
Ainda que a capa deste volume se apresente quase minimalista, sem detalhes exuberantes e bastante suave, até escura, o que nos espera no interior são páginas belissimamente desenhadas. Para quem já tinha visto o trabalho deste desenhador (é o mesmo do álbum Fraternity) não será surpresa.
Os desenhos são detalhados e expressivos, com pequenas insinuações fantásticas que nos levam aos limites da realidade. Neste caso, a exploração dos limites está de acordo com a narrativa, que possui dicas para a existência de algo sobrenatural, ainda que esta vertente não seja detalhada nem faça parte do centro da narrativa.



Mas afinal, o que é este El Juego de La Luna? A história decorre numa aldeia do interior onde os habitantes acreditam na existência de algo sobrenatural, falando-se, por exemplo, na lenda do poço, onde uma criatura estaria à espera para puxar as crianças para o seu interior. Este mito, conhecido em várias localidades, teria por objectivo afastar as crianças dos perigos do local – mas será que aqui tem algum fundamento?
A história inicia-se com a perspectiva das crianças, mostrando-nos fascínios e rivalidades bem como na interacções entre irmãos. Neste caso, o foco encontra-se em Artemisa, uma jovem rapariga que deambula pela floresta, fascinada pela Lua, com o seu irmão mais pequeno. Infelizmente, a sua presença parece atrair atenções desejadas e indesejadas, sendo a justificação para que duas crianças oponentes lutem entre si.



Para além da narrativa principal, percebemos que existem figuras estranhas naquela aldeia, sombras macabras que conferem desconforto e que nos levam a perceber que dificilmente esta será uma história feliz. Mesmo quando as crianças deambulam pela floresta, as perspectivas e as sombras parecem fazer-nos acreditar que algo mais está entre os arbustos – sensação que não é totalmente confirmada ou refutada com a progressão da história.
A história decorre entre um tom de lenda e de relato em primeira pessoa, com detalhes que podem ser, ou não, sobrenaturais. Esta validação será realizada nos momentos mais finais. Na perspectiva das personagens, explora as interacções e os remorsos, bem como o fascínio pela Lua, elemento sempre presente.



A narrativa é envolvente, empática e fascinante. Ainda que existam algumas incoerências no tom, a mistura de relato com lenda vai funcionando bem, apesar dos pequenos focos em personagens secundárias que contribuem tangencialmente para a história principal.
O resultado é uma boa leitura, agradável e fluída, envolta num tom de tragicidade, perceptível pelo desenho e pela progressão da história. É uma leitura aconselhável para quem gosta de histórias com um toque de fantástico ou surreal.

