Novidade: Get Jiro! Sangue e Sushi

Eis mais informação sobre o segundo volume Get Jiro! publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público:

No primeiro livro, a história passa-se numa Los Angeles futurística, Jiro não hesita em atacar clientes que ousam pedir rolos Califórnia ou uma salada caprese em Janeiro. No segundo volume, que saiu em banca a 15 de Junho, a Levoir e o Público apresentam Get Jiro! Sangue e Sushi, nele Bourdain mostra o começo da carreira de Jiro, numa Tóquio distópica dominada por gangues. E, claro, muito sushi e culinária. A prequela é parceria de Bourdain com Alé Garza e Joel Rose.

Tal como no volume um, a principal personagem é Jiro. Um autêntico guerreiro que defende com unhas e dentes a cozinha tradicional de Sushi.

O livro retoma a história do jovem cozinheiro de sushi e faz um regresso ao passado para mostrar a vida em Tóquio, onde Jiro está a aprender o seu ofício. Filho mais novo de um dos  mais  poderosos chefes da yakuza – máfia japonesa, está sendo preparado pelo pai para assumir o seu império do crime, mas o jovem  sente-se  dividido entre  a  lealdade  ao  pai  e aos  planos  que  ele  tem  para  si, e  o  seu  desejo de  se tornar  num  chef  de  sushi.

Mas, quando a sua família empreende uma ambiciosa tentativa  para  dominar  o  submundo do  crime  de  Tóquio,  Jiro  tem de seguir o seu pai, ou arrisca-se a ver Ichigo, o seu meio-irmão, um maníaco sádico, que gosta de matar, roubar-lhe o protagonismo…Uma  versão  sangrenta  de  um conto  clássico  de  crime  e  de vingança,  misturado  com  um sentido  de  humor  irreverente e  uma  visão  de  uma  cultura foodie  futura,  tudo  temperado com os sabores que só Anthony Bourdain  conseguia  cozinhar.

Entre cegos e invisíveis – André Diniz

Entre cegos e invisíveis é o mais recente livro de André Diniz, autor de origem brasileira que reside actualmente em Portugal e que tem publicado diveros livros no nosso mercado através da Polvo (sobretudo, ainda que tenha publicado na colecção Novela Gráfica o livro O Idiota, adaptação do romance de mesmo nome). O mais recente livro dá-nos a conhecer uma família marcada pela ausência do pai – um herói militar que, como pai, pouco se destacou.

O herói morreu. O funeral estava, como seria de esperar, apinhado de pessoas que pretendiam prestar a última homenagem. Mas entre os presentes encontravam-se os que, segundo a moralidade local, eram uma nódoa no passado do militar – os filhos ilegítimos.

A história é contada pela perspectiva destes filhos que cresceram sem presença do pai e começa com o regresso do funeral. Como ilegítimos a presença no funeral foi incómoda, ignorada pelos familiares e amigos do herói, facto que recordou os ressentimentos do passado.

Quando o carro fica sem combustível e são obrigados a retornar a pé, até à última bomba pela qual tinha passado, surge a necessidade de falar desses mesmos ressentimentos e da forma como cada um deles lidou com a ausência do pai, recordando as circunstâncias em que cresceram.

Num local onde a moralidade se baseia nas aparências tradicionais de uma família baseada no matrimónio de uma vida, a existência de filhos fora do casamento é algo que deve ser escondido e mantido em segredo. Mesmo que tal implique não dar o devido apoio aos filhos ignorados.

A força das aparências é de tal forma que os familiares e amigos defendem a manutenção da imagem perfeito em detrimento do reconhecimento daqueles jovens. Esta mentalidade condena à inexistência social os jovens que nascem destes relacionamentos, impedindo-os de terem um futuro normal, e negando-lhes o apoio que deveria ser normal de um progenitor.

Mas em Entre cegos e invisíveis, André Diniz faz muito mais do que tocar neste tema, desenvolvendo diferentes personagens e dando-lhes diferentes complexidades e problemas. Como adultos, estes jovens rejeitados, possuem dramas que vão para além da inexistência do pai, ainda que este facto seja uma sombra na forma como se irão relacionar com os outros.

Apresentando o estilo que já lhe é conhecido, André Diniz apresenta uma história bastante diferente das anteriores, com uma narrativa movida por um simples evento que justifica todas as conversas e acções posteriores. A ausência de combustível serve como motor para todo o desenrolar que se segue, mas, na prática, é apenas a justificação para que todos os conflitos sejam expostos.

Entre cegos e invisíveis de André Diniz foi publicado em Portugal pela Polvo.

