Premee Mohamed é a autora do fabuloso The Butcher of the forest, uma narrativa que me surpreendeu pela positiva e que me levou a pesquisar por outros livros dela. Há várias críticas positivas ao seu The Siege of Burning Grass, mas o título deste The Annual Migration of Clouds e a sua descrição intrigaram-me.

A narrativa leva-nos a descobrir uma pequena comunidade de seres humanos que subsiste com dificuldades após a queda da civilização, causada por alterações climáticas e consequentes doenças. O mundo regrediu a uma espécie de sociedade pré-electricidade, quase medieval, ainda que se mantenha algum conhecimento científico, e exista algum equipamento mais moderno (como bicicletas).

No centro da história encontra-se Reid, uma jovem mulher que vive com a mãe numa pequena comunidade denominada de Edmonton. Tal como os restantes habitantes, Reid contribui com a sua parte de trabalho para que todos tenham comida e roupas. Tal como vários outros, Reid encontra-se infectada por uma espécie de fungo, conhecido como Cad, que influencia os comportamentos e os pensamentos daqueles em que co-habita.

O conflito que justifica a história apresenta-se sob a forma de uma carta que indica a Reid ser uma das poucas escolhidas para ingressar uma universidade reconstruída, um centro de conhecimento e possível recuperação civilizacional, que é quase um lugar mítico. É um local distante referido com espanto, mas que ninguém viu ou conhece. Coloca-se então um dilema, e Reid terá de escolher entre manter-se na comunidade, onde todas as pessoas possuem um papel fulcral na subsistência e abandonar a mãe para procurar algo que não sabe se é realmente uma possibilidade de futuro; e entre ter uma nova perspectiva de vida.

The Annual Migration of Clouds desenvolve-se lentamente. Ainda que a queda civilizacional seja relativamente recente, o mundo parece não ter caído num caos total. Sim, sem tecnologia e electricidade a subsistência é dura, mas os sobreviventes organizaram-se em pequenas comunidades, cooperando e partilhando, fazendo a sua parte para obter comida e outros bens.

A história é, portanto, mais pensativa e pausada do que as narrativas pós-apocalípticas costumam ser, mais focada no conflito interno da personagem, através da qual nos é apresentada uma visão reduzida do mundo. É uma visão íntima onde Reid expõe o sentimento de culpa, tanto pela possibilidade de deixar a comunidade, como o sentimento de culpa por ter sobrevivido ao colapso.

The Annual Migration of Clouds distancia-se dos normais relatos pós-apocalípticos por apresentar um cenário em que os sobreviventes entendem a necessidade de cooperação e constroem uma comunidade. Existem pequenas referências a alguns que poderão ter agido da mesma forma, mas globalmente, a humanidade regride à lógica das pequenas aldeias e vilas, onde todos têm o seu papel.

A narrativa não é linear, saltitando entre episódios que decorrem no presente da personagem, e alguns outros que falam do colapso repentino, ou de acontecimentos passados que marcaram as personagens. Recebemos esta informação através dos pensamentos da personagem, ou de conversas que decorrem e que se vão referindo a acontecimentos sobretudo traumáticos.

Este é um livro diferente do esperado, mas cativante. O tom pausado e introspectivo permite perceber que há detalhes por desvendar e fiquei convencida em prosseguir a leitura – o resultado final poderá ser genial ou medíocre, dependendo da forma como a autora vai pegar em determinados elementos. Veremos.