Premiado e nomeado para alguns conhecidos prémios da ficção especulativa, The Ballad of Perilous Graves tem uma capa peculiar e uma sinopse enigmática. O resumo da capa promete uma história diferente e peculiar – algo que cumpre, ainda que com alguns detalhes menos interessantes.

Tal como noutros livros de ficção especulativa, imaginem que Nova Orleães não era uma única cidade, mas várias onde as leis da nossa realidade não se aplicam. São camadas relacionadas que se influenciam e através das quais é possível viajar – para os que conhecem os seus caminhos.

A cidade da outra realidade, Nola, tem uma forte relação com a música como a nossa Nova Orleães, mas com a música vem a magia que faz dançar os espíritos. É nesta cidade que encontramos Perilous Grave, um jovem rapaz que abandonou a sua relação com a música – mas nem por isso se terá afastado do que é mágico.

A premissa é engraçada e, no mínimo, original. A Nova Orleães que conhecemos tem uma forte ligação com Nola, influenciando-se. Fala-se do furação Katrina e de outros fenómenos equivalentes anteriores. Fala-se de uma forte associação com a música e, claro, fala-se de uma grande população afro-americana na cidade.

As personagens falam dos seus antepassados, levados em barcos de negreiros, mas também falam de salvamentos misteriosos e mágicos que lhes dão uma segunda oportunidade. Na actualidade, estas origens são fortemente percepcionadas nalgumas tradições e na forma de falar das personagens, usando-se expressões e grafias que só são legíveis se lidas em voz alta – ambas, tradições e forma de falar usualmente associadas a afroamericanos nos filmes que podemos visionar.

A história vai alternando entre personagens, mostrando como algumas possuem poderes estranhos, não só associados à música, mas também ao desenho. Ao longo da primeira metade do livro acompanhamos as personagens em missões de auto-descoberta, conforme vão descobrindo o passado familiar, ou vão explorando episódios pelos quais passaram quando eram mais novos.

Não é uma leitura fácil de acompanhar. As palavras com diferentes pronúncias, as poucas referências ou explicações do mundo que se nos depara, a oscilação entre realidades – nada ajuda e confesso que me senti perdida durante grande parte do livro. Ultrapassando a parte preparatória, a história ganha mais velocidade com confrontos e missões perigosas, mas mesmo assim, não perde a aura hermética de possuir detalhes que nos escapam.

Curiosamente, trata-se do primeiro livro do autor Alex Jennings, mas ainda assim, é uma leitura sólida e imaginativa, original e interessante. Os elementos que a tornam hermética são, também, aqueles que a distinguem e a tornam mais curiosa. Talvez faltem episódios de introdução que nos permitem compreender melhor as interacções. Mas um dos pontos mais herméticos é o vocabulário e, lá está, esse é também um elemento que compõe o ambiente.

Em suma, The Ballad of Perilious Graves é uma leitura difícil de entrar e de acompanhar, ainda que esteja bem escrito e consiga manter o interesse. Em termos de sensação, pareceu-me que havia alguns detalhes que se me escapavam – há sempre algo que parece não encaixar naquilo que é o meu padrão lógico para narrativas. E é por esse motivo, que não coloco a leitura como uma das melhores dos últimos tempos, apesar de todos os elementos originais.