo ver alguém sofrer um acidente e retomar a vida como se nada fosse. E o medo provoca violência. Sucedem-se casos macabros, de exportação ilícita de partes dos corpos dos que revivem (para serem consumidos) e de agressões violentas. A humanos e a animais.

Ao longo deste volume revelam-se mais alguns detalhes sobre o fenómeno, e sobre umas figuras fantasmagóricas que seguem os que reviveram – figuras que tentam capturar novos corpos, que conseguem gemer algumas palavras, mas que fogem a confrontos com os humanos.

Enquanto o mistério se adensa, uma das mais conhecidas policias da região é levada pelo FBI a uma grande cidade, a fim de perseguir alguém que terá conseguido sair da zona de quarentena – alguém que enloqueceu com as recentes circunstâncias e que se deixa comer por aqueles que procuram a eternidade.

Este volume termina com um fabuloso cross over com a série Tony Chu, em que o conhecido investigador com capacidades associadas à comida é levado à região para uma investigação peculiar sobre pedaços de cadáveres humanos. Trata-se de um episódio mais cómico em que reconhecemos as características destas personagens.

Outros volumes da série

 

Princípio de Karenina – Afonso Cruz

Princípio de Karenina é bastante diferente dos restantes livros de Afonso Cruz que li.  E li bastantes. É o menos fantástico (ou com elementos fantásticos). É o menos deambulatório, deixando de oscilar entre personagens, curiosidades e tempos diferentes, para contar a história de uma única personagem, numa sucessão temporal sem saltos.

A personagem em si, é peculiar – e é pela voz da própria que começamos por acompanhar a sua infância, ver como faz amigos e inimigos e como se relaciona. Mas, ainda que tenha um pé lesionado, não e isto que mais o distingue. Antes a forma como o pai se relaciona com o exterior e a forma como o contamina.

O meu pai, sei disso hoje, resumia-se a uma palavra: medo. Toda a aversão ao estrangeiro, ao inusitado, à novidade, ao que está além, era apenas um pânico visceral do mundo, que ele disfarçava transformando esse medo trágico em ética conservadora, em solidez moral. Parecia seguro e inabalável, mas é assim que o medo se veste para sair à rua, para ir à missa, para comentar o tempo e as doeças das vides e o trabalho do lagar.

O exterior é, assim, imoral. Não só o estrangeiro, mas o que se encontra para além da vila. O que está fora de casa. Tudo o que é novo, estranho, diferente. Tudo o que está para além da casa familiar. É indigno. Pouco sério. Contaminante. Assim se prenuncia o pai. Assim cresce o filho, isolando-se, quebrando esse sentimento por raras vezes, com aquela curiosidade típica do crescimento que é quebrada por completo.

– Nunca saia do seu país, menino, nunca saia de casa mais do que o estritamente necessário, que é perigoso – Voltou a fechar os olhos e a levar o polegar e o indicador às pálpebras. – É muito perigoso – sublinhou, com os olhos fechados. – Se precisar de alguma coisa de fora, mande vir pelos correios. Sente-se à lareira, que não há nada melhor, nem mais importante.

Este discurso e postura há-de marcar o crescimento do homem que narra a história. Mas há-de ser, precisamente do estrangeiro, que vem a novidade e aquilo que quebra este cinzento, aquilo que irá dar outros sentimentos, menos cinzentos à sua existência. Até lá, o homem conta como se formou, como fez um grande amigo e dele se afastou, incapazes, os dois, de ultrapassar as diferenças que vão surgindo ao longo da vida. Incapazes de se entender (ou de o tentar) – um deles fixo numa paixão, ou outro cego a este sentimento.

Princípio de Karenina é, assim, um livro mais ligado à narrativa de uma história, um livro que fala do surgir do isolamento e da passividade em procurar a felicidade. Mas, também, do medo do que é diferente, do receio em conhecer e no refúgio do que é caseiro – elementos que levam ao arrastar de decisões e ao definhar das pessoas (e, neste caso, das personagens).

De leitura fluída, agradável, Princípio de Karenina fixa-se no seu fio condutor (tal como a personagem se fixa ao conhecido) para tecer uma história de arrependimento e obsessão, uma história de quebra temporária que demonstra que o que vale a pena são os fugazes momentos de fuga ao conhecido.

Outros livros do autor

 

Almanaque – Curtas de BD – André Oliveira e Vários Artistas

Almanaque, a mais recente aposta da Bicho Carpinteiro, reúne várias histórias criadas por André Oliveira na qualidade de narrador, e por vários desenhadores. Algumas destas histórias foram criadas para a Cais, publicação para a qual André Oliveira produziu regularmente durante algum tempo, e outras são inéditas.

Tendo sido criadas em alturas diferentes com objectivos distintos, as histórias oscilam em temas e tons criando uma amostra bastante diversa das possibilidades narrativas compostas por André Oliveira. O volume abre com a arte de André Diniz, e passa à de Rui Lacas (ambas facilmente reconhecíveis em estilo), seguindo-se uma reformulação moderna de Volta ao Mundo em 80 dias (com desenhos de Phermad).

