Novidade: Deuses Americanos – Neil Gaiman, P. Craig Russell e Scott Hampton

O segundo volume de Deuses Americanos é lançado esta sexta-feira pela Saída de Emergência. Trata-se de uma adaptação da história fantástica de Neil Gaiman para banda desenhada. O livro é um dos mais conhecidos do autor, apresentando uma realidade semelhante à nossa que se cruza com elementos mitológicos antigos e recentes. A história já foi adaptada para série televisiva.

Deixo-vos a sinopse fornecida pela editora Saída de Emergência, bem como algumas páginas disponíveis pela editora Dark Horse:

A BIZARRA ROAD TRIP PELA AMÉRICA CONTINUA ENQUANTO OS NOSSOS HERÓIS REÚNEM ALIADOS PARA A IMINENTE GUERRA ENTRE OS DEUSES!

Shadow e Wednesday deixam a Casa na Rocha e continuam a sua viagem pelo país enquanto reúnem aliados, conhecem novos deuses e se preparam para a guerra. O romance vencedor de prémios Hugo, Bram Stoker, Locus, World Fantasy e Nebula, que deu origem ao sucesso televisivo da Starz, com autoria de Neil Gaiman, é adaptado como novela gráfica pela primeira vez!

 

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Novidade: Inspecção – Josh Malerman

Do mesmo autor de Bird Box (publicado em Portugal como Às Cegas) chega-nos Inspeção pela TOPSELLER. Deixo-vos a sinopse disponibilizada pela editora:

J é aluno de uma escola muito peculiar.
J está a ser treinado para se tornar um génio.
J não sabe, mas a sua vida é uma mentira.

Nas profundezas de uma floresta isolada, há uma escola restrita onde 26 rapazes são educados para se tornarem prodígios das artes, ciências e atletismo. Versões melhoradas do ser humano inspecionadas todos os dias, de modo a evitar qualquer tipo de mácula vinda do exterior.

Aos 12 anos, J e os seus irmãos desconhecem o mundo que existe para lá da redoma mantida pelos professores, guardas e disciplina do fundador da escola ? que os rapazes conhecem como P.A.I. E enquanto a maioria dos alunos segue à risca as regras da única família que conhece, J começa a detetar pequenas falhas, que aguçam a sua curiosidade. Mas depois das advertências do P.A.I., que o proíbe terminantemente de explorar o que lhe é interdito, J sabe que o castigo para a desobediência é pesado: expulsão definitiva da família? ou pior.

Atormentado pela dúvida e pelo comportamento errático do fundador, J não consegue deixar de se questionar: por que razão os alunos não podem transpor os limites da escola? O que é que há lá fora que eles não podem ver? E, acima de tudo? o que pretende o P.A.I. fazer com os 26 rapazes?

Novidade e evento de lançamento: Contos do Rei Amarelo

Publicado originalmente em 1895, O Rei Amarelo, de Robert W. Chambers é um clássico no género sobrenatural, que cruza elementos fantásticos e macabros. O livro é composto por vários contos que se centram no Rei Amarelo de diferentes formas, ora tendo como premissa a busca pelo sinal amarelo, ora relacionando-se com uma peça denominada O Rei Amarelo.

Estes contos viriam a influenciar algumas das obras mais conhecidas no género do horror como Lovecraft, Charless Stross ou Alan Moore. Mais recentemente encontramos referências em séries como True Detective.

O livro vai ser apresentado no MotelX, no dia 12 de Setembro, numa sessão que vai muito além do que é usual nos lançamentos de livros, começando com uma Instalação Interactiva denominada Quarto Amarelo onde os participantes poderão viver na pele de alguém que caiu nas mãos do Rei Amarelo. Segue-se uma audiopeça de terror com passagens dos Contos do Rei Amarelo e entao o lançamento do livro que tem a seguinte sinopse:

As histórias de terror do início do século XX que inspiraram autores tão díspares como H. P. Lovecraft, George R. R. Martin, Neil Gaiman e Grant Morrison.

Atreve-te a descobrir o destino daqueles que tiveram o azar de cair nas mãos do Rei de Amarelo.

Sweet Tooth – Book 1 – Jeff Lemire e José Villarrubia

Depois de uma Space Opera futurista como Descender, de um comentário à perfeição dos super-heróis com Black Hammer, ou de trabalhos mais realistas de Jeff Lemire como Essex County ou Roughneck, eis que me deparo com a história apocalíptica e deprimente de Sweet Tooth que decorre no interior dos Estados Unidos da América ultra-religiosa e fechada sobre si mesma.

A humanidade encontra-se em declínio. Uma estranha praga vai atacando os humanos que não descobrem uma cura para este doença. Em paralelo, os humanos que nascem parecem cruzados com outros animais, possuindo focinhos de porco ou hastes de veado. Assim é o caso do rapaz, personagem principal, que o pai mantém isolado numa cabana no meio do bosque, avisando-o de que todos os homens são maus e perigosos.

Após o falecimento do pai, o rapaz aventura-se pelos bosques. Quase caçado como um animal, é salvo por um homem forte e destemido que o convence da existência de uma reserva para crianças como ele, onde estará protegido. Assim o leva, atravessando um país caótico, onde os humanos restantes sobrevivem pela malícia. Mas a reserva não é mais do que um forte onde um grupo de homens sobrevive, usando as crianças animais para tentarem perceber a origem da doença.

A partir daqui o autor explora as motivações do homem que levou o rapaz, mostrando como era a sua vida antes da praga e depois da praga – de apaixonado a sobrevivente, capaz de enfrentar os perigos e defender a esposa grávida, até ao dia em que caem numa emboscada.

Neste primeiro volume encontramos uma humanidade em declínio, um mundo apocalíptico em que todos procuram sobreviver da melhor forma, parasitando sempre que possível os que os rodeiam. Tal como noutras realidades deste género, existem os homens que, sendo mais fortes do que os restantes, conseguem liderar pelo medo, impondo práticas duvidosas.

Para quem gosta dos livros de Jeff Lemire, encontrará, neste, o mesmo género de caracterização de personagem. O homem é um homem duro e isolado que carrega mágoas passadas que levam a sobreviver. Por sua vez, o rapaz apresenta-se como inocente do mundo em que vive, sem a malícia típica que permitiriam que pudesse sobreviver sozinho.