Bug – Vol.1 – Enki Bilal

Enki Bilal é dos meus autores favoritos de banda desenhada. E se a escolha temática (de ficção científica) parece bastante óbvia, há que acrescentar a qualidade dos desenhos numa narrativa que cruza uma abordagem cínica ao futuro com o sentimento de solidão provocado pela obsessão pela tecnologia. Mas, e se a tecnologia deixar de funcionar?

Em Bug um estranho acontecimento provoca o apagar de todos os registos digitais. Não há discos rígidos nem bases de dados e, consequentemente, não há internet e todos os mecanismos que se baseiam em informação deixam de funcionar. Tal cenário provoca sérios problemas no mundo industrializado neste futuro pouco distante – às próteses electrónicas deixam de funcionar, a grande maioria das comunicações também.

O mundo está, como seria de esperar, um caos. Mas não menos estranhos são os fenómenos que decorrem fora da Terra, numa nave espacial em que os poucos humanos apresentam comportamentos bem mais preocupantes – e relacionados com o desaparecimento de qualquer memória digital!

Para além da capacidade de transmitir o sentimento do cidadão comum que se vê sem net nem todo o suporto tecnológico a que está habituado, Bug apresenta pequenos detalhes curiosos que espelham bem o espírito crítico da sociedade ocidental. Que desapareceram. As publicações passam a apresentar inúmeros erros (o corrector autográfico deixa de funcionar). Não é de estranhar que nenhum ser humano saiba para quem ligar. Tal como no presente, a maioria das pessoas deixou de decorar números de telefone e passou a utilizar as agendas telefónicas incorporadas nos telefones. Os seres humanos parecem perdidos. Mas nada os prepara para a segunda parte do fenómeno que irá se desenvolver no segundo volume.

Graficamente mais interessante que outros trabalhos recentes do autor (como Animal’Z), Bug apresenta uma narrativa num futuro próximo de teor quase apocalíptico (com outras histórias do autor) intercalando várias perspectivas que se opõem na forma como enfrentam os acontecimentos. O resultado é uma boa história que, como outras do autor, parece rodear a realidade de uma aura despreocupada (pela posturua de algumas personagens) e sonhadora – mesmo que esse sonho se possa transformar num pesadelo.

O primeiro volume de Bug foi publicado em Portugal pela Arte de Autor, estando o segundo volume planeado para Outubro.

Laura and the Shadow King – Bruno Martins Soares

 

Bruno Martins Soares é mais conhecido, entre os leitores portugueses, por Alex 9 (publicado inicialmente como trilogia e depois em volume único pela Saída de Emergência) ou por A Batalha da Escuridão (publicado mais recentemente em português pela Editorial Divergência). Mas, para além destes livros, Bruno tem escrito e publicado sobretudo em inglês, pela Amazon, procurando o público internacional, entre o qual poderá ter um maior número de leitores.

Entre os livros publicados na Amazon encontramos Laura and the Shadow King, uma história apocalíptica que refere um género de apocalipse zombie passado em terras da Península Ibérica onde não falta acção e guerra – algo que é pouco usual encontrar em autores portugueses. E esta é uma das principais características da escrita de Bruno Martins Soares, talvez por influência de outra das actividades do autor – escritor de roteiros de cinema.

Quem me segue sabe que dou primazia à narrativa num livro: ao (bom) desenvolvimento de personagens acima de pensamentos filosóficos, à sucessão de episódios lógicos acima de jogos de palavras com significado dúbio. Laura and the Shadow King apresenta estas características, preferindo dar força à velocidade da acção, ainda que dê mais importância à sucessão de episódios do que ao foco nas personagens.

A acção intercala várias personagens que se encontram em diferentes locais.  Se por um lado se foca nos operacionais militares que tentam manter algum controle sobre o território lusitano (ainda que existam grupos civis que mantenham o controle local) e que se debatem com o aparecimento de seres humanos suicidas (para além dos usuais humanos doentes e contagiosos); por outro, apresenta uma dupla mãe-filha que tenta escapar das garras de uma facção russa em território espanhol – uma dupla que tem um papel fulcral no crescimento da facção.

Entre descrições de operações no terreno e pequenas batalhas militares, encontramos a dupla em fuga por territórios perigosos e inóspitos. Mas ambas possuem um dom que as irá manter a salvo mais do que uma vez – um dom que pode ser determinante para o futuro da humanidade.

Utilizando a experiência noutras áreas, Bruno Martins Soares consegue dar ao enredo o devido tom de urgência. Existem vários episódios que conseguem transmitir a tensão de estar no terreno – mesmo quando não existe confronto o ambiente é de alerta e qualquer movimento suspeito poderá iniciar uma rápida troca de agressões. Com várias referências às munições utilizadas (que darão outro gosto a quem as reconhece) a história tem um grande foco militar numa situação de apocalipse, mantendo um ritmo elevado.

