História Natural da Estupidez – Paul Tabori

A sinopse deste livro começa por nos apresentar uma lista de sinónimos, verbos, nomes e adjectivos relacionados com a estupidez – “Haverá sintoma mais decisivo que o facto de este livro dedicar seis colunas aos sinónimos, verbos, nome e adjectivos relacionados com a estupidez, quando os referentes à sensatez mal chegam a ocupar uma coluna?”.

Sujeito que era tão estúpido que apagava a vela a fim de não ser incomodado pelas pulgas que o mordiam. (…) Burton focou uma das características mais importantes da estupidez ; a apagar da vela – o evitar a luz – o confundir causa e efeito.

O início auspicia e o resto cumpre. Entre notas culturais, históricas, sociais, científicas e religiosas, as páginas estão carregadas de detalhes e factos inusitados, episódios e pensamentos tão idiotas que até ferem a alma. Por esse motivo aconselho a leitura em modo lento, para que se possa saborear cada detalhe.

A estupidez é essencialmente medo – Diz o Dr. Feldmann -, medo de nos expormos às críticas, quer de outrem, quer de nós próprios.

E para isso constrói-se uma visão não confirmada do que nos rodeia, visão através da qual se determinam certezas e preconceitos, e se manipulam populações:

O que habitualmente se designa por preconceito “racial” não passa, de facto, de mera resposta colectiva a ameaças de perdas ou a perdas reais; resposta que não é inata, mas, sim, alimentada pela tradição e por impressões recentes de prejuízos sofridos há pouco.

Mas se as diferenças culturais dão origem à estupidez, também o surgir da economia está carregado de detalhes sumarentos e deliciosos, como o estabelecimento do sistema monetário na ilha de Iape, sem metais, que acabou por fazer moeda a partir de uma pedra. Dado o seu peso, a transferência de propriedade nem sempre era acompanhada por uma transferência de localização, sendo que muitas vezes permaneciam na propriedade original, disponíveis para que os novos donos as visitassem regularmente.

O homem medieval considerou a primeira transacção bancária um acto de feitiçaria; os mistérios do capital perturbavam-no como se se tratasse de fenómenos de perigosa alquimia.

Eis uma afirmação que compreendo completamente. Não sou homem, nem medieval e algumas transacções bancárias também me parece um acto de feitiçaria. Negra. Da economia e das transacções bancárias rapidamente se passa à corrida do ouro e aos alquimistas, burlões que faziam das vãs esperanças dos lordes o seu ganha pão, prometendo a criação do ouro a partir de outras substâncias.

Nunca soberano algum curou de saber qual o motivo por que o alquimista, em vez de fabricar ouro em seu exclusivo proveito, punha tão grande segredo ao serviço de uma cabeça coroada.

O ouro, essa substância valiosa, era, até, utilizada em medicamentos julgando-se ter um efeito quase milagroso:

Misturavam limalha de ouro na alimentação das galinhas e, assim, faziam com que a ave suportasse toda a despesa dos danos físicos: logo que as «virtudes» do ouro tivessem sido absorvidas, matava-se a galinha e servia-se o cadáver ao doente. Esta carne era considerada remédio tão eficaz como qualquer outra preparação de ouro. (…) Por esse motivo enclausurava-se a galinha numa gaiola, a fim de evitar que a ave, na sua prodigalidade, desperdiçasse o metal precioso sobre as flores dos campos.

Não é só pelo ouro que surge a estupidez. A soberba de querer demonstrar uma linhagem perfeita levou muitos nobres a encomendar árvores genealógicas onde se revelariam ligações a personagens da bíblia, ou a figuras mitológicas como a Sereia Melusina (figura de uma lenda muito semelhante à Dama Pé de Cabra).  É esta mesma vontade de demonstrar superioridade que leva à criação de títulos nobres, alguns bastante idiotas:

Ao chefe de serviço de padaria cabia ainda o título de conde da limonada, o que, temos de convir, não soava lá muito bem. Outro fidalgo haitiano alardeava o nome de duque da Marmelada. A leitura dos títulos da nova aristocracia revela outras preferências curiosas: Duque das faces vermelhas, Duque do Posto Avançado, Conde da Corrente Torrencial, Conde Terrier Vermelho, Barão da Seringa, Barão do Buraco Sujo, Conde Número dois.

Ou de regras de etiquetas tão complexas que prejudicam a própria sobrevivência:

Filipe III morreu queimado na lareira porque os cortesãos não conseguiram encontrar, com a rapidez exigida, o funcionário encarregado de deslocar a poltrona do rei.

No seguimento das regras idiotas, claro que não se pode ultrapassar o tema da estupidez sem tocar na burocracia:

Não se pode negar que os funcionários públicos sejam seres humanos e ninguém, até hoje, conseguiu provar o contrário. (..) Mas, em qualquer época e em qualquer clima, uma vez de posse de uma secretária e de um ficheiro, acontece-lhes algo de misterioso e perturbador: o espírito é substituído pela letra, os precedentes expulsam a iniciativa e os regulamentos triunfam da clemência e da compreensão. (…) Os organismos oficiais são o campo de cultura da estupidez, da mesma forma que os pântanos no caso, igualmente pernicioso, dos mosquitos. A doença é inevitável: até o funcionário público mais inteligente sucumbe à infecção.

A burocracia, que tem a capacidade de complicar o que é simples, consegue até produzir fórmulas para o pagamento de funerais:

Basta só isto para não nos espantarmos com o facto de, em França, a natalidade aumentar e o número de óbitos diminuir. As pessoas até sentem receio de morrer.

Entre pombos que não podem pousar em telhados ou mulheres que não têm de suportar maridos que fumem cachimbo no leito matrimonial, a legislação é asnática, carregada de exemplos idiotas e impossíveis de cumprir.

Já a medicina praticada na Época Medieval é algo para se fugir, sendo que se apresentam inúmeros detalhes que, à luz de hoje, parecem o cruzamento de episódios de Monty Phython com cenas de horror:

Compreende-se, desta forma, o motivo por que os pacientes tratados com o «ungento da guerra» melhoravam em virtude de nenhum médico lhes tocar nas feridas», deixando que a Natureza levasse a cabo os seus processos curativos sem interferência do homem.

História Natural da Estupidez consegue, assim, apresentar vários exemplos de estupidez, ao longo de todo o espectro da sociedade, actual e história, percebendo-se, até, porque continuará a ser um sintoma da espécie humana:

A estupidez dói, de facto; simplesmente, é raro que incomode o estúpido.

Um pensamento sobre “História Natural da Estupidez – Paul Tabori

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s