Os tempos do ódio – Rosa Montero

Os tempos de ódio é o terceiro romance de Rosa Montero com Bruna Husky como personagem principal. Trata-se de uma homenagem a Blade Runner de Philip K. Dick que consegue criar uma realidade muito própria, enquanto discute o futuro da sociedade, da tecnologia e da própria humanidade. Trata-se de um brutal romance de ficção científica que explora, sobretudo, a condição humana e o valor da vida.

A personagem – Bruna Husky

Comic baseado nos romances de Bruna Husky

Bruna Husky é uma rep de combate – uma humana criada artificialmente com intuito de combater durante alguns anos. Após esses anos de serviço, pode então integrar a vida civil, entre os restantes humanos. Mas estes reps nunca serão considerados humanos normais – por um lado, possuem algumas diferenças visíveis, por outro, têm poucos anos de vida.

Mas como criar directamente indivíduos adultos, capazes de exercer determinada função, como estes reps? Bem, para além da maturação física, são introduzidas no cérebro dos reps, memórias de uma família e de um lar – memórias estas que permitirão desenvolver indivíduos estáveis e produtivos.

A maioria dos reps de combate integra as forças policiais aquando da transição da vida civil. Esta profissão é a mais fácil dadas as suas alterações genéticas que lhes conferem mais força e rapidez. Mas não Bruna. O seu memorista (pessoa responsável pela criação das suas memórias) deu-lhe um conjunto peculiar de recordações que a fazem ser diferente dos outros reps e acaba por escolher ser uma detective privada – uma profissão onde pode usufruir das suas particularidades genéticas mas ser mais autónoma nas missões que segue.

Bruna Husky não é uma personagem nova. Já tinha sido explorada por Rosa Montero nos romances Lágrimas na Chuva e O Peso do Coração. Neste terceiro romance, a história centra-se menos em mostrar as diferenças de um rep de combate, ou o ostracismo de que sofre em sociedade.

A narrativa

Imagem usada para indicação do lançamento do livro em Espanha (Festival de Málaga) com representação dramática

Ao invés disso, apresenta-nos Bruna num romance com um humano normal, um detective da polícia, Paul Lizard, que segue um importante caso de terrorismo. O romance é intenso mas Bruna sente alguma dificuldade na transicção entre noites fugazes e uma rotina a dois. Parte desta dificuldade advém da sua reduzida esperança de vida – pouco mais de três anos.

Estas preocupações passam a segundo plano quando Paul Lizard é raptado pelos terroristas. Todas as noites é executado um refém e Paul Lizard está na fila para ser apenas mais um que é decapitado em directo em todas as televisões. Bruna Husky inicia as suas próprias investigações, desconfiando fortemente das forças policiais que estão nitidamente corruptas.

Mas Bruna não estará sozinha nestas investigações. Do nada surge a irmã de Paul Lizard, uma mulher peculiar que pertence a uma comunidade que progride fora do sistema tecnológica, sem recorrer a automatismos ou a máquinas. Sem registo no sistema, a irmã será uma figura bastante útil.

A Sociedade

Neste volume explora-se muito mais a sociedade futurista que consegue produzir os reps e quais as circunstâncias que levaram ao intenso terrorismo. O imposto sobre o ar já tinha sido referido. Quem não o consegue pagar é direccionado para as zonas mais pobres do planeta – zonas poluídas pela intensa produção de materiais onde a esperança média de vida dos humanos é muito baixa, e as condições são execráveis.

Quem comanda nas sombras são as empresas. Esqueçam o governo. Raramente é referido neste volume. As empresas constituem um polvo intrincado de influências e de parcelas a nível mundial. Ainda que as empresas sejam muitas, se se tentar saber quem as detém descobrem-se outras empresas. O nível de pertença evolui assim até que sejam descobertas meia dúzia de personalidades que realmente influenciam as várias empresas existentes.

O orçamento destas empresas é usado para influenciar a opinião pública, para pagar grupos armados ou para desenvolver novas invenções – sempre a favor dessas mesmas empresas.

A bomba relógio

O intenso controlo pelos mais poderosos (que deixam apenas o suficiente para que a sociedade esteja à beira de uma revolta) e as péssimas condições de vida dos que não podem pagar os pesados impostos são dois dos factores que fazem desta sociedade uma bomba relógio prestes a explodir!

É neste realidade futurista e distópica que decorre este romance – e num local bem conhecido! A Península Ibérica! Ou não fosse a autora espanhola.

Um romance bem construído

Capa da edição espanhola

Os tempos de ódio é uma construção sólida e envolvente. Em termos de construção o mundo é coerente. Os detalhes que vão sendo apresentados com os acontecimentos (sem info dump) revelam que a autora pensou na realidade e a desenvolveu de forma autónoma.

Esta construção sólida é percebida quando alternamos entre diferentes perspectivas que vão revelando a forma como as limitações daquela sociedade influenciaram o seu desenvolvimento. Esta alternância entre personagens ajuda na percepção de uma maior solidez, dando ao leitor uma visão mais abrangente do que a que têm as personagens.

Em termos de envolvência, as personagens vão revelando as suas motivações e os seus sentimentos. Estes detalhes ajudam na percepção das personagens como seres humanos, criando empatia com o leitor.

Com todos estes detalhes, os livros de Rosa Montero continuam a constituir das melhores ficções que tenho lido – para além dos detalhes futuristas e tecnológicos, apresentam personagens, preocupam-se com o seu desenvolvimento, mas também apresentam vários episódios de acção (distribuídos de forma balanceada) que ajudam a tornar o livro um page turner.

Os tempos de ódio foi publicado em Portugal pela Porto Editora.

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