Mas não pensem que a história é só militar. Apesar de todos os detalhes nessa componente, a história centra-se muito na relação entre a mãe e a filha, uma relação de amor e dependência em torno da qual toda a história irá se centrar. Se, por um lado, a mãe quer fugir da facção russa a todo o custo, a filha pensa apenas na presença da mãe e em como responder adequadamente às expectativas nela depositadas.

Laura and the Shadow King tem algumas arestas por limar – sobretudo na caracterização de personagens e na forma rápida como as introduz, não dando grande espaço para o leitor respirar. Mas, tratam-se de arestas. São poucos os autores portugueses capazes de conduzir uma história com esta velocidade e Bruno Martins Soares consegue fazê-lo. Ainda que esta história possa ser lida isoladamente, existirão mais livros no mesmo Universo.

Novidade: Colecção Definitiva do Homem-Aranha – Vol.7

A Colecção Definitiva do Homem-Aranha chega ao sétimo volume! Deixo-vos a sinopse e algumas páginas fornecidas pela editora:

Balançando de prédio em prédio, pendurado num fino fio de teia, o Homem-Aranha está sempre alerta e a vigiar a cidade abaixo dele. Mas, escondido nas sombras, um vilão vingativo quer manipular um dos inimigos mais mortais do Trepa Paredes para colocar em prática a sua vingança. O terror está à espreita nos becos sujos da cidade de Nova Yorque… e o nome dele é Lagarto!

Todd McFarlane foi um daqueles artistas que marcou para sempre o visual do Homem-Aranha. Depois de desenhar uma série de números da revista Amazing Spider-Man, que rapidamente o transformaram numa das super-estrelas dos comics, a redacção da Marvel iria confiar-lhe um título novo do Cabeça de Teia, intitulado simplesmente Spider-Man, em que McFarlane seria também o escritor, e não apenas o artista.

Tormento, a primeira história deste volume, foi o arco de história inicial dessa revista, que McFarlane escreveria e desenharia durante 15 números (e já vimos o segundo arco num anterior volume desta coleção), e o #1 da revista venderia mais de dois milhões e meio de exemplares. O tom mais negro das histórias de McFarlane causou muitos problemas editoriais na Marvel, e em certos casos levou a que muitas lojas se recusassem a vender alguns dos números da revista, e muitos fãs queixavam-se da escrita do autor. Todos estes conflitos levaram a que McFarlane deixasse a Marvel e iniciasse o percurso que o levaria a fundar a Image com um grupo de outros artistas. Mas isso é outra história, e neste momento devemos deixar o caminho livre para os leitores descobrirem esta primeira história integralmente escrita e desenhada por Todd McFarlane (e uma segunda história mais curta, Sub-City, em dois números).

 

Novidade: Colecção Definitiva do Homem-Aranha Vol.6

Eis informação sobre o sexto volume da Colecção Definitiva do Homem-Aranha:

A conclusão da história iniciada no vol. 1A frenética busca de Peter Parker pela sua adorada tia May continua! E as coisas vão aquecer muito quando entra em cena um novo Venom com todos os poderes do anterior e nenhuma responsabilidade! Paralelamente, enquanto uma conspiração sinistra é montada nos bastidores, o raptor de sua tia prepara a jogada final para destruir o Cabeça de Teia, ajudado por 12 dos inimigos mais letais do Homem-Aranha!

A conclusão da saga que Mark Millar escreveu, em que a o nosso herói terá de encontrar a coragem e a perseverança para derrotar alguns dos seus piores inimigos!

Mark Millar é um dos autores de BD de maior sucesso da actualidade, e talvez aquele com mais livros adaptados ao cinema e à TV! Desde épicos da Marvel (como “Guerra Civil”) até produções que adaptaram outros títulos seus, como “Wanted” (com Angelina Jolie e Morgan Freeman), “Kingsman” ou “Kick-Ass”. Outros livros seus para a Marvel tiveram uma repercussão imensa: “Os Supremos” (The Ultimates, no original), que é geralmente creditado como tendo tido uma influência enorme na série de filmes dos Vingadores, ou “Velho Logan” que inspirou o filme do mesmo nome.

Millar é uma das grandes super-estrelas dos comics, e os fãs não devem perder esta saga que fica agora completa com “Herói da Resistência” (que é a segunda parte da história iniciada no vol. 1 da Coleção).

 

 

Novidade: Sintra – Tiago Cruz e Inês Garcia (segunda edição)

Eis nova edição de Sintra! Neste caso não se trata simplesmente de uma segunda edição do mesmo livro, mas uma edição com novos extras e nova capa. Para quem não leu o primeiro recomendo vivamente, tratando-se de uma história de horror que decorre em Sintra, construída utilizando vários elementos do local!

