Manual de Etiqueta – Vilhena

O mais recente lançamento de um livro de Vilhena pela E-Primatur é uma excelente combinação de pérolas irónicas que ridicularizam a sociedade humana, os preconceitos, as regras da boa educação ou a grande importância que se dá à opinião dos outros.

No princípio do mundo vivia-se, como todos sabem, na Idade da Pedra Lascada. Depois apareceram os compêndios de Etiqueta e o homem entrou na época da Pedra Polida.

O prefácio abre com esta frase mostrando hábitos ridículos num enquadramento leve que consegue surpreender com terminações de elevada etiqueta nas mais inusitadas situações.

Mas, o que mais me impressionou, pelo seu refinamento e profundidade litúrgica, foi um compêndio de etiqueta, em espanhol medieval, onde, com a maestria digna dum cozinheiro do Hotel Aviz, se ensine a grelhar um ateu a fogo brando.

A primeira parte, Da Boa Educação em Geral, começa com o nascimento, esse evento ao qual os bebés devem comparecer apenas 9 meses depois do casamento da mamã, e não antes, não vá darem azo a comentários da vizinhança e suposto amigos, os mesmos que no casamento hão-de ter relembrado os mais sórdidos episódios relativos à noiva enquanto decorre o usual atraso para entrar no altar.

Dá-se um toque na infância, no namoro, no casamento, no suicídio ou no perfume, antes de passar à Etiqueta e civilidade nas cadeias, penitenciárias, campos de concentração e outras estâncias de repouso.

Quando resolvermos sair, serremos as grades com uma lima n.º 2 sem fazer muito barulho para não incomodar o carcereiro.

Fala-se de roubalheira num tom muito actual “É mais difícil roubar um relógio que fazer um desfalque num banco. Mais difícil e mais perigoso (ainda seja mais honesto)” , pois estas notas conseguem ser intemporais. Decorrem décadas sem que nada realmente mude na mentalidade e forma de estar.

Já a segunda parte é mais específica às profissões, mostrando-nos conjuntos de regras para as mais diversas profissões, desde políticas a guardas-nocturnos, condutores da carris ou escritores:

Foram os camponeses postos neste mundo para trabalhar, sofrer e dar filhos à Pátria. É preciso que cumpram estes três mandamentos com as boas maneiras que a sua condição social pede. Fazendo parte do «povo soberano» eles devem ser humildes, serviçais, solícitos e de pouca mantença. Nos anos de grande abundância agrícola, ser-lhes-á permitido comer pão, mas sempre com o suor do seu rosto, como mandam as Escrituras.

Com várias (in)directas à ordem social instituída, ao devido respeitinho a quem se encontra numa posição dita superior e à manutenção de uma imagem de suposta seriedade, Manual de Etiqueta é mais um bom exemplo da capacidade crítica da Vilhena, num formato mais conciso e directo que outros livros do autor também publicados pela E-Primatur (História Universal da Pulhice Humana ou Avelina, Criada para todo o çerviço).

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