Autor conhecido pelos seus thrillers, R. J. Ellory tem vários livros premiados, destacando-se A Quiet Belief In Angels que vendeu mais de dois milhões e meio de cópias e foi traduzido para 26 idiomas. A obra iria ser nomeado para o Barry Award para melhor ficção criminal inglesa, acumulando noutras geografias também algumas nomeações e prémios. É este romance que é adaptado para banda desenhada com o título Apenas o Silêncio.
A história centra-se num jovem rapaz, Joseph Vaughan, no final dos anos 30, que cresce em Augusta Falls, uma pequena cidade da Georgia. Entre a tensão da guerra, e a morte do pai, o jovem rapaz é afectado pela morte de diversas jovens raparigas em torno da sua cidade. Sem pai, mais dotado para a escrita, Joseph vai crescendo na cidade, e assumindo o papel de pária – principalmente após o fogo que consome a casa dos vizinhos, e a loucura galopante da mãe.



As mortes sucedem-se. O isolamento social de Joseph, o internamento da mãe e o seu envolvimento com a mulher que foi a sua professora não ajudam a que tenha uma boa imagem junto da localidade. Acabará por ser aconselhado a mudar-se, acabando por ingressar na faculdade e tentar a carreira de escritor. Mas mesmo assim as mortes perseguem-no.
Ao longo da narrativa percebe-se que existirá alguma relação dos crimes para com Joseph, ainda que não seja explícito qual a relação. O jovem não é, no entanto, apático aos crimes e tenta criar uma brigada de protecção para proteger as meninas locais – uma iniciativa sem sucesso que irá frustrar a personagem principal, que se culpa pela sua incapacidade em prevenir os horríveis assassinatos.
Ainda que a história apresente uma sucessão de crimes (e as próprias percepções de Joseph), a narrativa não se limita a esta abordagem, acompanhando o crescimento da personagem principal. Começa com uma sucessão de eventos traumáticos (a morte do pai, os homicídios, aos quais se junta a tensão da Guerra e os problemas psicológicos da mãe), acompanha os seus primeiros passos literários, mas também a maior maturidade social, ainda que seja sempre assombrado pelos corpos que descobriu em jovem.



Mas a história não se foca apenas nas mortes e na forma como Joseph reage. Em pano de fundo percebemos o efeito das tensões da Segunda Guerra Mundial que trazem instabilidade económica, mas também preconceito e xenofobia. Inicialmente procura-se alguém que se destaque na comunidade, potencialmente uma pessoa de cor diferente ou um vagabundo, mas rapidamente se passa a olhar para a família de origem de alemã que, apesar de simpáticos, são os alvos perfeitos para a desconfiança local. Mais do que procurar verdadeiros culpados através de uma investigação metódica, a comunidade reage procurando os que serão mais diferentes ou considerados menos integrados – decerto não será um americano típico o culpado.
Apenas o silêncio é, assim, uma história peculiar, que, ainda que enquadrado no género thriller, é um pouco mais introspectivo do que o esperado. É, também, menos movimentando, dando espaço entre os acontecimentos para desenhar um retrato da comunidade da época, e mostrar, mais do que expressar directamente, como é que esta sociedade reage perante às tensões e as catástrofes que acontecem. Uma leitura que me surpreendeu pela positiva e que aconselho – não só aos que gostam de thrillers, mas também aos que gostam de passagens mais introspectivas.
