
Eis uma série de que desconhecia a existência e que me foi recomendada pela IA que estou a treinar para me fazer recomendações. Segundo a IA, trata-se de uma série que poderá interessar sobretudo pelo mundo apresentado, ainda que a personagem principal seja pouca explorada, e pela forma como aborda o conhecimento. E o que encontrei vai de encontro a estas expectativas. Trata-se de uma história nomeada para o prémio Locus de 1990 que, pelo primeiro volume, se encontra mais no género da ficção científica do que na fantasia, apesar da existência de magos (ou serão os seus poderes baseados em tecnologia?).
A história centra-se numa steerswoman – uma mulher cuja função é conhecer e dar a conhecer. Como qualquer steerswoman, vai explorando o que a rodeia, existindo um acordo naquela sociedade onde todos devem responder às perguntas de uma steerswoman, se quiserem ver qualquer das suas perguntas respondidas. Se a pessoa se recusar a responder, será barrado de fazer perguntas a qualquer steerswoman. Mas estas pessoas não são as únicas que detém conhecimento, existindo diferentes ordens de magos que detém capacidades perigosas – capacidades que, consoante a história avança, parecem estar associadas a elevada capacidade tecnológica.
Rowan é a personagem principal – uma steerswoman curiosa (como é normal na sua ocupação) que inicia uma conversa com Bel, uma outskirt, uma habitante das terras inóspitas onde os humanos vivem em tribos nómadas numa estalagem, direccionando as perguntas sobre umas pedras diferentes que existirão sobretudo na região isolada. Após esta conversa, Bel irá pedir a Rowan para se tornar sua companheira de viagem, sendo uma forma de conhecer novos territórios e costumes. Mas aquilo que deveria ser uma viagem pacífica rapidamente se revela mais perigosa do que é suposto, sendo ambas alvo de uma emboscada e fugindo do fogo na próxima estalagem onde param.
Lentamente, Rowan percebe que as perguntas que fez sobre os pequenos objectos são incómodas para os magos, tornando-a um alvo a abater. Para poder investigar e descobrir quem a tenta matar e porquê, Rowan terá de rever a sua promessa como Steerswoman, viajando incógnita e omitindo a sua ocupação, ao mesmo tempo que se alia a um jovem rapaz que pretende tornar-se mago.



Ainda que a história pareça enquadrar-se inicialmente como magia, vão existindo pistas de que se tratará de um mundo pós-apocalíptico onde o pouco conhecimento tecnológico que existe (sob a alçada dos magos) é visto como magia. Estas pistas vão sendo distribuídas e subtis, com referências a mecanismos e a hábitos de um tempo passado, bem como a uma religião que parece apresentar os resquícios da cristã.
O desenvolvimento é relativamente lento. Rowan e Bel vão explorando a região que poderá estar associada à emboscada, descobrindo pistas do envolvimento dos magos, bem como de vilas onde o normal quotidiano foi perturbado (e omitido) pela sua actividade. Ainda que a aventura proporcione pistas sobre quem poderá estar por detrás da perseguição a Rowan, o motivo de tanto interesse para quão as pedras peculiares vai permanecer um mistério a explorar nos próximos volumes.
A história centra-se sobretudo em Rowan e na sua investigação, mas explora pouco a personagem. Sabemos os raciocínios lógicos (e matemáticos) que partilha com Bel e outras personagens, mas pouco do seu passado e das motivações para se ter tornado uma Steerswoman. É neste aspecto que julgo que a história poderia se ter tornado mais envolvente, dando um pouco mais de palco para percebermos Rowan e sentirmos mais empatia por ela, sobretudo com nas situações mais tensas e perigosas.
Ainda que tenha gostado da narrativa (tanto que corri a comprar, e a ler, o segundo volume) existem alguns elementos que me pareceram algo naives no desenvolvimento da história. A ligação de Rowan com Bel estabelece-se de forma demasiado casual para ter a força que tem tão cedo na história, revelando-se crucial para o desenvolvimento. Para além disso, a forma como Rowan passa a ser foco de interesse pelos magos e se escapa tão facilmente também é algo pouco verosímil.
A história foca-se bastante na premissa da profissão de Steerswoman, o elemento efectivamente mais interessante que vai mover a narrativa, tentando mostrar como é uma ocupação essencial naquele mundo, onde a omissão do conhecimento ou o fornecimento do conhecimento errado pode ser fatal para a sobrevivência da população. Uma steerswoman partilha e recolhe conhecimento, distribuindo-o e mantendo, sem tentar captar poder por isso – postura que nitidamente não é partilhada pelos magos.
Tal como outras histórias ficcionais, esta série parece seguir a premissa de que, para quem não tem conhecimento tecnológico, a ciência parece magia. Digo parece porque as pistas que vão sendo deixadas na narrativa assim o parecem indicar, ainda que não esteja ainda comprovado na progressão da história. Novamente, parece estarmos perante um mundo pós-apocalíptico e a minha grande expectativa é que as pedras que Rowan explora estejam relacionadas aos detalhes tecnológicos deste mundo.
Apesar dos elementos mais naive é uma história que vale a pena conhecer, destacando-se pelo mundo construído e pelas dinâmicas em torno do conhecimento. Já tendo lido o segundo volume nota-se uma evolução na narrativa, começando a desenvolver personagens e sendo mais cuidadosa na forma como desenvolve relacionamentos e tenta evitar algumas coincidências. Em suma, é efectivamente uma série que desconheço e que parece estar esquecida.