Ainda assim, existem alguns, poucos, que tentam estabelecer alguma justiça, como o homem que encontra o rapaz. Homem duro, capaz de lutar e de fazer o que é preciso, tem várias atitutes ao longo da história que não se coadunam com a entrega do rapaz aos maus da fita – algo que Jeff Lemire justifica e que decerto gerará o motor narrativo do próximo volume.

Games for science – Worldcon – algumas considerações

Estive recentemente na Worldcon – o maior evento de ficção científica e fantástico do mundo que incide sobretudo sobre literatura, mas que tem espaço para outras componentes como jogos de tabuleiro e banda desenhada. Neste evento tive a oportunidade de participar num painel sobre jogos de tabuleiro com vertente STEM e fiquei com vontade de expressar algumas ideias que resultaram deste painel.

Afinal, o que é STEM?

Para quem não sabe, STEM significa science, techonology, engineer e mathematics. Esta sigla aplica-se a jogos, sejam de tabuleiro, sejam de video, que possuem princípios científicos e que possam ensinar alguma coisa. Ainda que existam bons exemplos de parcerias com cientistas para desenvolver jogos STEM em Portugal (como Neuro Game Jam na Champalimaud) dados os participantes esta palestra incidiu sobretudo sobre jogos de tabuleiro.

Para além de jogos de tabuleiro específicos (que falarei mais à frente, noutra entrada), a mesa começou por endereçar algumas questões genéricas como se os jogos inspirados em STEM seriam proveitosos e populares e se estes aumentariam o interesse dos jogadores em ciência. Dado termos dois autores de jogos, questionou-se, também, quais seriam os seus desafios e quanta ciência seria excessiva num jogo.

Os jogos STEM estão a tornar-se populares?

No meu entendimento, os jogos STEM podem estar a tornar-se populares, mas estarão a aproveitar, de uma forma geral, o aumento de popularidade dos jogos de tabuleiro. Há cada vez mais jogadores e os jogos atingem valores cada vez mais elevados (principalmente nos Kickstarters que têm versões de luxo, que ultrapassam facilmente os 70€ por unidade, e o milhão de euros em campanha).

A evolução dos jogos STEM cruza, no meu entendimento, da maior popularidade dos jogos de tabuleiro com a tentativa dos progenitores em encontrar formas interessantes de incutir conhecimento. E, claro, do gosto de quem se interessa por uma área científica e pretende experimentar o conceito no jogo.

Então… e ser didático é chato?

Mas um jogo, para ensinar, tem de ser divertido. Este é o ponto em que todos concordam. A sua componente didática pode ser mais ou menos elevada, mas se não for divertido porque será escolhido para jogar? Para participar numa actividade focada na aprendizagem já existem as aulas. Se não for divertido, dificilmente alguém pegará uma segunda vez no jogo e o obejctivo didático cai por terra.

Como adaptar?

Passando à perspectiva de quem cria os jogos, aqui estará a principal dificuldade – pegar nos conceitos científicos e simplificá-los o suficiente para poderem ser usados em jogos, sem sobrecarregarem o jogo em passos aborrecidos e pesados. O jogo pode seguir alguns procedimentos científicos mas se não os adaptar correctamente deixa de ser um jogo. Esta mesma adaptação nem sempre é bem vista pelos profissionais na área, já que esperam agum purismo nos conceitos.

Mas afinal, que jogos são estes?

Então e que jogos STEM existem? Do que estou a falar, mais especificamente? Bem, um exemplo clássico é o Pandemic. Segue-se o Terraforming Mars e o Wingspan. Não se pode deixar de falar no Cytosis. E também incluiria alguns jogos de programação como Kosmonauts, o Twin Tin Bots ou o Robo Rally. Mas deixo este detalhe para um próximo post.

Novidade: Ermal – Vol.3 – Miguel Santos

A rentrée literária na banda desenhada traz-nos um novo volume de Ermal, por Miguel Santos. Nesta realidade alternativa os europeus tiveram de se refugiar em África para poderem sobreviver. Trata-se de um Universo interessante e bem explorado pelo autor. Sobre os primeiros dois volumes podem ler mais aqui no Rascunhos (volume 1 | volume 2). Sobre este terceiro, deixo-vos a sinopse, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Neste 3º volume a ação continua a decorrer num mundo pós-apocalíptico, durante a Guerra Colonial na qual a Metrópole foi devastada pelo conflito atómico que opunha as superpotências. A guerra nuclear destruiu o hemisfério norte. O 25 de Abril nunca aconteceu. O império colonial desmoronou-se, tendo como último reduto a Cidadela, uma cidade cercada de muros e arame farpado. Os inimigos da Cidadela apoderaram-se de plataformas petrolíferas no litoral e infiltraram-se nos bairros periféricos. Santana, oligarca do petróleo, refugiou-se na Cidadela e convenceu os seus dirigentes a reconquistar o petróleo, custe o que custar. À frente dessa campanha está um centurião da Cidadela. Um desgraçado odiado pelos aliados e respeitado pelos inimigos.

Novidade e evento de lançamento – Legendary Horror Stories

A Legendary Books lança, durante a próxima semana, no MotelX uma fanzine com histórias dos mais conhecidos autores portugueses. O lançamento decorrerá na quarta-feira, dia 11, pelas 19h, na sala 2 do Cinema São Jorge, com direito a sessão de autógrafos. Os exemplares estarão à venda durante o MotelX na banca da Legendary Books, bem como na livraria Legendary Books.

Sobre o volume deixo-vos algum detalhe de conteúdo, bem como a sinopse e algumas páginas:

A Legendary Books orgulha-se de apresentar:
Legendary Horror Stories – volume um

4 histórias, 4 estilos, 8 autores
1 elemento comum a todas as histórias
Do slasher americano ao terror psicológico e introspectivo
Do poema fúnebre à sátira política.

