Júlia & Roem – Enki Bilal

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Se Animal’Z se baseava no Mundo assombrado pelo desastre ecológico para nos dar uma história deprimente de cataclismo e decadência da espécie humana, Júlia & Roem aproveita uma realidade semelhante e, através da reinvenção de uma obra clássica, fornece redenção e esperança no destino da espécie.

No Mundo que se nos apresenta como cenário a Terra engoliu o mar (ou partes) desfazendo qualquer referência geográfica. Esta repentina mudança levou ao desaparecimento de grande parte de animais (incluindo seres humanos) transformando territórios outrora férteis em terras inóspitas sem fim.

Sem bússolas (não funcionam) e sem pontos de referência, os seres humanos deambulam apenas com direcções vagas materializando de uma forma irónica a inexistência de destino fixo ou de objectivos. Sobreviver? Bastará?

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Entre as partes que se sobreergueram encontra-se um Hotel, uma construção que permite a alguns sobreviventes manterem algum tipo de civilização – não fosse o louco e raivoso irmão de Julia que se diverte a atirar aos poucos animais que passam suficientemente perto.

Simultaneamente um homem, Lourenço, atravessa uma área inóspita de carro quando se depara com dois jovens, Roem e Merkt, à beira da desidratação. Recorrendo às invenções militares que transporta salva-os. Mas não tem tempo suficiente para os conhecer bem – o patrono da família de Júlia (um homem mais velho com recursos importantes para a sobrevivência de todos) encontra-os no seu aparelho voador e resolve trazê-los para o Hotel, tendo em vista alguma convivência civilizada.

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Depressa se torna óbvio a Lourenço que as personagens de um antigo clássico parecem ter-se reunido naquele cenário decadente e de que os acontecimentos se começam a desenrolar como que predestinados. Tendo sido ele próprio um capelão militar e antevendo a desgraça, vai acabar por agir de acordo com o papel que conhece.

Reproduzindo aquela que é, arrisco-me a dizer, a história mais conhecida da actualidade, Enki Bilal parece piscar o olho à necessidade de conhecer não só a história do ser humano, como a produção cultural proveniente de épocas distantes. Mas não só. Esta história reúne também personagens representativas das várias facetas da humanidade – o samaritano, o patrono, o vilão desumano, os amantes que iniciarão novo ciclo – e acaba por lhe dar um final redentor e esperançoso, contrastante com o cenário desolado que rodeia toda a história.

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Tendo gostado mais de Animal’Z (mais futurista e psicótico) é de destacar que Enki Bilal parece aproveitar estes cenários catastróficos para desenvolver histórias de maior esperança do que aparentam, apesar da violência desinibida que surge com a ausência de uma civilização – em Animal’Z a espécie humana reinventa-se e evolui, em Júlia & Roem adapta-se e continua a subsistir com base num único sentimento que parece sobrepor-se a tudo o resto.

Em Portugal Júlia & Roem foi publicado pela Asa (numa boa edição de capa dura, já agora).

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