As coisas que os homens me explicam – Rebecca Solnit

IMG_5357

As coisas que os homens me explicam começa por ser um livro de tiradas irónicas sobre a condescendência das explicações que alguns homens depositam às mulheres, apenas por serem mulheres. Para tal, a autora usa uma situação que se passou com ela própria, em que, num jantar, depois de ter dito que escreveu um livro sobre um determinado assunto, o anfitrião começar, em tom de palestra, a referir um livro que seria muito mais importante sobre o mesmo assunto. A parte engraçada é que afinal o livro de que estavam a falar era o mesmo, mas o anfitrião não o tinha lido.

Se a situação que começou o livro pode ser interpretada como podendo ocorrer tanto com homens como com mulheres, basta que o discurso condescendente venha de um(a) asno(a) pomposo(a), os factos seguintes não são passíveis de ser ignorados senão pela perspectiva da histórica fragilidade feminina frente a ideologias seculares de que as mulheres são e podem ser tratadas como propriedade ou de que são inferiores intelectualmente.

Não preciso de ir muito longe para reconhecer algumas referências. Basta ir ver um livro de culinário antigo da minha avó (que não era muito dada a essas coisas da submissão) e que tinha, a par com receitas, alguns conselhos para um bom casamento que incluem frases como “os problemas dele são mais importantes do que os seus, não o sobrecarregue com dúvidas e questões” ou “não questione as suas decisões”.

Se estas referências são antigas e fazem cada vez menos sentido na sociedade portuguesa, no nível económico em que me encontro, não preciso de ir muito longe para ver este tipo de mentalidade ainda na empregada da limpeza que vem cá a casa semanalmente ou na mãe daquele meu amigo que, com medo, mostra submissão e, até, algum medo de lhe repitam as nódoas negras do mês passado.

Para além destas mensagens dispersas e perpetuadas em revistas, a autora evidencia algumas estatísticas e factos associados à violência contra as mulheres. Tratados normalmente mais como casos isolados, quase marginais, e não como um problema cultura e social, perde-se a capacidade de endereçar o problema da forma apropriada – ao invés de se educarem as mulheres a evitar sair de casa, porque não educarem os homens a respeitar os que os rodeiam? Claro, sem generalizações, o que acontece é que basta que um homem em cada cem se sinta no direito de exercer pressão ou violência sobre as mulheres para que permaneça um ambiente de receio.

Mas não precisa de ser violência física ou até psicológica. Quantas vezes não ouvi referências à falta de capacidade intelectual ou lógica das mulheres? Demasiadas e nos meios mais cultos e desenvolvidos. Não precisam de ser referências tão óbvias. Basta que as conversas mais intelectuais sejam constantemente direcionadas ao público masculino ou que, no final de uma refeição de família, as mulheres sejam deslocadas para lavar os pratos, enquanto os homens discutem os problemas económicos da actualidade. Estas pequenas acções (felizmente cada vez mais raras) ajudam a perpetuar a noção de que os interesses e as capacidades divergem, dando um exemplo às gerações seguintes – aquilo que se torna um hábito nem sempre é questionado.

Em Portugal As coisas que os homens me explicam foi publicado pela Quetzal.

Um pensamento sobre “As coisas que os homens me explicam – Rebecca Solnit

  1. Pingback: Resumo de Leituras – Maio de 2016 (3) | Rascunhos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s