Com curtas das duplas André Oliveira e Pedro Cruz, Aragundes Bicho e Anouk Aukine, Nuno Duarte e Rita Alfaiate, Tiago Cruz e Inês Garcia e capa de Jorge Coelho
Uma edição assustadora, ímpar e inesquecível

Resumo de leituras – Setembro de 2019 (1)

65 – Monika – Thilde Barboni – Em torno de uma mulher de múltiplas máscaras, artista, capaz de se transformar de acordo com os adereços, Monika apresenta uma investigação que leva a jovem e um amigo a cruzar o caminho de perigosos grupos políticos. Paralelamente, o amigo de Monika desenvolve uma inteligência artificial que usa métodos de aprendizagem peculiares;

66 – Cadafalso – Alcimar Frazão – Uma séria de pequenas histórias pesadas num estilo sombrio;

67 – City of Miracles – Robert Jackson Bennett O último de uma belíssima trilogia onde o autor desenvolve a premissa de um Universo relativamente simples, mas de forma brilhante. Neste terceiro livro acompanhamos as personagens com uns bons anos a mais mas ainda capazes de algumas aventuras e acumulando toda a experiência adquirida ao longo do tempo;

68 – Vigilance – Robert Jackson Bennett Depois de ler vários livros de fantasia do autor, eis um mais voltado para a ficção científica que nos traz uma sociedade americana onde os tiroteios são regulados e autorizados – mediante cobertura televisiva, numa forma de apelar à aquisição de armas.

Assim foi – Worldcon Dublin 2019 – uma perspectiva pessoal

Foto oficial do Centro de Convenções de Dublin (edifício à direita)

Este ano a Worldcon foi em Dublin, num edifício que desafia a imaginação, quer em termos de formato, quer em termos de tamanho! Já o evento em si tem um tamanho inesperado – existem tantas palestras e actividades em simultâneo que cada visitante terá uma experiência única. Esta é a minha.

Infelizmente apenas pude estar no evento dois dias, Domingo e Segunda. A sensação, à chegada, é de um mundo à parte. A Worldcon ocupou pelo menos 6 pisos do centro de convenções, e cada piso tinha várias salas. Cada sala tinha uma lotação de 60 a 400 pessoas. E mesmo assim, existiam pessoas a ficar de fora consecutivamente.

 

Estive com pouca bateria durante o evento pelo que várias das fotos usadas nesta entrada foram disponibilizadas por Dan Ofer.

Exposições / comércio

O primeiro local a visitar é, claro, o piso térreo onde se encontram as bancas de comerciantes, as exposições e várias mesas de vários fandom. À entrada deparávamo-nos com este fabuloso DeLorean. Do lado esquerdo encontravam-se exposições, inclusivé uma do autor das capas da série fantástica The Elephant and Macaw Banner de Christopher Kastensmidt, Guilherme Da Cas.

Entre simuladores de pontes de comando de naves espaciais, encontramos bancas de todas as grandes editoras anglosaxónicas de ficção científica e fantasia! Mas não só! Também encontramos editoras mais pequenas mas marcantes no meio, bem como vários artesãos que vendem os seus próprios trabalhos.

Para além das exposições presentes neste edifício, existia outro (ao qual não tive oportunidade de ir) com um grande espaço dedicado a Lego.

Ainda que tivesse um tamanho considerável, esta zona foi a que, simultaneamente, me desiludiu e superou as expectativas. Comparando com a Eurocon Barcelona, e dada a quantidade de pessoas na Worldcon, esperava que a zona de comércio fosse maior e com mais oportunidades de compra.

A capacidade de organização

Eis uma componente que merece ser destacada. Sei que existiram várias queixas (quer relativas a festas com lotação máxima, quer relativas ao streaming dos prémios) mas, mesmo assim, foi uma questão essencial para que tudo corresse dentro do previsto.

Por razões de segurança, a assistência não podia ser maior do que a lotação da sala. De forma a garantir tal limitação, existia sempre, para cada sala, alguém responsável por garantir que as pessoas com falta de mobilidade entravam primeiro (existiam sempre lugares reservados) e que só entravam pessoas até serem preenchidos todos os lugares.

Tendo participado em duas palestras, assisti ao outro lado da organização. Para além de existir troca de pareceres algumas semanas antes do evento, na chegada era distribuído um envelope a cada participante. Este envelope continha um horário personalizado que indicava onde e quando teria de estar, bem como as regras de etiqueta a garantir durante as palestras. Era esperado que, meia hora antes da palestra, os participantes se reunissem numa zona reservada para trocar impressões e criar empatia.

Assim que entrávamos na sala já existiam etiquetas com os nossos nomes e um técnico de som. Para cada sala existia uma fila organizada que só prosseguia para a sala quando os “sinaleiros” assim o indicassem. No final, alguém alertava para os últimos cinco minutos. Assim se garantia que a palestra terminava a horas e que todas as pessoas saíam antes de poder deixar entrar para a seguinte.

Ninguém se aguenta sem comida

Existiam diversos pontos disponíveis por todo o edifício. O preço não era excessivo, mas também não era propriamente barato. Sim, eram muitas pessoas. Mas dada a quantidade de locais disponíveis, as filas para comer oscilavam entre 4 e 5 pessoas nos locais a que fomos.

Livros gratuitos

Alguns dos livros gratuitos disponíveis.

Não apanhei os dos primeiros dias, mas mesmo assim, eram vários. Podiam ser recolhidos numa zona própria (assim como pin’s e outros materiais publicitários de fandom, editoras e escritores) ou mesmo na zona de comércio.

Para além disto

Entre o cansaço, as palestras em que participei e alguns contratempos, não foi possível assistir aos espectáculos. Existiam actividades com desenhadores de jogos de tabuleiro, concertos, peças de teatro, bailes de máscaras, leituras e workshops. Ainda assim, descansámos os pés na sala de jogos de tabuleiro (no meu entendimento pequena para este evento mas com uma boa selecção de jogos).

Conclusão

Ir à Worldcon é ir na mesma escada rolante que o George R. R. Martin, cruzarmo-nos com Scott Lynch no corredor e trocar umas frases com Charles Stross ou Steve Jackson. É vermos dezenas de escritores de que gostamos, ao vivo e a cores, num só local. É percebermos que Joe Abercrombie tem um sentido de humor peculiar e que a fabulosa Jo Walton tem um discurso altamente inteligente. É falarmos com os editores de algumas das mais conhecidas editoras dos géneros da ficção especulativa, descobrirmos livros assinados nas bancas e ainda trazermos uns quantos gratuitos de autores que conhecemos. Nos intervalos de tudo isto descobrem-se outros fãs, exploram-se recantos e descansam-se as costas do peso dos livros.

Novidade: As serpentes cegas – Felipe Herñandez Cava e Bartolomé Seguí

Eis o volume desta semana da colecção Novela Gráfica publicado em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público:

Felipe Hernandéz Cava autor de As Serpentes Cegas é considerado como um dos autores de comic mais importantes da sua geração pela sua contribuição para a renovação da banda desenhada espanhola.