Deixo-vos com a ligação para o comentário completo ao livro, bem como entrevista aos autores e a informação disponiblizada pela editora para este volume:

 

Em Sintra nem tudo é o que parece. Quando um jovem casal de namorados decide acampar na serra de Sintra envolve-se num estranho acidente, acabando por descobrir que não estão sozinhos. Quem habita a misteriosa serra?

Novidade: Colecção definitiva do Homem-Aranha – Vol.5

Eis informação fornecida pela editora sobre o quinto volume da Colecção Definitiva do Homem-Aranha:

Uma raiva perversa infectou os inimigos mais bestiais e animalescos de Peter Parker! Agora, com o Lagarto, a Gata Negra e muitos outros com sede de sangue, o Escalador de Paredes será caçado como nunca aconteceu antes. Imerso no coração das trevas, o Sensacional Homem-Aranha terá de se tornar um tipo totalmente novo de herói para ter alguma chance de sobreviver ao iminente e devastador ataque!

Roberto Aguirre-Sacasa e Angel Medina são a dupla latina que assina este quinto volume da Coleção do Homem-Aranha, “Feroz”, que põe em cena alguns dos piores e mais terríveis inimigos de Peter Parker. Ambos são bem conhecidos dos fãs e fora do meio dos comics também.

Roberto Aguirre-Sacasa (que tem nacionalidade mista americana e da Nicarágua) é um escritor e dramaturgo famoso, que além de ter assinado muitas peças de teatro famosas (incluindo várias que lidam com super-heróis ou com as vidas de escritores e fãs de comics!), escreve também para a TV, tendo assinado inúmeros episódios de Glee ou Big Love. É bem conhecido também como um acérrimo defensor da comunidade LGBT, e escreveu muitas histórias que focam os problemas e desventuras da comunidade gay. Mas foi também vencedor de um Harvey como Melhor Novo Talento pelas suas primeiras histórias para o selo Marvel Knights, e é um fã de comics desde a infância.

Angel Medina é já um veterano dos comics, e é particularmente conhecido pela sua longa carreira na editora de Todd McFarlane, a desenhar para Spawn, Sam & Twitch e Kiss: Psycho Circus. Mas também assinou muitos títulos para a Marvel desde os anos 90 até ao presente.

 

 

Foundryside – Robert Jackson Bennett (Founders Vol.1)

The City of Stairs e The City of Blades (dois volumes da trilogia The Divine Cities – ainda não li o terceiro) são dois dos melhores livros de fantasia que li nos últimos anos.  Neles, o autor leva-nos para um mundo em que duas civilizações se opõem – duas civilizações construídas em desenvolvimentos opostos. Se numa as cidades são construídas recorrendo à magia e à vontade dos deuses, na outra os desenvolvimentos são científicos e as construções são obras de engenharia. O mundo construído nesta trilogia é fascinante e Robert Jackson Bennet faz um trabalho excepcional a desenvolver personagens pelas quais é fácil torcer.

Neste caso, Foundryside, Robert Jackson Bennet repete a fórmula – constrói, novamente, um mundo fantástico com uma premissa simples mas fácil de escalar. Ao longo das páginas o conceito atinge maior complexidade, mas consegue manter sempre a coerência sólida que é necessária para manter satisfeitos os leitores mais exigentes. A par com a construção do mundo, o autor distingue-se, também, como constructor de personagens, desenvolvendo poucas mas de forma eficiente e conseguindo criar forte empatia.

Em Foundryside – o primeiro livro num novo mundo fantástico que possui uma história auto contida; a realidade pode ser transformada recorrendo à escrita numa linguagem específica, a linguagem dos antigos. Podemos, desta forma, dizer a um pau de madeira que  é tão duro quanto um de ferro, ou que, quando lançado, a terra se encontra em frente levando-o a atingir maior velocidade do que o que deveria pelo simples exercício da força de lançamento. Como algumas instruções são demasiado longas, existe a necessidade de criar léxicos (cuja influência se exerce sobre uma área contida), sendo que no objecto se coloca apenas a referência a esta instrução.

Nesta realidade a linguagem é controlada por Casas que funcionam numa espécie de sistema feudal. Cada Casa possui a sua própria cidade, rodeada por muralhas intrasponíveis e portas que são abertas para quem detém a chave certa – tudo controlado pela própria linguagem. O poder é transmitido de pais para filhos e os restantes seres humanos da cidade são meros trabalhadores. No exterior de todas as cidades, num local sem lei, encontram-se os restantes seres humanos que tentam sobreviver recorrendo a actividades pouco legais.

