Luís Corte Real é mais conhecido no meio da ficção científica e da fantasia como o editor da Saída de Emergência. A editora teve um papel determinante no lançamento de várias obras no mercado português, principalmente quando surgiu e lançou vários inéditos e antologias de autores portugueses. Entre a colecção Bang!, o Festival Bang! e o Bangcast (podcast), a editora coloca-se em várias vertentes do fantástico em Portugal.

É no contexto da pandemia que surge O Deus das Moscas tem Fome, escrito pelo editor da Saída de Emergência – uma colectânea de histórias em torno da mesma personagem que decorrem durante o século XIX.

A história

Benjamin Tormenta é um bruxeiro, um homem sem idade que parece não envelhecer ao longo de décadas e que é chamado para resolver casos que se cruzam com o sobrenatural. Dotado de vários conhecimentos, tem a mente ocupada por um demónio antigo que o instiga à violência, mas que também o protege perante os inimigos que enfrenta – para sua própria sobrevivência, claro.

A cada história Benjamin Tormenta é chamado a acudir um diferente caso bicudo, controntando-se com diversas entidades maléficas que aterrorizam os comuns mortais ou provocam transtornos no quotidiano da capital. A maioria das histórias decorre em Lisboa, havendo uma curta passagem por Macau. Pelo caminho, Benjamin Tormenta vai-se cruzando com várias personagens, sendo uma delas, claro, Eça de Queiroz.

Crítica

A personagem principal (Benjamin Tormenta) é a, como o nome indica, um homem atormentado. A criatura (um demónio de nome Lamashtu) que habita a sua cabeça é execrável, populando-lhe a mente com os mais horripilantes pensamentos, envolvendo violência e sexualidade – pensamentos que surgem nas situações mais desconfortáveis, instigando e martirizando Benjamin.

Ainda assim, esta criatura não é totalmente indesejável. Ou, pelo menos, consegue ser útil nalguns momentos, conferindo ao bruxeiro poderes que lhe são úteis na investigação de vários casos em que tem de enfrentar outras criaturas de enormes poderes. Benjamin tenta controlar a criatura, entre dores de cabeça e o ópio – esta substância que consegue conferir algum descanço, mas também o faz entrar numa existência latente. O relacionamento com o demónio é complexo, mas vai sendo explorado e revelado, pouco a pouco – existem, ainda, muitos elementos por esclarecer que espero que sejam tratados nas próximas histórias a publicar.

Do ponto de vista narrativo, o demónio Lamashtu justica a longevidade do bruxeiro, ao mesmo tempo que funciona como ponto de contraste e elemento exótico. Benjamin Tormenta cruza-se com ministros e outras figuras da alta sociedade, estando muitas vezes em situações solenes, e o demónio faz-se ouvir com as mais vis propostas, em verborreias sádicas e vulgares.

Estes discursos do demónio constrastam, pois, com a linguagem mais erudita que Luís Corte Real dá ao restante texto, onde demonstra um vocabulário mais rico e um arranjo mais formal. Esta linguagem mais erudita, que dá uma aura mais clássica (se esquecermos os episódios do demónio) nem sempre funciona a favor da história. Ambienta nas primeiras páginas de cada história, mas diminui a agilidade e a fluidez do texto nos momentos de maior acção.

Não se julgue, no entanto, que Benjamin Tormenta se dá apenas com figuras da alta sociedade. O mesmo homem conhece prostitutas e figuras duvidosas das zonas mais degradadas de Lisboa, cruzando as noites das mais temidas ruas. O autor explora várias realidades diferentes da sociedade portuguesa do século XIX, usando a personagem de ocupação sobrenatural para o fazer.

O Deus das Moscas tem Fome não é um livro de uma só história, contendo seis ao longo das mais de 400 páginas. Cada uma explora uma situação específica, em que os serviços do bruxeiro vão sendo solicitados. Entre mortes suspeitas e desaparecimentos, as situações contêm sempre uma componente sobrenatural que só Benjamin Tormenta poderá enfrentar. Esta forma de apresentar o detective do oculto, de caso em caso, possibilita construir cada história de forma mais contida e eficaz.

Conclusão

O Deus das Moscas tem Fome destaca-se no cenário editorial português – a escrita é cuidada, a narrativa é coesa, a personagem é desafiante e as histórias são intrigantes. Não é, no entanto, um livro perfeito. A linguagem erudita prejudica a progressão dos momentos mais movimentados e algumas personagens histórias não me convenceram. Mesmo considerando estes detalhes, é uma boa leitura que está vários pontos acima da média do que se tem feito por cá. O segundo volume está quase a ser lançado e já está na lista de futuras leituras.