O brilhante trabalho do desenhador Bartolomé Seguí já os leitores conhecem de Histórias do Bairro, editado pela Levoir e o Público em 2017 e da adaptação do romance Tatuagem, de Manuel Vázquez Montalbán, em 2018. Em As Serpentes Cegas, Seguí, que habitualmente usa o preto e branco vai usar uma paleta de cores, em especial o vermelho que dá à história uma grande expressividade.

Entre as várias histórias contadas em As Serpentes Cegas, podemos ver o início do Partido Comunista Americano e a perseguição a que os seus membros foram submetidos.

Um enigmático personagem, vestido de vermelho, chega a Nova York em 1939 e instala-se num pequeno hotel à procura de um tal Ben Koch, um espanhol que não respeitou um pacto. O dono da pensão, Red, diz que não tem notícias de Ben, o que o homem não acredita.  Decide esperar por ele, acabando por descobrir que Koch foi visto a destruir um túmulo com um martelo.  Qual o motivo da fúria de Koch? Também ele procura desesperadamente um indivíduo chamado Curtis Rusciano.

Pouco a pouco vamos assistindo à evolução deste personagem, descobrindo que Ben participou nas Brigadas Internacionais que combateram o fascismo durante a guerra civil espanhola. É com ele, que viajamos até à Barcelona de Maio de 1937, com os confrontos entre anarquistas e comunistas, e posteriormente, em 1938 a um dos cenários mais decisivos da guerra civil: A Batalha do Ebro.

Uma história de vingança com a Guerra Civil espanhola e a Grande Depressão em Nova Iorque como pano de  fundo.

Touch – Claire North

Em Touch de Claire North a premissa é simples – na sequência de mortes violentas existem fantasmas capazes de se apropriarem de um corpo e adquirirem consciência nesse corpo. Estas entidades vão saltanto de corpo em corpo, precisando, para isso, apenas de um contacto entre peles.

Kepler é um destes fantamas – um fantasma que prefere ocupar corpos com a autorização dos seus donos, estabelecendo acordos com prostitutas e drogados e dando-lhes novas vidas, novas identidades e novas possibilidades. Mas nem sempre tal acordo é possível e, por vezes, Kepler é obrigado a ocupar o primeiro corpo disponível, principalmente quando está a ser perseguido por uma entidade que quer terminar com todos os fantasmas.

A narrativa de Touch não é linear. Ora nos é apresentado um episódio da existência passada de Kepler, ora um episódio do conflito actual. Kepler viu-se perseguido e agora ocupa o corpo do homem que o tentou matar. Mas enquanto foge e tenta perceber a origem da perseguição, vão-nos sendo mostrados episódios de 1001 existências, desde ricas vidas ao lado de grandes paixões, à dura recuperação de dependência de drogas.

Ao longo da perseguição Kepler percebe que não é o único alvo.  A organização que o persegue já eliminou outros como ele e, ainda que tenha como alvo principal um fantasma conhecido pelos seus assassinatos violentos, Galiley, Kepler consegue perceber que Galileu conseguiu infiltrar a organização. A partir daqui Kepler tenta de tudo, desde alianças a outros fantasmas, à cooperação com outros seres humanos dessa mesma organização.

A premissa é simples e curiosa. Tanto quanto A Súbita Aparição de Hope Arden. Mas em Touch passa a ser possível seguir um caminho de maior acção, diminuindo o desgaste do desenvolvimento de vários episódios sob a mesma fórmula. Tal como em A Súbita Aparição de Hope Arden, a história é contada sob a perspectiva da mesma personagem, partindo do presente para apresentar episódios passados sob a forma de memórias.

Apesar de conter maior variação de episódios do que A Súbita Aparição de Hope Arden, senti que este Touch se alongou um pouco mais do que o necessário para apresentar a história global, possuindo alguns episódios pouco significativos que se tornaram mais difíceis de ultrapassar. Ainda assim é uma leitura agradável e recomendável, tanto pela ideia simples, como pelo desenvolvimento dessa mesma ideia.

Monika – Thilde Barboni e Guillem March

De capa provocadora e centrado numa mulher que se mascara e parece alterar a personalidade,  Monika é mais do que uma capa bonita, laivos de futurismo e de erotismo apesar do início carregado de cliché – uma beldade aluada que procura a irmã desaparecida, ao lado de um amigo de longa data que a ajuda e protege sem rodeios. Rapidamente percebemos existirem vários traumas familiares que, simultaneamente, unem e separam as irmãs.

Em poucas páginas a história adquiri mais profundidade e sentido, constituindo uma narrativa com vários episódios carregados de erotismo e acção que lhe dão um bom ritmo – o amigo encontra pistas que ligam o desaparecimento da irmã a um político em ascensão e Monika mascara-se para se fazer convidar para uma festa secreta onde este estará.

O que se sucede é o expectável. Monika aproxima-se do político com sucesso, atrai e é atraída. O tal político não será responsável pelo desaparecimento da irmã, mas acabam por se apaixonar apesar do relacionamento baseado em mentiras. Paralelamente, o amigo de Monika, que é uma espécie de cientista informático na clandestinidade atiça os inimigos errados e Monika constrói o seu projecto de arte que envolve explosivos – razão suficiente para ser, indevidamente, envolvida em atentados.

Visualmente agradável, a história de premissa quase vulgar, destaca-se pela forma como explora, tangencialmente, outros temas. Por um lado encontramos o desenvolvimento de uma Inteligência Artificial, recorrendo a métodos que pretendem mimetizar a aquisição de conhecimento de um humano. Por outro, encontramos obsessões políticas que se radicalizam rapidamente.

A investigação e as performances artísticas levam Monika a diferentes ambientes onde se mascara e parece adquirir uma nova personalidade. Com a máscara adquire-se uma nova atitude em espaços diferentes, que conferem diferentes nuances visuais. No seu estado natural Monika apresenta-se mais aluada e sensual pela simplicidade no penteado e no vestir (simples, mas subtilmente revelador). Já na festa os desenhos corporais e a pouca roupa, justa, conferem um aura mais cortante e uma consciência sedutora.

O desenvolvimento de uma inteligência artificial é um dos elementos de maior destaque no enredo, apesar de ser justificado por um facto cliché – o amigo de Monika é um cientista escondido que procura desenvolver novas invenções. Depois de um interface com um cérebro verdadeiro constrói-se um micro-sistema de eléctrodos para que o córtex motor consiga captar movimentos. O resultado é um andróide capaz de acção e julgamento – ainda que esta vertente não seja explorada em toda a sua potencialidade.