É neste mundo que encontramos Sancia, uma ladra. Devido à sua peculiar capacidade de sentir o que aconteceu com aquilo que toca, Sancia foi contratada para roubar um pequeno cofre numa zona perigosa – um cofre que não deverá abrir e que lhe renderá o valor de que precisa para se curar. A mesma capacidade que a leva a ser uma ladra excepcional é também o tormento que a impede de tocar livremente em tudo o que a rodeia. Depois de várias peripécias, o roubo é bem sucedido, mas torna Sancia num alvo a abater por demasiadas facções. Curiosa, acaba por abrir o cofre descobrindo uma chave antiga que é capaz de abrir qualquer porta – e de falar com Sancia.

De premissa peculiar, original e fantástica, Foundryside torna-se rapidamente numa leitura frenética que envolve e fascina. Apesar de ter alguns (poucos) momentos menos fortes, o autor sabe conjuntar as características do mundo criado com o desenvolvimento da personagem levando-nos por uma sucessão de episódios movimentados. No final, ficamos a querer mais histórias no mesmo mundo – e que mais pode querer um autor que planeia mais alguns livros nessa mesmo Universo? É, sem dúvida, um autor para continuar a seguir!

Jaipur – Sébastien Pauchon

A ocupar o lugar 116 no Boardgamegeek (pelos menos à data em que escrevi este texto) Jaipur é dos jogos mais conhecidos para dois jogadores. Trata-se de um jogo com mecanismos de colecção de cartas e gestão de mão que leva cada um dos jogadores a realizar combinações que troca por determinada quantidade de pontos.

Existem seis tipos de cartas que correspondem a seis tipos de mercadorias, e um sétimo tipo (camelos)  que pode ser usado para adquirir rapidamente um grande número de outras cartas. O jogo começa com cinco cartas dispostas na mesa e cinco cartas na mão de cada jogador. Sem entrar em detalhes de regras, a cada jogada podemos trocar, adquirir ou vender cartas.

Aquando da venda o jogador ganha fichas correspondentes ao tipo de mercadoria que vendeu sendo que o valor da ficha é diferente consoante o tipo de mercadoria (mais alto para as mais raras) e a quantidade de bens já vendidos (dentro do tipo tipo de mercadoria, as primeiras fichas possuem valor mais elevado). Se vender conjuntos de 3, 4 ou 5 cartas da mesma mercadoria tem, ainda, direito a fichas de bónus com um valor adicional. No final, contam-se os pontos e volta-se ao início. Ganha o jogador que tiver vencido duas rondas.

O jogo tem, também, uma pequena componente de sorte, tanto nas cartas que vão ficando disponíveis para aquisição, como nas pontuações que são atribuídas aos conjuntos de 3, 4 ou 5 (dado serem atribuídas aleatoriamente). Não é, no entanto, um jogo com grande variedade.

Portátil, de aspecto agradável e fácil de aprender, Jaipur é um jogo rápido de dois jogadores que se torna viciante. Apesar de ter mecânicas simples os jogadores podem desenvolver diferentes estratégias, optando pela rapidez de venda ou pela concretização de melhores combinações. É um jogo para preencher pequenos momentos de pausa que é muito escolhido para viagens.

A esposa minúscula – Andrew Kaufman

Livro pequeno, retrata as consequências de um assalto num banco – mas ao contrário do que é esperado, não é dinheiro que é roubado! Antes objectos pessoais de cada um dos que se encontra no banco, ou mais precisamente, os objectos que mais importância tenham para cada um.

Ainda que este seja um assalto estranho, o pior ainda está para acontecer. É que a cada um dos presentes no assalto, começam a ocorrer fenómenos estranhos. Maridos que desaparecem ou se transformam em gelo, pessoas que voam ou… pessoas que diminuem.

Foi o que aconteceu a uma das personagens principais. Se o casamento já estava a passar por uma fase difícil, a constatação de uma progressiva diminuição de tamanho da esposa irá simplesmente aumentar a tensão entre os dois. Dia após dia, às vezes, hora após hora, mede-se a esposa para confirmar o fenómeno que decorre ao longo de vários dias – até ser mais pequena que o filho bebé.

A Esposa Minúscula é um pequeno livro que pretende explorar os relacionamentos, dando-lhes âncoras sob a forma de objectos de elevado valor sentimental. Sem estes objectos cada pessoa terá de procurar restabelecer a ligação perdida, algo que não será fácil nem perceptível por todos.

A premissa consegue captar o leitor, mas sente-se que a concretização da ideia deixa alguns pontos por esclarecer e aprofundar, sobretudo quando apresenta pequenos episódios centrados noutras personagens. Trata-se de uma história em que a componente fantástica tem um objectivo simbólico, resultando num livro engraçado (com um título atraente) de leitura aprazível, mas não memorável.