Entre as histórias encontramos narrativas de ficção científica (com uma invasão alienígena que critica a paixão dos humanos pelos desportos, ou com um primeiro contacto embaraçoso), narrativas cómicas (onde se retratam as impossibilidades de execução de várias tarefas por um T-Rex ou um dentes de sabre, por exemplo) e de fantasia (com velhos e novos deuses).

Não faltam os temas mais mundanos, como a diversidade da vizinhança, a fanfarronice ou a velhice. Existe espaço para a morte e para a saudade, para a confidência e para a família. Explora-se a cidade e o campo. O passado e o futuro. Cruzam-se conceitos e ideias, ironiza-se em tiradas imaginativas, recolhe-se o pensamento em perspectivas mais íntimas.

Tudo isto, em pouco mais de 60 páginas, muito bem aproveitadas, em que André Oliveira explora vários tons e temas, acompanhado por diversos artistas que ajudam a conferir, a cada história, uma aura muito própria. Tal como estados de espírito, estas histórias oscilam e fazem oscilar humores, aconselhando-se, por isso, que a sua leitura se faça aos solavancos. Uma história de cada vez.

Entrevista com André Oliveira

Outras obras do autor

O Feminino no Fantástico

Antologia de contos de ficção científica e fantástico onde o corpo da mulher tem papel fundamental

Desde o passado Fórum Bang! (no qual participei, com a Inês Botelho, numa palestra sobre a mulher na ficção especulativa) que ando com vontade de espelhar alguns pensamentos na forma escrita. Sim, a representação da mulher tem-se alterado nos últimos anos. Porquê? Será a moda do politicamente correcto? Bem, mais do que uma moda, a minha percepção é que resulta da pressão do próprio público, farto do mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

Porque digo isto? Bem, dou-vos como exemplo bastante óbvio as nomeações para os prémios Hugo. Para quem não está a par, aqui há uns anos surgiu um grupo de escritores de ficção científica revoltado com o afastamento dos protagonistas ou escritores tradicionais, brancos hetero. Estavam a ser nomeados, e premiados, sucessivamente, autores diferentes deste padrão original.

 

 

 

 

 

 

 

Este grupo de autores, designado como Sad Puppies, não só fizeram campanha pela ficção científica de homens para homens (ocidentais e hetero, claro) como tentaram concentrar votos em obras específicas. O resultado? Conseguiram algumas nomeações mas não o prémio, existindo algumas categorias em que o resultado foi até “sem premiado”. Pelo meio ainda houve uma nomeação curiosa a Chuck Tingle, um autor de pornografia homossexual de ficção científica, que aproveitou para parodiar o destaque, numa obra curiosa.

 

 

 

 

 

 

 

Bem, julgo que a resposta do público a este movimento demonstra que a verdadeira pressão sobre a indústria literária não é tanto pelo politicamente correcto, mas pela vontade, do público, em ver diversidade nas personagens, e ler obras que representem pessoas e não os típicos estereotipos de heróis, há muito ultrapassados. Personagens que se parecem com pessoas, densas, variáveis e, sobretudo, representativas da realidade que nos rodeia. Representativas da diversidade.

 

 

 

 

 

 

 

Não estou a falar, portanto, só de uma representação diferente do feminino, mas, também, uma diferente representação do masculino. Trata-se de criar histórias mais equilibradas em termos de papéis – nem as personagens femininas têm de ser ridiculamente fortes e destemidas para poderem ser protagonistas, abdicando de sentimentos para poderem ser tomadas a serio; nem as personagens masculinas têm de ser a personificação da certeza e da autoridade, podendo ser apenas pessoas com as suas dúvidas, incertezas e sentimentos.

 

 

 

 

 

 

 

Claro, que na componente feminina, outras questões de levantam. O uso do corpo como elemento para apimentar uma história (neste detalhe já existem exemplos que usam o corpo feminino e masculino) ou o consentimento no uso desse corpo. Não é, totalmente de estranhar que as histórias tradicionais, como as da Disney, os contos de fadas (sobretudo as mais recentes versões Disney), de princesas indefesas e passivas, tenham de ser revistos. Habituámo-nos a aceitar, sem questionar, os papéis que são concedidos às mulheres.

 

 

 

 

 

 

 

Detalhando. Se pensarmos bem, que tipo de homem encontra uma mulher, morta ou inconsciente, no meio de uma floresta e a beija? Que papel tem a mulher na escolha do seu parceiro , se se pressupõe que o príncipe que a salva a possui – sem se conhecerem previamente, a princesa passa de cativeiro a cativeiro. Numa gaiola dourada, claro. Mas nem por isso menos questionável. Que tipo de mensagem passa uma história onde um príncipe não reconhece a mulher pela qual se apaixonou e a procura pela medida de um sapato?

 

 

 

 

 

 

 

Sim, estas histórias reflectem a época em que foram construídas. Mas pouca ou nada se tem feito para as adaptar à realidade que nos rodeia. Quantas características ditas femininas não resultarão das expectativas que nos rodeiam? E o mesmo se pode dizer dos rapazes que não podem expressar sensibilidade ou sentimentos sem serem gozados. As personagens têm de evoluir – e não só as femininas. Deixo-vos com esta provocação. E, espero, algo para pensar. E debater.