Monika é uma banda desenhada visualmente agradável que usa diferentes estratégias visuais para destacar alguns elementos (como cenários em que se destaca uma única cor). O foco do desenho e a sua coloração varia bastante ao longo da narrativa, reflectindo o estado de espírito a que corresponde. Ora se destaca a sensualidade da protagonista, ora a forma como não é mais do que um elemento na paisagem. Em termos narrativos é uma história interessante, com elementos futuristas mas que não chega ao patamar do excepcional.

Monika foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Novidade: Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro

O nono volume da colecção Novela Gráfica deste ano (publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público) é Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro. Eis mais informações deste volume fornecidas pela editora:

Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro, tem argumento e desenhos de Daniel Clowes. Volume 9 da colecção Novela Gráfica que a Levoir e o Público editam a 29 de Agosto, foi publicado originalmente em 10 capítulos (entre 1989 e 1993) na revista Eightball, antes de ser publicado como novela gráfica.

Daniel Clowes nasceu em Chicago, estudou arte no Pratt Institute no Brooklyn, em Nova York, é vencedor de inúmeros prémios, incluindo mais de uma dúzia de Harveys, os prémios profissionais dos comics, e seis Eisners, o galardão máximo da BD americana. É também vencedor de um prémio literário PEN. Estreou-se como caricaturista com uma história na revista Love & Rockets (de Jaime e Gilbert Hernandez). Actualmente é um dos nomes mais significativos dos comics alternativos norte-americanos. A atmosfera noir das suas histórias tem influenciado uma geração de cartunistas e artistas gráficos. Conhecido no nosso país pelas suas obras mais realistas, como Mundo Fantasma, os leitores portugueses irão descobrir aqui um dos seus mais estranhos e surreais livros.

Tendo já sido descrita como “uma assustadora jornada de loucura”. Esta novela é, na verdade, uma história policial cheia de reviravoltas narrativas, muitos toques grotescos e momentos de puro horror. Ao assistir a um estranho filme, com o título Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro, no final do filme o jovem Clay Loudermilk reconhece na protagonista, a actriz Barbara Allen, a figura da sua ex-esposa desaparecida alguns anos antes.

Decidido a encontrá-la, consulta um guru que tem todas as respostas e atende as pessoas na casa de banho do cinema porno, que lhe diz que o filme pertence à produtora Interesting Productions do Dr. Wilde situada numa cidade próxima, Gooseneck Hollow.

Decidido a encontrá-la, Clay ruma à cidade onde o filme foi produzido. Pelo caminho encontra gente estranha, entre freaks, extra-terrrestres ou uma seita feminista violenta liderada por um homem, entre outras.

Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro não é uma obra fácil e provavelmente não agradará a todos, mas é uma experiência que deve ser provada nem que seja para poderem apreciar a forma como o autor conseguiu expor artisticamente a perturbação humana.

Vigilance – Robert Jackson Bennett

Enquanto espero pelos próximos livros de fantasia do autor (todos formidáveis até ao momento) resolvei pegar numa temática algo diferente – uma história de ficção científica que decorre num futuro bastante próximo e que parte do pressuposto que o actual medo instigou à legalização de tiroteios organizados e alvo de programa televisivo.

The heart of the matter was that from the beginning, America had always been a nation of fear. Fear of the monarchy. Fear of the elites. Fear of losing your property, to the government or invasion. A fear that, though you had worked damn hard, some dumb thug or smug city prick would either find a way to steal it or use the law to steal it.

Usando o medo no qual os Estados Unidos da América se fundaram, vários locais públicos são levados a indicar a quem os frequenta que, a qualquer momento, pode ocorrer um tiroteio. Legal. Organizado por um programa televisivo. E que dá grandes prémios aos atiradores seleccionados que consigam sobreviver, ou a quem é apanhado na confusão e consegue matar os atiradores. A ideia é de que a população se deve manter sempre vigilante, e transportar consigo, sempre, uma arma.

Quem lucra com isto? Por um lado, quem produz armas. Por outro, o programa televisivo que, com grandes audiências, vende publicidade a preços elevados. Os tiroteios passam a dar-se em condições mais controladas, sendo seleccionados elementos que denotem características de loucura que os podem levar a tal acto. Os espaços em que decorrem são barrados e qualquer pessoa que lá se encontre é impedida de escapar.

É uma história dura. Apesar de não pertencer, à partida, ao género do terror, torna-se terror pela forma como nos mostra a manipulação da audiência, e a instigação do medo à população do que pode acontecer a qualquer momento. Através do canal televisivo todos seguem a chacina, alimentando esperanças de que, se lá estivessem, rapidamente despachariam o atirador.

Ainda que os tiroteios sejam reais, bem como as mortes, muito do que ocorre é manipulado pelo programa televisivo. A hora do tiroteio é determinada pela audiência que se encontra ligada ao televisor. A aparência dos apresentadores do programa é aperfeiçoada para corresponder ao ideal para uma determinada população. As armas dos atiradores são escolhidas pelos próprios mediante um arsenal do programa. Mas não só. No decorrer do próprio programa as feições das vítimas são alteradas para parecerem menos ou mais estrangeiros, os atiradores são aliciados para determinados locais, e é usada uma inteligência artificial que dá pequenos toques que garantem que quem está a ver o programa é incapaz de parar de o ver.

Vigilance fala de uma forma de escape de violência, legalizando-a e alterando-a para proveito próprio. Os tiroteios passam a ser algo usado para proveito próprio, com toda uma indústria que os alimenta e produz, utilizando a linha ténue entre o fascínio pela violência e a instigação do medo. Intercalando os cenários mais impensáveis de violência alienada, o autor tece algumas considerações interessantes sobre a sociedade que seria capaz de produzir tal aberração, mostrando como o medo é usado para temer não só o outro (que vem para o nosso país para nos roubar) mas para temer, até, o vizinho do lado. Reina a desconfiança nesta sociedade onde até as diferenças geracionais, e o sentimento de culpa pela poluição e alterações climáticas, podem ser usadas para sentir fascínio pelos atiradores mais jovens, viris e capazes de empunhar uma arma:

“And that was what had happened – each time the youngster generations had said “this is hurting us” the elders had cried, “you dumb, ungrateful kids! You think that’s hurting you? We’ll just do it twice as much, then!”