Mar de Aral – José Carlos Fernandes e Roberto Gomes

Eis um dos grandes lançamentos nacionais deste ano! Mar de Aral foi lançado no Festival de BD de Beja e resulta de um esforço conjunto da G Floy com a Comic Heart. Trata-se de um livro de José Carlos Fernandes nunca antes publicado que reúne várias histórias em parceria com Roberto Gomes produzidas há 15 anos. Este livro foi lançado, em simultâneo, em Polaco, Francês, Basco, Espanhol e Português.

A primeira história deste conjunto, que é a que dá título ao volume, aproveita o rápido processo de desertificação do Mar de Aral (que já foi o quarto maior lago do mundo mas que se encontra agora com menos de 10% do tamanho original). Com a diminuição do volume de água, o lago remanescente apresenta um correspondente aumento de salinidade, tornando-se inabitável para as espécies que antes albergava.

Partindo deste facto, José Carlos Fernandes tece uma história fantástica em que os peixes do Mar de Aral tiveram de se adaptar rapidamente a novas condições e procurar novos habitats. Trata-se de uma história imaginativa com os toques típicos de José Carlos Fernandes e com um visual que reflecte bem o ambiente inóspito da região.

Em Um boi sobre o telhado um homem é surpreendido pela presença de um boi no seu telhado, uma ocorrência singular perante a qual apenas o dono da casa parece incomodado.

A terceira história, Roupas de defunto, volta aos detalhes fantásticos, com a indignação dos mortos que não recebem flores frescas com a devida frequência, nem são enterrados com os seus melhores fatos e, por isso, têm de suportar uma eternidade com roupas bafientas ou apertadas.

Por sua vez, em A Inauguração do Panamá uma senhora espera eternamente um convite para o evento, achando que o homem com quem partilhou a cama decerto não se esquecerá dela. O livro termina com A arte esquecida de nadar rio acima mostrando uma escola para salmões em que se ensina a enfrentar as adversidades do rio até ao local da desova.

Alternando diferentes tons narrativos e estilos gráficos, cada história deste volume apresenta uma realidade distinta – algumas distantes e sonhadoras, outras saudosistas, outras, ainda, contendo as reviravoltas com o humor típico do autor. Trata-se de um volume que pode agradar a diferentes públicos por tal cruzamento de diferentes elementos.

Resumo de Leituras – Junho de 2019 (2)

41 – A Esposa Minúscula – Andrew Kaufman – livro minúsculo onde um evento traumatizante (o assalto num banco) se desenvolve de forma pouco usual. O ladrão não pretende levar dinheiro, mas objectos pessoais. O roubo destes objectos tem consequências impensáveis e fantásticas;

42 – Batman: Cavaleiro Branco – Fabuloso retrato de Batman e Joker que coloca Joker como um homem equilibrado e razoável, e Batman como o durão envelhecido que quase se torna vilão pelas suas atitudes;

43 – Bug – Vol.1 – Enki Bilal – Fabuloso trabalho de Enki Bilal. Futurista e apocalíptico, retrata um mundo em que uma influência desconhecida apagou todas as memórias digitais. Não há discos rígidos nem bases de dados, não há internet, nem mecanismos que se baseiem em informação para funcionar. O motivo estará a rondar a terra!

44 – Mar de Aral – José Carlos Fernandes e Roberto Gomes – A primeira vez que ouvi falar deste livro foi na entrevista com Bruno Caetano – entretanto, eis publicado! Mar de Aral é um conjunto de pequenas histórias de detalhes fantásticos bem ao estilo de José Carlos Fernandes! Uma grande leitura!

Tiny Epic Western – Scott Almes

Tiny Epic Western é a mais recente aquisição de entre o grupo de jogos Tiny Epic. Enquanto esperamos pelo Tiny Epic Mechs e pelo Tiny Epic Tactics, resolvemos experimentar este Western que respondeu bem às nossas expectativas! Apesar da pequena caixa, este Tiny Epic transforma-se, tal como o Quest e o Zombies, num tabuleiro de dimensão média, com uma boa presença na mesa.

O Tiny Epic Western tem, como principal mecânica, a colocação de trabalhadores (em inglês, worker placement), cruzando, com sucesso, várias outras. Uma delas, a mais interessante, no meu entender, é a forma como se decide qual jogador detém as vantagens de uma determinada posição – comparando as combinações de poker de cada jogador (Area control / Area influence).

Para além da colocação de trabalhadores, este jogo atribui diferentes poderes aos jogadores (Variable Player Powers) através de cartas de personagem e tem como principal mecanismo de aquisição de pontos a compra de locais (Set Collection).

As diferentes cartas de personagem disponíveis

Como já é usual, não vou entrar em detalhes sobre a forma de jogar, detalhando apenas que o jogo decorre em quatro fases, ao longo das quais vamos colocando trabalhadores e desafiando outros jogadores, adquirindo recursos pelas combinações de poker, comprando cartas de locais e distribuindo novas posições. Ganha quem tiver mais pontos!

