Afinal o que é Ficção Científica – algumas considerações

Pretendia rever o livro Máquinas como Eu de Ian McEwan. Mas a negação do rótulo de ficção científica para este livro pelo próprio autor, levou-me noutro sentido. Pelo menos por enquanto. Quando vários autores, sucessivamente, escrevem livros futuristas ou em realidades alternativas e rejeitam, veementemente a categoria de ficção científica, levanta-se a questão – afinal o que é a ficção científica? Até onde, quem não conhece suficientemente o género, sabes do que está a falar quando se refere à categoria? E, mais importante, afinal, o livro é, ou não, ficção científica?

Ao contrário do que pensa a maioria, o género não é constituído apenas por narrativas com naves no espaço, sendo que naves no espaço pertencem quase sempre ao sub-género Space Opera. Ainda que, inicialmente, o género da ficção científica fosse atribuído apenas a histórias que se baseiam em novas tecnologias e que partem de conceitos científicos (conhecida como Hard Sci-Fi), a verdade é que hoje o selo abrange distopias e utopias, histórias num futuro imaginado ou, até, histórias que decorrem numa realidade alternativa, mesmo que os seus autores não tentem explicar, cientificamente, a existência ou as divergências destes mundos.

Sim, o rótulo de ficção científica tem sido rejeitada por alguns autores. Questiono-me se estaremos perante uma questão, tão portuguesa nalguns casos, que associa falta de seriedade às deambulações do género. Ou à recordação de histórias mais pulp que, ainda que de leitura divertida, não são de qualidade narrativa excelente. Seja qual for o motivo, existem alguns exemplos de língua portuguesa que rejeitam o género, como O Último Europeu de Miguel Real ou Lenguluka de Onofre dos Santos.

No primeiro caso o autor refere que se trata de um tratado filosófico. E não percebo como tal pode fazer com que o livro não seja ficção científica. Decorre num futuro longínquo. Possui tecnologia avançada e constrói uma civilização com consequências dessa tecnologia, mostrando as suas implicações e objectivos primordiais. A tecnologia não existe apenas porque sim, mas com o objectivo de libertar a humanidade dos constrangimentos orgânicos.

Mas deambulo. Vamos, então pegar nos significados existentes nas enciclopédias.

 “A ficção científica (por vezes referida como Sci-Fi ou simplesmente SF) é um género da ficção especulativa que tem sido chamada de “literatura de ideias”. Tipicamente envolve imaginação e conceitos futurísticos como ciência e tecnologia avançadas, viagens no tempo, universos paralelos, mundos ficcionais, exploração no espaço e vida extraterrestre. Frequentemente explora as possíveis consequências de inovações científicas.

A ficção científica, cujas raízes podem ser encontradas nos tempos mais antigos, tem relação com a fantasia, o horror, a ficção de super-heróis, e inclui muitos subgéneros. No entanto, a sua definição exacta tem sido longamente disputada por autores, críticos e académicos.”

Traduzido da Wikipedia

E o que são, afinal, mundos ficcionais?

“Um universo ficcional, ou um mundo ficcional, é um cenário consistente com eventos e frequentemente outros elementos, que diferem do mundo real. Também pode ser conhecido como um reino (ou mundo) imaginado, construído ou ficcional. Os universos ficcionais podem aparecer em novelas, banda desenhada, cinema, programas televisivos, jogos de computador ou outros trabalhos criativos.

Um universo ficcional pode ser quase indistinguível do mundo real, excepto pela presença de personagens inventadas e eventos que caracterizam o trabalho de ficção. No outro extremo, pode ter pouco ou nenhuma semelhança ao mundo real, com princípios inventados de tempo e espaço.

O termo é usado comummente em universos ficcionais que diferem marcadamente do mundo real, tal como os que introduzem cidades ficcionais inteiras, países ou, até, planetas, ou os que contradizem factos conhecidos sobre o mundo ou a sua história, ou aqueles que contém conceitos de fantasia ou ficção científica, como magia, viagens mais rápidas do que a luz, e, especialmente, aqueles em que o desenvolvimento deliberado do cenário é o foco principal da obra.”

Traduzido da Wikipedia

Para não me acusarem de usar definições que me dão jeito, eis mais delimitadora do género (diria castradora e de vistas curtas, mas enfim), sendo que se referem, na realidade a sub-géneros da ficção científica.

 “Livros, filmes, ou desenhos sobre um futuro imaginado, especialmente sobre espaço ou outros planetas”

“Um tipo de escrita sobre desenvolvimentos imaginados em ciência e os seus efeitos na vida do futuro. “

Traduzido do diccionário Cambridge

Estas últimas são, no meu entendimento, definições simplistas. Mas eis mais algumas:

“Ficção científica, muitas vezes denominada sci-fi é um género da literatura ficcional cujo conteúdo é imaginativo, mas baseado na ciência. Baseia-se fortemente em factos científicos, teorias e princípios como suporte para os seus cenários, personagens e narrativas, sendo isto que faz diferir (o género) da fantasia.”

Traduzido de Termos Literários

Segue-se, no mesmo local, uma adição interessante de Ficção científica Suave (soft science fiction):

“A ficção científica suave é caracterizada por um foco nas ciências sociais, como Antropologia, Sociologia, Psicologia, Política – em outras palavras, ciências que envolvem o comportamento humano. Assim, histórias de ficção científica suave endereçam sobretudo as possíveis consequências científicas do comportamento humano. Por exemplo, o filme animado Wall-E da Disney é uma história de ficção científica apocalíptica sobre o fim da vida na Terra por resultado da negligência do homem pela natureza.

Na verdade, a maioria das obras usa uma combinação de ficção científica dura e suave. A suave permite que a audiência se conecte a um nível emocional, e a dura adiciona evidências científicas reais para que possam imaginar o acontecimento da acção. Portanto, a combinação das duas resulta numa melhor técnica para contar histórias porque deixa que a audiência se ligue à obra em dois níveis. A ficção científica também tem um número infinito de sub-géneros, incluindo, mas não apenas, viagens no tempo, apocalíptico, utopias / distopias, história alternativa, Space Opera e Militar. “

Julgo que este ponto explica a inclusão, no género, de narrativas com menos elementos de engenharia ou de física, e que se debruçam mais nas componentes humanas de um possível futuro, ou confronto com a tecnologia. Como Máquinas Como Eu. Um livro que decorre numa realidade alternativa em que os humanos conseguiram construir androides com uma elevada inteligência artificial, capazes de aprender e apreender do que os rodeia, de conversar e pensar filosoficamente sobre o que são. Nesta possibilidade, como seria o convívio de um ser humano com estes androides? Assim se desenvolve Máquinas como eu, mostrando a inclusão de um androide num núcleo familiar pouco definido.

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