Acima de toda a violência, reina um sentido de alienação. As vítimas dos tiroteios decerto não poderiam ser o espectador do programa – que decerto estará sempre atento e preparado, de arma em punho para defender a sua família de uma possível ocorrência.

Máquinas Como Eu – Ian McEwan

Depois de expostas algumas considerações sobre o género da ficção científica eis que posso falar, então, um pouco sobre o livro. Máquinas como Eu decorre numa Londres alternativa dos anos 80. Em que difere esta realidade? Bem, Turing não morreu, desenvolvendo novas invenções que anteciparão o avanço tecnológico dos computadores e da inteligência artificial. A Inglaterra perdeu a Guerra das Malvinas (ou Guerra do Atlântico Sul) – um conflito armado contra a Argentina nas Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul (entre os dias 2 de Abril e 14 de Junho de 1982). O conflito tinha por base a soberania sobre os arquipélagos austrais. No Reino Unido da nossa realidade, a vitória no nosso confronto terá sido decisivo para Margaret Thatcher obter a vitória nas eleições de 1983.

Na realidade de Máquinas como eu, as invenções de Turing permitiram um maior desenvolvimento da Inteligência Artificial e no início dos anos 80 desenvolvem-se os primeiros andróides – seres artificiais de aspecto humano capazes de raciocínio e pensamento, de captar informação do que os rodeia, de agir sobre esta informação e de construir os seus próprios modelos da realidade.

Charlie, a personagem principal, é um daqueles jovens que tem algum dinheiro deixado pelos pais e que passa os dias a investir na bolsa. Fascinado pelas últimas inovações tecnológicas, apressa-se a comprar um dos novos andróides que possuem 1001 adaptações para se parecerem com humanos e causarem a empatia equivalente. Apaixonado pela vizinha com quem sai regularmente, Charlie decide-se a partilhar, com ela, a definição do carácter do andróide – não faltam, claro, os paralelismos com o criar um filho, numa versão mais simplista.

O relacionamento a três é estranho. A máquina vê-se a si própria como um indivíduo, com a capacidade de amar e de agir de forma autónoma, enquanto que os humanos o vêem como uma curiosidade – capaz, inteligente, mas demasiado naive e alienado dos relacionamentos humanos, ainda que se diga, também ele, apaixonado.

Independentemente do andróide, algo que se destaca na narrativa é o relacionamento amoroso entre os dois humanos. Um relacionamento que se apresenta pouco honesto e até conflituoso, que envolve duas pessoas que, em vários episódios, não sabem manter o respeito mútuo e que parecem possui a maturidade de dois adolescentes. Sim, existe uma cena de sexo com o andróide. Mas sendo este percepcionado como uma máquina, não é exactamente neste ponto que defino a existência de falta de respeito. Charlie, a personagem principal, procura atingir os seus fins à base de enganos e mentiras e as conversas nem sempre são racionais.

Este ponto é essencialmente importante porque estes dois seres humanos, demasiado emotivos e pouco dados à capacidade de se verem na pele do outro num relacionamento a dois, vão abrigar um andróide – um ser altamente racional e lógico que não percebe os conflitos éticos quando as leis se confrontam com os sentimentos. Sim, o andróide diz estar apaixonado. Mas até nessa suposta paixão age de forma directa e racional. Quase sempre.

Assim se confronta a máquina com a humanidade. Talvez por esse motivo o autor tenha criado duas pessoas tão emotivas, como forma de as confrontar com a máquina – pessoas com passados, com acções irracionais baseadas em emoções e, sobretudo, que precisam de tomar decisões e que colocam outros aspectos no prato da balança. Os sentimentos e as emoções têm forte peso, bem como as promessas feitas aos falecidos.

E em que patamar deve ser colocado um andróide? Parece um ser humano, parece agir como um. Mas terá o mesmo valor nas considerações éticas e sociais? Sexo com um andróide deve ser considerado ao mesmo nível que sexo com outro humano? Será apenas uma máquina que satisfaz o humano? Terminar um andróide é o mesmo que matar um ser humano? Qual o valor que têm os sentimentos artificiais de um andróide, quando comparados com os sentimentos fabricados biologicamente de um humano? A comparação com um andróide leva-nos a questionar a própria essência do que é ser humano e do que é um ser vivo – em que patamar está um andróide.

Para além do confronto homem-máquina, aqui exposto em ambiente doméstico, em pano de fundo desenvolve-se o futuro do trabalho com a robotização. Ainda que o andróide de Charlie seja destinado à convivência humana, desenvolvem-se outros que têm como objectivo substituir os humanos nas suas tarefas mais rotineiras, começando com a recolha do lixo. E quem deve lucrar com a robotização das nossas tarefas? A humanidade num todo, agora livre para perseguir ocupações mais imaginativas ou as organizações que assim acumulam maior riqueza, levando-se o resto da humanidade à precariedade?

Máquinas como Eu debruça-se sobre tudo isto enquanto desenvolve a narrativa em torno de um trio amoroso criado pelos dois humanos e um andróide. As páginas escorregam em frases fáceis de percepcionar, que se vão focando, ora nas personagens, ora na sua própria percepação da realidade. As acções dos humanos nem sempre são lógicas e compreensíveis fazendo com que a minha empatia pelas personagens fosse diminuída – mas compreendendo que este modo de agir pode ter como principal objectivo o contraste com o andróide.

Trata-se de uma narrativa ligeira, passada numa realidade alternativa com divergências que poderiam ser sido mais exploradas no ponto de vista político. O romance segue um homem comum num mundo diferente, numa premissa que pouco traz de novo ao que já foi feito na ficção científica, tanto do ponto de vista psicológico, como tecnológico, ainda que seja uma leitura leve que se possa aconselhar a quem pretende uma leitura pouco densa em referências científicas.

Afinal o que é Ficção Científica – algumas considerações

Pretendia rever o livro Máquinas como Eu de Ian McEwan. Mas a negação do rótulo de ficção científica para este livro pelo próprio autor, levou-me noutro sentido. Pelo menos por enquanto. Quando vários autores, sucessivamente, escrevem livros futuristas ou em realidades alternativas e rejeitam, veementemente a categoria de ficção científica, levanta-se a questão – afinal o que é a ficção científica? Até onde, quem não conhece suficientemente o género, sabes do que está a falar quando se refere à categoria? E, mais importante, afinal, o livro é, ou não, ficção científica?