Tal como outros Tiny Epic, este Western consegue surpreender pelos detalhes dos componentes, apresentando dados com a peculiar forma de balas e um tabuleiro bastante temático. Às cartas usadas para o poker não lhes faltam as marcas de desgaste e existe, claro, a carta do procurado (wanted). Não esquecer, claro, as duas grandes vantagens de um jogo Tiny – a portabilidade!

Em termos de experiência de jogo, esta é bastante diferente entre dois e quatro jogadores, sendo que a escassez de boas posições a quatro jogadores força a existência de mais duelos e confrontos, aumentando a interacção. A complexidade não é muito elevada, mas, nas primeiras jogadas, poderá ser difícil perspectivar a forma como as combinações de poker se resolvem e a sequência das acções das quatro fases.

Podendo existir alguma tendência para desconsiderar um jogo pelo seu diminuto tamanho, realço que este Tiny Epic Western não fica nada atrás de jogos que são vendidos em caixas maiores e por valores mais elevados. O tamanho torna-o, claro, num candidato preferencial a ser levado em viagem mas, para além deste ponto positivo, tem recebido comentários bastante positivos por várias das pessoas a quem o apresentamos.

Batman – Cavaleiro Branco – Sean Murphy e Matt Hollingsworth

Publicado em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público, este volume de Batman é outra das histórias de super heróis que desafia o que parece ser o comum no género. Se algumas narrativas saem da linearidade dando novas perspectivas sobre os super heróis, e outras mostrando outro lado dos vilões, este Cavaleiro Branco mostra um Batman obcecado, violento e devastador que poderá ser ainda mais prejudicial para a cidade de Gotham do que os próprios vilões.

Neste volume Joker cura-se através de uns misteriosos comprimidos. Deixando de lado o ar translocado, Joker transforma-se num homem que tem em vista os melhores interesses de Gotham, retomando o nome de Jack Napier. E decididamente, a forma de actuar de Batman, nas sombras, sem prestar contas a ninguém e não olhando a meios para prender um vilão, não se coaduna com o bem estar dos cidadãos mais pobres que facilmente acabam sem casa no meio de tais batalhas.

Jack Napier parece recuperar não apenas a sanidade, mas, também, o amor da sua vida, Harley Quinn. E rapidamente ficamos a perceber que a jovem que o acompanha no início da história não é a verdadeira Harley Quinn, mas uma jovem auto destrutiva que foi aceite por Joker e que viu, no vilão, uma nova forma de estar. Já a original, mais madura, é a tábua de salvação de Jack, que o mantém na linha para que possa desenvolver uma verdadeira carreira política, como salvador das pessoas mais pobres de Gotham.

Ao longo de 200 páginas acompanhamos uma história que desenterra segredos familiares e desenvolve o herói de uma forma pouco usual. Violento, obcecado pela vilania de Joker e não acreditando na sua redenção, Batman continua a lutar contra Jack Napier caindo em várias esparrelas políticas. Por sua vez, o Joker redimido mostra-se calmo e perspicaz, levando a polícia a considerar um novo modelo de acção para Batman – um modelo que visa criar uma verdadeira força policial pelo uso da tecnologia detida pelo herói.

Batman é, neste volume, retratado como uma força destruidora. Quem com ele se cruza acaba mental ou fisicamente afectado e quebrado. Tal como o anterior, o novo Robin questiona os métodos de Batman e como pessoa autónoma irá tomar a sua própria posição. Por sua vez, Batman parece responder com maior agressividade. As estratégias políticas de Jack deixam-nos frustrado, assim como descobrir que outros usam as suas batalhas com os vilões para obter avultados lucros.

Visualmente, este é, também, um volume surpreendente, oscilando entre momentos pausados, de instrospecção e exploração narrativa, em que se exploram as emoções com expressões faciais e posições corporais; e momentos mais movimentados com as esperadas batalhas em que acompanhamos trocamos de murros e explosões.

Mesmo para quem não segue as bandas desenhadas do Batman este é um volume aconselhável que consegue apresentar uma história profunda e complexa que se afasta da ideia cliché das histórias simplistas de super heróis – provando que o género permite bastantes variações narrativas.

Novidade: H-Alt N.º8

A H-Alt anuncia o lançamento do oitavo volume com uma selecção de 17 histórias de vários autores e vários géneros. Para mais informações sobre este projecto podem consultar a página oficial.

A imagem da capa é da autoria do consagrado concept-artist e autor de BD espanhol Marcos Mateu-Mestre, estando o seu trabalho em destaque nesta edição. Aparece também uma breve entrevista exclusiva com ele. Na secção Descobrir falamos um pouco sobre a editora Imaginauta.

