Nomeado para diversos Hugo e Nebula, Michael Swanwick é o autor de diversas obras de ficção científica, entre as mais conhecidas The Iron Dragon’s Daughter, The Dragons of Babel ou Jack Faust. Esta última foi recentemente publicada em português pela Saída de Emergência com o título O Verdadeiro Dr. Fausto.

Fausto é uma personagem mítica das lendas germânicas, um académico bastante bem sucedido mas insatisfeito, que fará um pacto com o diabo no sentido de ter acesso a todo o conhecimento e prazer disponíveis no Mundo. Esta história terá inspirado diversas óperas, filmes, livros e até poemas, entre os quais Fausto de Goethe,  Aus Goethes Faust de Beethoven, Scenes from Goethe’s Faust de Schumman, ou The Small Print dos The Muse.

Na adaptação de Swanwick, a história inicia-se com Fausto a queimar a sua biblioteca: após anos de leitura e estudo apercebe-se que todo o conhecimento que detém é relativo e que as contradições são diversas. Frustrado, constrói uma fogueira que alimenta com os diversos volumes, sendo interrompido por Wagner. Este tenta impedi-lo e acaba por aceitar disputar a sobrevivência dos livros, através de um debate apoiado nas três obra de onde derivará todo o conhecimento da época.

Fausto vence, mas, no final, perde os sentidos. Durante o tempo em que permanece desmaiado, ouve uma voz que pertencerá a um distante povo alienígena. Este contacto terá como objectivo dar-lhe acesso a todo o conhecimento possível, de modo a que espécie humana se  extinga mais rapidamente: os alienígenas acreditam que todos os conhecimentos serão utilizados para fins bélicos.

Crente no bom senso dos seres humanos, Fausto dedica-se, de início, a tentar comunicar os novos conhecimentos aos seus pares que, ignorando qualquer evidência ou lógica, o tomam por louco. Desistindo dos académicos, Fausto torna-se responsável por diversos avanços tecnológicos numa época que não está preparada para tal, sendo forçado a abandonar a cidade com Wagner. Em Nuremberga apaixona-se por uma rapariga e toma todas as decisões com o objectivo de a conquistar: aproxima-se dos pais, burgueses, e convence-os a patrocinar as invenções, em troco de uma parte nos lucros.

Inicialmente, Fausto é a pessoa perfeita para receber o conhecimento proposto: inteligente, apercebeu-se das contradições existentes na base do conhecimento da época. No entanto, através dos alienígenas, não é apenas a informação científica que tem acesso, mas também pessoal ou história. Desta forma, corrompe-se pela facilidade de manipular os que o rodeiam, e envereda excentricidade e loucura. São estas que o tornam facilmente condenável, e por último, levam à renegação das suas invenções.

O alienígena funciona como um diabo no ombro de Fausto, sem que exista no outro ombro, nenhum anjo para balancear as decisões. Assim, umas vezes por interesse, outras por ser a única solução que se lhe apresenta, Fausto segue a maioria dos conselhos da voz. Entre as reviravoltas e planos sucessivos, a história torna-se cada vez mais movimentada, acompanhando o desespero e a loucura crescentes de Fausto.

Enquadrado no género da história alternativa, a história é inquietante, por vezes introspectiva, e centrada quase exclusivamente em Fausto, uma personagem contraditória que não inspira grande simpatia, talvez devido às inúmeras falhas de carácter. Para além de movimentado, outro aspecto presente na história é a ironia: todo o conhecimento de Fausto é dirigido para conquistar Margaret, e por mais inocentes que sejam as suas invenções, estas são sempre aproveitadas para desenvolver armas.

Para os interessados em ler o livro, podem encontrar um excerto das primeiras cinquenta páginas, no site da editora, e participar no passatempo que termina hoje.