Ou… as Bruxas na Fantasia
1. Mulher que se crê ser capaz de fazer bruxarias, feitiços ou profecias. = FEITICEIRA
2. [Depreciativo] Mulher velha e feia.
3. [Depreciativo] Mulher malvada, cruel.
4. [Depreciativo] Mulher antipática ou rabugenta.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
Tradicionalmente, a figura da bruxa está associada a uma mulher velha e desmazelada, de vestes negras e aspecto assustador, que, de alguma forma, possui poderes mágicos ou consegue manipular a natureza numa determinada direcção para curar ou fazer maldades. Dependendo da região, adoraria a Lua, optando pela noite para dar passeios de vassoura. Viveria em locais afastados das vilas ou das aldeias, isolada e temida pelos locais, acompanhada por animais como os gatos pretos.
Mas não pretendo dissertar sobre as bruxas tradicionais. Existem vários textos interessantes que podem encontrar sobre a visão popular das bruxas (, por exemplo, este de Alexandre Parafita, ou nos livros Bestiário Tradicional Português e Seres Mágicos em Portugal). Nem tão pouco sobre as bruxas “mais reais” na visão anglosaxónica protestante (para tal, podem ler, por exemplo, este livro, Bruxas sobre o fenómeno de Salem).



O objectivo será antes falar um pouco da forma como as bruxas foram reinventadas ou usadas na ficção especulativa, sobretudo fantasia. Claro que esta minha visão está limitada pelos livros que li. Se calhar, começaria por um dos exemplos que está mais próximo da figura tradicional – Hex de Thomas Olde Heuvelt.
Neste caso, a bruxa é uma mulher que foi condenada por bruxaria há alguns séculos (cerca de quatro) e que no seguimento da morte das suas crianças, se tornou uma figura sobrenatural que induz o suicídio e outras desgraças. A bruxa de Hex é velha, carcomida pelo tempo e representa a maldade absoluta, ainda que, na verdade, ela seja a justificação para que algumas pessoas, na sua paranoia realizem actos de extrema maldade.
Seguindo a mesma linha de bruxa enquanto figura tradicional maldosa, é impossível não referir Wytches, a banda desenhada de horror de Snyder publicada em Portugal pela G Floy, onde as bruxas são figuras maléficas e sobrenaturais, de aspecto muito pouco humano. Detentoras de magia, conferem desejos em trocas de sacrificados. Por mais assustadoras que sejam, são criaturas relativamente simples, quando comparadas com a maldade que vem dos humanos que delas se usam.
Já em Harrow County, a bruxa seria uma figura que serve o povo, respondendo aos pedidos de ajuda da população. Mas para a utilização da magia existe uma consequência e ninguém quer admitir que contratou os serviços da bruxa. É mais fácil queimar a bruxa. Mas esta prometeu voltar e algum tempo depois, na mesma árvore em que a bruxa foi enforcada, surge um bebé.
Estas bruxas são, na prática, entidades capazes de fazer magia, mas que são demonizadas pela população que vê nelas o reflexo da sua própria maldade. Não é por acaso que no conto Razorblack, a autora T. Kingfisher afirma o que é depreendido mas nunca dito sobre as bruxas – ninguém gosta de admitir que recorreu aos seus serviços.



Numa lógica de reinventar ou utilizar bruxas conhecidas, Summer in orcus usa a Baba Yaga como uma personagem secundária mas determinante no fluxo narrativo, concedeudo-lhe uma dualidade agradável. Será boa ou má? Em Babayaga pôs um ovo, a autora pega na bruxa mítica e nas suas histórias tradicionais para estabelecer um paralelismo moderno com figuras femininas idosas.
Já Gregory Maguire pegou na Bruxa do Oeste de O Mágico de Oz e criou uma série que começa com Wicked. Nesta série conta a história na perspectiva da bruxa, fazendo com que ela mais não seja do que uma personagem incompreendida que luta pela libertação do reino e pela aceitação dos animais sapientes. Efectivamente, nem todas as bruxas que encontramos são mas e no caso de A menina que circum-navegou o reino encantado num barco que ela mesma fez, as bruxas podem ser boas e más.



Em The Women could fly, a autora resolve explorar outra vertente da mulher bruxa, criando uma realidade onde as mulheres são perseguidas e restringidas das suas liberdades na eventualidade de terem poderes. Neste caso, a bruxaria está no cerne da narrativa, mas serve para relativar o tema da descriminação, usando um elemento inexistente no nosso mundo para a apresentação dos argumentos.
Se quisermos uma abordagem mais surreal, até fantástica, podemos optar pelo clássico O Mestre e Margarita. De ambiente surreal, a história é caracterizada por episódios estranhos e satíricos assim como de imagens fortes: uma escadaria sem fim no interior de um apartamento, uma mulher nua que atravessa a cidade voando num porco ou um gato de metralhadora em punho.
Mas eis que termino com as bruxas divertidas! É impossível não referir as de Terry Pratchett! Como várias outras personagens de Discworld, as bruxas são mulheres peculiares, corajosas e destemidas, mas também esquecidas e trapalhonas. De uma forma tangencial, mas brilhante, refiro também o conto de A.C.Wise, que é um guia cómico de como uma bruxa pode arranjar uma casa.