 

 

 

 

Resumo de Leituras – Junho de 2019

37 – Black Hammer – Vol.2 – O segundo volume continua a história do grupo de super heróis encurralado e semi enlouquecido, mostrando o resultado das tensões acumuladas que se soltam com a chegada de uma jovem, a filha de um dos falecidos super que serve como elemento catalisador para a narrativa;

38 – O Homem Vazio Volume sombrio de terror, O Homem Vazio é uma narrativa competente de horror que nos trás uma espécie de fenómeno sobrenatural memético, em que as pessoas vão sendo contaminadas por uma vontade de se entregarem a fins pouco lógicos;

39 – Winepunk – Vários autores – Apenas agora o inclui na listagem, apesar de o ter lido há alguns meses. A ideia é original, a concretização é fantástica. O volume destaca-se sobretudo pela forma como utiliza factos históricos para criar uma realidade alternativa de grande teor português. Um dos grandes lançamentos do ano.

40 – Laura and the Shadow King – Bruno Martins Soares – É o primeiro livro que leio do Bruno Martins Soares em inglês. A história é movimentada e emotiva, retratando um apocalipse da humanidade no seguimento de uma doença que aproxima os humanos de zombies. Ou pelo menos de seres irracionais, violentos e pouco inteligentes. Mas ao contrário de livros que decorrem em apocalipses zombies, a narrativa tem, neste caso, espaço para explorar relacionamentos e interacções humanas e dá grande foco à empatia.

Novidade: Get Jiro

A Levoir anuncia novo volume de banda desenhada, desta vez de Get Jiro! Irá decorrer, na próxima quinta feira, o evento de lançamento, com a presença dos chefs José Avillez e Henrique Sá Pessoa, bem como do autor do livro We, Chefs, João Wengorovius:

A história de Get Jiro! Todos querem apanhar o Jiro, passa-se numa futura e hipotética Los Angeles, uma cidade socialmente estratificada e repartida em duas facções, dois territórios controlados por dois grandes líderes da culinária: o chef Bob da Global Affiliates, associado à cozinha internacional, molecular, haute/nouvelle cuisine, uma cozinha cheia de especificidades culturais, novas tecnologias, iguarias raras, mesmo que isso signifique maus tratos a animais, a sobreprodução, a exploração de economias menores, ou a absurda comercialização transglobal de certos produtos, e a chef Rose, ligada aos movimentos vegan e às preocupações ecológicas, políticas e económicas, sobretudo dedicados a uma produção e consumo localizados.

Jiro, o jovem chef de sushi, acabado de chegar à cidade e com um passado misterioso que jamais é revelado, não só se encontrará no meio dessas batalhas como será ele mesmo objecto cobiçado pelas duas “facções”. Para Jiro as regras do sushi são para manter, por isso não suporta ver um cliente mergulhar uma peça de sushi no molho de soja, pedir rolos Califórnia ou servir uma salada caprese em Janeiro são motivos suficientes para uma sentença de morte.

Uma narrativa escrita com o conhecido humor descontraído e informal que caracterizava Bourdain.

 

 

 

Novidade: Ditirambos

Ditirambos é outra das novidades prevista para o Festival de Beja, tratando-se de uma antologia:

Um ditirambo é um canto coral exortativo que nos chega da antiguidade clássica grega. Nele, uma multitude de vozes se une, em homenagem ritualística ao deus Dionísio. Seguramente com menos libações, mas com o mesmo fervor, nasce aqui uma nova antologia de banda desenhada portuguesa. O primeiro número explora o conceito de “Êxtase”, e conta com as contribuições de Ricardo Baptista, Nuno Filipe Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira e Sofia Neto. As distintas técnicas e vozes narrativas obedecem, para além do leitmotiv, a um único requisito: 4 páginas.
 

 

Novidade: Bug Vol.1 – Enki Bilal

Com a proximidade do Festival de Beja, a Arte de Autor anuncia o lançamento do primeiro volume de BUG (estando o lançamento do segundo já agendado para Outubro):

Num futuro próximo, numa fração de segundo, o mundo digital desaparece, como se sugado por uma força inexprimível. Um homem encontra-se só no meio da tormenta, cobiçado por todos os outros.
BUG significado
Em português: erro ou falha na execução de programas informáticos, prejudicando ou inviabilizando o seu funcionamento.
Em inglês: inseto, bicharoco ou vírus.

Enki Bilal, denunciante! O que acontecerá se a raça humana abandonar sua memória apenas à tecnologia? Ao contar o BUG do ano de 2041, o artista assina um thriller de antecipação nervosa em que os destinos íntimos se chocam com o caos de um mundo em completo apagão. Na continuidade direta de Monster e Coup de Sang, Bilal continua seu trabalho orwelliano e shakespeariano.