Eis uma daquelas leituras surpreendentes em que já não me recordo quem a aconselhou. O tom verde pastel da capa dá-lhe um ar bucólico, quase infantil. Não fosse o rasto de sangue que se vê do saco. O conteúdo é formidável, contrastando o ambiente pacato de uma pequena vila com a brutalidade de assassinatos grotescos.



A história centra-se em Samantha, uma ursa antropomórfica que vive pacatamente numa pequena vila do interior. Apesar de não ter família e de ter apenas uma amiga de longa data, Samantha consegue ser vista como a vizinha afável que ajuda todos em momentos de necessidade – ainda que seja uma máscara. Nas viagens mensais que a levam à grande cidade planeia assassinatos onde faz desaparecer as suas vítimas sem deixar rasto. Mas numa grande cidade tal é normal.
Mas quando, nas festas da vila, um dos carros de cortejo demonstra um corpo de alguém assassinado, Samantha percebe que tem de encontrar o assassino antes de todos. Ou que os seus segredos poderão ser expostos. Seguindo a sua própria investigação, irá confrontar vários suspeitos, numa sequência que demonstra o ambiente típico de vila pequena.



Beneath the trees recorda a série Dexter. Samantha é uma assassina meticulosa que prepara os seus assassinatos com precisão, precisando destes momentos de total controlo sobre as vítimas para se manter psicologicamente estável. Talvez exactamente por isso, Samantha expressa que nunca mataria no local onde vive e se esconde em comunidade. O aparecimento de vítimas no seu local de controlo é algo que a deixa de sobreaviso – não só por se poder ver envolvida na situação, mas porque o assassino demonstra alguma imaturidade na execução.
O enquadramento permite desenvolver o ambiente de terror numa vila pequena, onde os seus habitantes, habituados ao conforto de conhecerem todos e viverem com previsibilidade, rapidamente se viram uns contra os outros, demonstrando que o medo origina raiva e violência. Alguns descobrem, também, que, apesar de todos os anos de convivência social, afinal se conhecem muito pouco, revelando-se alguns segredos ao longo da história.



O aspecto das personagens, caracterizadas com animais de aspecto antropomórfico, os tons pastéis usados e o tipo de desenho recordam as típicas histórias infantis. Este ambiente choca com as acções protagonizadas, onde vemos cabeças cortadas ao meio, cérebros expostos e pescoços degolados. O contraste é simultaneamente curioso e divertido, uma subversão ao estilo visual que se transforma num dos pontos fortes deste volume.
Tal como em Dexter, a narrativa centra-se na perspectiva da assassina, que, vivendo num forte enquadramento de regras, parece encontrar-se fora dos normais constrangimentos sociais e morais. Não encontramos, portanto, uma discussão sobre o certo e o errado, e apesar dos contornos sangrentos, existe uma dualidade narrativa sobre a personagem principal, que, apesar das mortes, não é totalmente retratada como um monstro descontrolado.



Beneath the trees – where nobody sees apresenta uma história completa num volume único, com princípio, meio e fim, onde a progressão é intrigante e constante, levando-nos a apreciar a forma como procede na investigação e como se envolve com os suspeitos que vai encontrando. É, portanto, uma boa leitura, que se destaca pela subversão do visual e pela execução limpa, pragmática e directa.