Ao contrário do que pensa a maioria, o género não é constituído apenas por narrativas com naves no espaço, sendo que naves no espaço pertencem quase sempre ao sub-género Space Opera. Ainda que, inicialmente, o género da ficção científica fosse atribuído apenas a histórias que se baseiam em novas tecnologias e que partem de conceitos científicos (conhecida como Hard Sci-Fi), a verdade é que hoje o selo abrange distopias e utopias, histórias num futuro imaginado ou, até, histórias que decorrem numa realidade alternativa, mesmo que os seus autores não tentem explicar, cientificamente, a existência ou as divergências destes mundos.

Sim, o rótulo de ficção científica tem sido rejeitada por alguns autores. Questiono-me se estaremos perante uma questão, tão portuguesa nalguns casos, que associa falta de seriedade às deambulações do género. Ou à recordação de histórias mais pulp que, ainda que de leitura divertida, não são de qualidade narrativa excelente. Seja qual for o motivo, existem alguns exemplos de língua portuguesa que rejeitam o género, como O Último Europeu de Miguel Real ou Lenguluka de Onofre dos Santos.

No primeiro caso o autor refere que se trata de um tratado filosófico. E não percebo como tal pode fazer com que o livro não seja ficção científica. Decorre num futuro longínquo. Possui tecnologia avançada e constrói uma civilização com consequências dessa tecnologia, mostrando as suas implicações e objectivos primordiais. A tecnologia não existe apenas porque sim, mas com o objectivo de libertar a humanidade dos constrangimentos orgânicos.

Mas deambulo. Vamos, então pegar nos significados existentes nas enciclopédias.

 “A ficção científica (por vezes referida como Sci-Fi ou simplesmente SF) é um género da ficção especulativa que tem sido chamada de “literatura de ideias”. Tipicamente envolve imaginação e conceitos futurísticos como ciência e tecnologia avançadas, viagens no tempo, universos paralelos, mundos ficcionais, exploração no espaço e vida extraterrestre. Frequentemente explora as possíveis consequências de inovações científicas.

A ficção científica, cujas raízes podem ser encontradas nos tempos mais antigos, tem relação com a fantasia, o horror, a ficção de super-heróis, e inclui muitos subgéneros. No entanto, a sua definição exacta tem sido longamente disputada por autores, críticos e académicos.”

Traduzido da Wikipedia

E o que são, afinal, mundos ficcionais?

“Um universo ficcional, ou um mundo ficcional, é um cenário consistente com eventos e frequentemente outros elementos, que diferem do mundo real. Também pode ser conhecido como um reino (ou mundo) imaginado, construído ou ficcional. Os universos ficcionais podem aparecer em novelas, banda desenhada, cinema, programas televisivos, jogos de computador ou outros trabalhos criativos.

Um universo ficcional pode ser quase indistinguível do mundo real, excepto pela presença de personagens inventadas e eventos que caracterizam o trabalho de ficção. No outro extremo, pode ter pouco ou nenhuma semelhança ao mundo real, com princípios inventados de tempo e espaço.

O termo é usado comummente em universos ficcionais que diferem marcadamente do mundo real, tal como os que introduzem cidades ficcionais inteiras, países ou, até, planetas, ou os que contradizem factos conhecidos sobre o mundo ou a sua história, ou aqueles que contém conceitos de fantasia ou ficção científica, como magia, viagens mais rápidas do que a luz, e, especialmente, aqueles em que o desenvolvimento deliberado do cenário é o foco principal da obra.”

Traduzido da Wikipedia

Para não me acusarem de usar definições que me dão jeito, eis mais delimitadora do género (diria castradora e de vistas curtas, mas enfim), sendo que se referem, na realidade a sub-géneros da ficção científica.

 “Livros, filmes, ou desenhos sobre um futuro imaginado, especialmente sobre espaço ou outros planetas”

“Um tipo de escrita sobre desenvolvimentos imaginados em ciência e os seus efeitos na vida do futuro. “

Traduzido do diccionário Cambridge

Estas últimas são, no meu entendimento, definições simplistas. Mas eis mais algumas:

“Ficção científica, muitas vezes denominada sci-fi é um género da literatura ficcional cujo conteúdo é imaginativo, mas baseado na ciência. Baseia-se fortemente em factos científicos, teorias e princípios como suporte para os seus cenários, personagens e narrativas, sendo isto que faz diferir (o género) da fantasia.”

Traduzido de Termos Literários

Segue-se, no mesmo local, uma adição interessante de Ficção científica Suave (soft science fiction):

“A ficção científica suave é caracterizada por um foco nas ciências sociais, como Antropologia, Sociologia, Psicologia, Política – em outras palavras, ciências que envolvem o comportamento humano. Assim, histórias de ficção científica suave endereçam sobretudo as possíveis consequências científicas do comportamento humano. Por exemplo, o filme animado Wall-E da Disney é uma história de ficção científica apocalíptica sobre o fim da vida na Terra por resultado da negligência do homem pela natureza.

Na verdade, a maioria das obras usa uma combinação de ficção científica dura e suave. A suave permite que a audiência se conecte a um nível emocional, e a dura adiciona evidências científicas reais para que possam imaginar o acontecimento da acção. Portanto, a combinação das duas resulta numa melhor técnica para contar histórias porque deixa que a audiência se ligue à obra em dois níveis. A ficção científica também tem um número infinito de sub-géneros, incluindo, mas não apenas, viagens no tempo, apocalíptico, utopias / distopias, história alternativa, Space Opera e Militar. “

Julgo que este ponto explica a inclusão, no género, de narrativas com menos elementos de engenharia ou de física, e que se debruçam mais nas componentes humanas de um possível futuro, ou confronto com a tecnologia. Como Máquinas Como Eu. Um livro que decorre numa realidade alternativa em que os humanos conseguiram construir androides com uma elevada inteligência artificial, capazes de aprender e apreender do que os rodeia, de conversar e pensar filosoficamente sobre o que são. Nesta possibilidade, como seria o convívio de um ser humano com estes androides? Assim se desenvolve Máquinas como eu, mostrando a inclusão de um androide num núcleo familiar pouco definido.

O Rasto de García Lorca – Carlos Hernández e El Torres

García Lorca foi fuzilado. Entre as facções políticas da Guerra Civil Espanhola, Lorca (sem grandes traços políticos de qualquer sentido) acaba por ser catalogado na secção errada. Mas, afinal, quem era García Lorca? Se, outros livros, tentam encontrar o autor fazendo uma biografia, nesta banda desenhada, procura-se o espaço deixado pela sua morte – tanto na cidade, como nos amigos.

Figura afável, bem disposta e dotado de várias capacidades artísticas, Lorca é recordado como uma pessoa de fácil trato que brilha em qualquer meio artístico. Recolhe-se, assim, a percepção de breves conhecidos e de grandes amigos para criar a imagem de um homem que faleceu demasiado cedo.

O primeiro retrato é a memória de uma criança que viu um grande amigo desaparecer. Com o seu desaparecimento a família foge, pela noite, tentando sobreviver à passagem entre diferentes facções militares. O nome do escritor acaba como escondido por todos os que o conheceram e admiravam. Escondido por medo e por saudade, escondido por causa da Guerra Civil e pelos efeitos que teve na população espanhola.

De teor bastante diferente do outro livro do autor publicado em Portugal (O Fantasma de Gaudí), O Rasto de García Lorca baseia-se numa figura real e nas circunstâncias que rodearam o seu desaparecimento, bem como no espaço que deixou, no vazio entre amigos e conhecidos.

Fantasmas da Mente – Paul Tremblay

Livros de terror que envolvem exorcismos não costumam ser a minha leitura habitual. Ainda assim, este foi muito bem recomendado, e tem recebido excelentes críticas internacionais, pelo que me senti curiosa. O que encontrei é uma história sobre uma adolescente possuída, contada, quase sempre, pela perspectiva da irmã mais nova.

A família Barrett está em processo de degradação económica. O pai, desempregado e desocupado desespera, enquanto a mãe constitui o único sustento da família. Os problemas que começam a surgir são, à primeira vista, os típicos de um agregado em tais condições. A frustração dá lugar a brigas entre o casal e as filhas tentam lidar com a situação isolando-se ou criando os seus próprios mundos.

Merry, a filha mais nova, começa a aperceber-se que a irmã está estranha quando, numa normal sessão em que inventam contos, a história que é proferida é de horror – mas real, citando um acontecimento histórico em que várias pessoas terão ficado presas num mar de melaço e falecido tragicamente. Seguem-se as ameaças e os períodos de transe em que Marjorie, a mais velha, refere ouvir vozes antigas que lhe darão conhecimentos estranhos.

Desesperado, o pai procura, na religião, uma salvação. Por sua vez, a mãe prefere recorrer à ciência mas, não havendo melhoras visíveis com os medicamentos, cede ao acompanhamento por padres com vista a um exorcismo. Em cima de todo este processo, a família é levada a assinar um contrato televisivo para fazer parte de um reality show, prevendo-se que todos procedimentos sejam filmados e visualizados a nível nacional.

Com o programa televisivo expõe-se o problema familiar. Chegam os manifestantes e começa o ostracismo da família na comunidade. A escola torna-se cada vez mais difícil. Mas, ao menos, o dinheiro flui e podem finalmente comer outra coisa para além de massa. Entre operadores de câmara e manifestantes, a vida das jovens torna-se ainda mais isolada e estranha. Merry sente que a irmã mais velha se torna o foco da vida familiar e tenta fazer amigos entre os operadores do programa televisivo. Marjorie tem crises cada vez mais fortes, mais violentas e aterradores e ainda que diga a Merry que tudo não passa de fingimento, as suas justificações são pouco convincentes.

A história centra-se, sobretudo, na visão infantil dos acontecimentos, dada por Merry. Esta visão é alternada por pequenos episódios de uma Merry adulta e por entradas num blog em que se relata um parecer sobre o reality show. Mesmo com todos estes elementos ficamos sem perceber se é suposto acreditarmos numa possessão ou apenas numa crise psicológica – são-nos fornecidas pistas em ambos os sentidos e todos os elementos são dúbios.

O que percebemos, com certeza, é que o ambiente familiar se degrada a passos largos. A religião não fornece o apoio necessário ao pai que age de forma irregular. A mãe refugia-se na bebida, arrependida por ter cedido o espaço privado às câmaras e por ter cedido à prática do exorcismo. Paira uma sensação de impotência que quebra todos os envolvidos, mas, sobretudo, os progenitores – incapazes de tornar a filha saudável e de tomar as decisões correctas (se é que as existem).

Sem apresentar uma versão definitiva dos acontecimentos, Fantasmas da Mente é um page turner, uma história que nos impulsiona a querer saber o que acontece e que consegue surpreender, apesar das pistas que antecipam os episódios determinantes. Trata-se de uma premissa bastante simples, até vulgar, que cativa pela forma como é desenvolvida. No final, podemos fazer várias interpretações – mas qualquer uma delas é inquietante.

Fantasmas da mente foi publicado em Portugal pela TOPSELLER e venceu o prémio Bram Stoker de 2015. Curiosamente, na sessão de The Politics of Horror (Worldcon 2019) o livro foi referido por ser um bom exemplo de crítica social que subverte O Exorcista.

Resumo de leituras – Agosto de 2019 (1)

61 – Osso – Rui Zink – Tal como a Instalação do Medo, este livro do autor decorre num espaço fechado, baseando-se na totalidade na conversa entre duas pessoas, neste caso, um homem preso por tentativa de terrorismo e o seu interrogador. A conversa desenvolve-se, por vezes de forma circular resultando numa maior comunicação entre os dois do que o interrogador pretende. O final tem traços fantásticos, apesar de toda a restante narrativa não ter elementos fora do comum;

62 –O Rasto de García Lorca – Carlos Hernández e El Torres – Enquanto outras narrativas tentam reconstituir o autor através da biografia, esta narrativa centra-se no vazio que o artista deixou nos amigos e na sua terra de origem. Trata-se de uma narrativa em que o artista é, sobretudo, uma figura ausente e se caracteriza exactamente por essa ausência;

63 – Fantasmas da Mente – Paul Tremblay – Uma narrativa curiosa de horror que conta, pela perspectiva de uma menina, os transtornos psicológicos da irmã que se julga possessa. A própria narrativa não tenta impor uma interpretação sobrenatural, deixando  no ar pistas para todas as dúvidas possíveis;

64 – Punk Rock Jesus – Sean Murphy – Este volume da colecção comemorativa dos 25 anos da Vertigo apresenta o retorno de Jesus pelas mãos da ciência. Numa espécie de reality show é explorado este retorno, com a apresentação de uma jovem inseminada com aquilo que se julga ser o clone de Jesus. O responsável pelo programa determina a educação do menino e controla todos os que directa, ou indirectamente, participam – com consequências catastróficas.